KuraTudo

Bordado Janela de Casa Velha

O dia começou confuso? Remédio: uma dose de Poesia ao dia.

A cabeça tá agitada com perturbações prosaicas? Uma dose de Poesia ao dia.

O gerente do banco ligou? Uma dose de Poesia ao dia.

Bateram no teu carro? Uma dose de Poesia ao dia.

Brigaste com o amor da tua vida? Duas doses de Poesia ao dia.

Fizeste “as Paz”? Overdose de Poesia.

 

*imagem capturada na internet

Sarau: Poesia em Pedaços

tipografia em madeira de demolição

O Quintana diz que já está na plataforma só esperando o “Trem de Belém”.

O Vinícius, que não é bobo, garantiu dois ingressos: um pra ele, outro para sua amada. Diz ele que essa é a derradeira, porque “resta um raio de luz quando ela passa” (o povo esperando ver pra crer).

A Adélia deixou pra “limpar os peixes” mais tarde, botou seu “vestido estampado em fundo preto”, e assegura que não perde o Sarau por nada desse mundo!  Que vai trazer o “Jonathan”.

O Manuelito diz que está só finalizando umas “coisas desimportantes” à beira da sua “cobra de vidro” e chega já. Que é pra ir começando.

O Gullar alerta que é melhor aproveitar que a Poesia é de graça, ao contrário do “pão que tá caro”. O Manoel, obstinado, tomou posse da Fratelanza e afixou lá uma Bandeira onde se lê: “Pasárgada”.

O Leminski saiu de casa hoje, bem cedo, pois, como se sabe, “caminha assim de lado”, coitado, com sua dorida elegância. Foi autorizado a chegar atrasado, ele que já está “mais adiante”.

O Drummond vem afiado, pronto para o embate, pois sabe que a Poesia se aprende é no exercício do fazer, que nem o amar que só “se aprende amando”.

A Cecília, com seus olhos cor de água, anuncia que, de novo,  vai aproveitar para “reinventar a Vida”, poder inalienável da Poesia.

O Neruda, sempre dramático, roga: “Tirem-me o pão!”, mas não me deixem fora disso!

O Mário de Andrade, afetado, avisa que chegará com a “escurez”. Periga dar de cara com a Clarice que, por whatsapp, diz que chegará à exata “Hora da Estrela”.

O Fernando, que só vem  em comitiva, confirma a presença e logo desliga, atrapalhado que está com a lista de Pessoas.

É bom mesmo que venham todos, pois assim como “Um galo sozinho não tece uma manhã”, como bem diz o João Cabral de Mello Neto, um poeta sozinho não entretece uma “rede de estrelas” de  bom tamanho para uma noitada de Poesia.

Vais ter coragem de faltar a esse encontro?

 

*Imagem capturada na Internet

O Incriado

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… Eu sou o Incriado de Deus, o que não pode fugir à carne e à memória

Eu sou como o velho barco longe do mar, cheio de lamentações no vazio do bojo

No meu ser todas as agitações se anulam – nada permanece para a vida

Só eu permaneço parado dentro do tempo passando, passando, passando…

 Excerto do poema de Vinícius de Moraes

Foto: Édouard Boubat

O Que a Musa Eterna Canta

Cesse de uma vez meu vão desejo

de que o poema sirva a todas as fomes.

Um jogador de futebol chegou mesmo  a declarar:

‘Tenho birrra de que me chamem de intelectual,

sou um homem como todos os outros’.

Ah, que sabedoria, como todos os outros,

a quem bastou descobrir:

letras eu quero é pra pedir emprego,

agradecer favores,

escrever meu nome completo.

O mais são as maltraçadas linhas.

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Poema: Adélia Prado

Bordado: Norma Bruno

Gares

Foto Joaquim Araújo 2

Faz tanto tempo que se está esperando – o trem que não vem, o trem de Belém, – que as bagagens alheias, amontoadas no banco, cheiram-me a poeira de séculos: devem estar aqui, embolorando, o caduceu de Mercúrio, a cabeleira de Absalão, uma peça íntima de Cleópatra, um báculo de bispo, uma tabaqueira de Luís XV, um olho de vidro, uma fivela, uma bolsa de água quente, um lenço com um nó, um…Pestanejo. Sinto-me tão infeliz… Para que me fui meter nesse triste inventário, meu Deus? E, a cada suspiro que dou, o meu anjo da guarda perde mais uma peninha da asa.

Foto: Joaquim Araújo. Texto do Quintana (E quem havéra de ser?)

O Desencantado

Meu Príncipe é desencantado.

Na verdade, é um Rei, um iniciado. Tem o peito marcado pelas dores e as guerras que trava contra si mesmo.

Meu Rei está vindo do seu Reino Muito Distante – toda pessoa vive em um Reino Muito Distante -; quando chegar, eu lhe darei um beijo e despertaremos os dois.

Meu Rei está vindo do seu Reino Muito Distante e, pela demora, acho que tem um cavalo manco.

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O texto é meu. A foto é do Édouard Boubat.