O Tamanho da Fome

Foto: Joaquim Araujo. Varal da Trajano

Foto: Joaquim Araujo. Varal da Trajano

Mal atravessei a rua ele me abordou: – Paga um lanche pra mim, tia? Tô com fome! Tem uma lanchonete ali, ó!  Girei sobre os calcanhares enquanto ele contava o resto do enredo: – Se a senhora puder me ajudar com algum trocado pra comprar a passagem pra Imbituba… Eu sou de lá. Acabei de sair da Penitenciária. Cumpri oito anos… Eu pago o teu lanche, respondi. Na entrada da lanchonete o proprietário me lançou um olhar preocupado: – Pode escolher o lanche que tu quiseres, eu disse enquanto olhava para o homem como a dizer “está tudo bem”. Ele relaxou e passou a dar atenção ao jovem. Eu sugeri: – Queres um sanduíche? (mais nutritivo, maior, dá mais sustança, pensei). Ele: – Prefiro este aqui, apontando um empanadoe um refri. – Não preferes um suco? É mais saudável. Ó, eu me metendo! Ele disse: – Pode ser. De laranja. O atendente: – Vai comer aqui ou quer que embrulhe? – Já vou comendo, ele respondeu. Agradeceu e sumiu.  

Saí apreciando as vitrines coloridas da Vidal. Meu destino: o Varal da Trajano, a exposição fotográfica que destaca o trabalho dos nossos melhores profissionais sempre no último sábado de cada mês. Naquele dia o destaque era o trabalho do fotógrafo Joaquim Araújo, um apaixonado pela cidade e suas gentes. Como eu.

Quando cheguei o artista conversava com algumas pessoas. Ao redor, homens barulhentos portando máquinas fotográficas pareciam um bando de meninos com seus brinquedos no dia seguinte ao Natal, tal o entusiasmo. Aquilo merecia um registro.

Lindo o trabalho do Joaquim Araújo e que projeto maravilhoso o Varal da Trajano! Excelente ideia essa de reocupar os espaços centrais da Cidade através da Arte.

O Joaquim e eu nos avistamos de longe e caminhamos de braços abertos um em direção ao outro. Um abraço de alegria em dose dupla pelo sucesso da exposição e porque – até que enfim! -, nos encontramos pessoalmente. Bendito seja o Facebook!

Estávamos ali, animados, comentando a exposição e viajando nas fotos quando alguém bateu em meu ombro: – Paga um lanche pra mim, tia? Tô com fome!  Era ele. Eu protestei: – Eu acabei de pagar um lanche pra ti. Muito educadamente ele disse: – Só que não matou a minha fome!

Foi como um soco no peito. – Desculpa. Tens razão. Quem sou eu pra determinar o tamanho da tua fome?  O dinheiro que eu tenho aqui eu vou precisar – olhei em volta – pede pra aqueles moços ali e indiquei o bando de meninos com seus brinquedos.

Aprendi uma preciosa lição: Cada um sabe o tamanho da sua fome.

Obrigada, Luciano.

As Ruas

Ribeirão da Ilha

Ribeirão da Ilha

No tempo
em que havia ruas,
ao fim da tarde
minha mãe nos convocava:
era a hora do regresso.
E a rua entrava
connosco em casa.
Tanto o Tempo
morava em nós
que dispensávamos futuro.
Recolhida em meu quarto,
a cidade adormecia
no mesmo embalo da nossa mãe.
À entrada da cama
eu sacudia a areia dos sonhos
e despertava vidas além.
Entre casa e mundo
nenhuma porta cabia:
que fechadura encerra
os dois lados do infinito?

De Mia Couto,

Tradutor de Chuvas.

do Perfil Mia Couto no Facebbok

A Casa, o Frio, a Intimidade

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Gaston Bachelard

Na casa tudo se diferencia, se multiplica. Do inverno, a casa recebe reservas de intimidade, delicadezas de intimidade. No mundo fora da casa, a neve apaga os passos, embaralha os caminhos, abafa os ruídos, mascara as cores. Sente-se em ação uma negação cósmica pela brancura universal. O sonhador da casa sabe tudo disso, sente tudo isso, e pela diminuição do ser do mundo exterior sente um aumento de intensidade de todos os valores da intimidade.

De todas as estações, o inverno é a mais velha. Envelhece lembranças. Remete a um passado longínquo. Sob a neve, a casa é velha. Parece que a casa vive no passado, nos séculos remotos.

‘Eram noites em que, nas velhas casas cercadas de neve e de vento frio, as grandes histórias, as belas lendas que os homens transmitem assumem um sentido concreto e se tornam suscetíveis para quem as penetra, de uma explicação imediata. E foi assim, talvez, que um de nossos ancestrais pode crer no mundo. (…) Parece-me que (sob o manto da vasta chaminé) as velhas lendas deviam ser então muito mais velhas do que são hoje. (…) Quando nossos companheiros de serões partiram com os pés na neve e a cabeça entre as rajadas, parecia-me que iam muito longe, até terras desconhecidas onde habitavam as corujas e os lobos. Eu ficava tentado a gritar-lhes, como tinha lido nos meus primeiros livros de história: ‘Vão com a graça de Deus!’ ‘ (Henri Bachelin citado por Bachelard em A Poética do Espaço).

Frio dos Cornos

Foto: Carlos Amorim

Foto: Carlos Amorim

Por falar em tomar banho em dia de frio, conto-lhes uma clássica crônica familiar:

Meu pai era muito friorento. Magro e calvo, foi privado dos recursos da Natureza para enfrentar os rigores da estação. Minha mãe, ao contrário, nasceu apetrechada. Daí que o seo Lourival tinha que se virar quando os termômetros começavam a cair. E se virava. Duas meias, camiseta, dois casacos e um indefectível cachecol caramelo com um barrado de trama bege da melhor lã inglesa que, por falar nisso, não sei onde foi parar. O homem não esquentava, coitado!, por isso andava sempre com os ombros encolhidos e as mãos cruzadas. De vez em quando estremecia todo e fazia: – Brrrrrr!!! Sabe como?

À noite a coisa piorava, mas aí ele tinha lá suas estratégias: forrava a cama com jornal, ajustando por cima o lençol e as cobertas. Nossas camas também. Para esquentar os pés, a parte mais dramática, “assava” um tijolo num velho braseiro tipo Gengis Khan – meia hora de grelha, mais ou menos -, enrolava-o primeiro em jornal, depois  numa fronha velha, e colocava-o no pé da cama. Na cabeça um gorro de tricô que minha mãe fez para ele. Era tiro e queda! A cama ficava quentinha – uma delícia! – e, na madrugada, era aquele tal de sair atirando coberta pro lado tanto que aquilo esquentava. O jornal fazia barulho quando a pessoa se virava na cama, era engraçado, e aí a gente se mexia de um lado pro outro fazendo concurso e, em  geral a coisa só terminava quando o pai dava a ordem lá do quarto, a voz cheia de autoridade: – VÃO DORMIR! (risos abafados seguidos do mais absoluto silêncio).

A melhor, no entanto, e que já entrou para o anedotário da família, era quando ele chegava na sala todo embrulhado num cobertor, apenas os olhos e o nariz a descoberto, e perguntava para minha mãe que, aninhada conosco sob as cobertas, assistia a novela:

– Mulhé, tu vais me usar hoje?

Ela, que sabia sua parte no enredo, respondia:

– Não.

E ele:

– Então não vou tomar banho hoje não! 

E saía se sacudindo de tanto rir. A gente se sacudia também. A mãe falava rindo:

– Bobo!

Banho de Mané em Dia de Friáj

Diz a Benta: – Ô cumádi! Comé qui tu faj pá tomá banhu cum essa friáj?

Diz a Cota: –  Ô só lavu aj parte, cumádi.

Diz a Benta: – I comé qui tu faj pá lavá aj parte cum essa friáj,  cumádi?

Diz a Cota: – Ô botu u’a chaleira di água pá fervê bem morninha, pegu u’a fronha velha bem limpinha e si lavu, cumádi.

Diz a Benta: – Tá. Mai tu tira ai luva?

Diz a Cota: – Porquindáj!

Artivismo: um Novo Olhar sobre a Cidade

A Casa Triste. Imagem capturada no site www.boredpanda.com

A Casa Triste. Imagem capturada no site http://www.boredpanda.com

A Arte conduz o olhar distraído e dá visibilidade às casas, aos prédios e aos equipamentos urbanos maltratados ou abandonados. Artvismo do artista Diogo Machado, de Portugal.

Imagem captada no site www.boredpanda.com

Imagem captada no site http://www.boredpanda.com

Via perfil de Cora Ronai, no Facebook.

http://www.boredpanda.com/ceramic-tile-illusion-diogo-machado-portugal/