Me Alugo para Sonhar

Gabriel García Márquez

1927 – 2014

Os alegres voluntários cubanos, com a ajuda dos bombeiros, recolheram os destroços em menos de seis horas, trancaram a porta que dava para o mar e habilitaram outra, e tudo tornou a ficar em ordem.

Pela manhã, ninguém ainda havia cuidado do automóvel pregado no muro, pois pensava-se que era um dos estacionados na calçada. Mas quando o reboque  tirou-o da parede descobriram o cadáver de uma mulher preso no assento do motorista pelo cinto de segurança.   O golpe foi tão brutal que não sobrou nenhum osso inteiro. Tinha o rosto desfigurado, os sapatos descosturados e a roupa em farrapos, e um anel de ouro em forma de serpente com os olhos de esmeralda.

A polícia afirmou que era a governanta dos novos embaixadores de Portugal.

(…)

Eu a havia conhecido 34 anos antes em Viena, comendo salsichas com batatas cozidas e bebendo cerveja de barril numa taberna de estudantes latinos.

(…)

Achei  que era a única austríaca ao longo daquela mesona de madeira, pelo castelhano primário que falava sem respirar com sotaque de bazar de quinquilharia. Mas não, havia nascido na Colômbia e tinha ido para a ´Austria entre as duas guerras, quase menina, estudar música e canto.

(…)

Eu não teria conseguido imaginado um ambiente mais adequado para aquela compatriota fugitiva… Nunca disse o seu verdadeiro nome, pois sempre a conhecemos com o trava-língua germânico que os estudantes latinos de Viena inventaram para ela: Frau Frida. Eu tinha acabado de ser apresentado a ela quando cometi a impertinência feliz de perguntar como havia feito para implantar-se de tal modo naquele mundo tão distante e diferente de seus penhascos de ventos do Quindío, e ela me respondeu:

- Eu me alugo para sonhar.

oOo

Das minhas!

Literatura de Cordel

Oficialmente fora “pega pra criar”, como se diz. Na realidade trabalhava na casa da família desde que conseguiu alcançar na pia subindo num banquinho. A mãe deu as quatro crianças, cada uma prum lado, e dos irmãos ela nunca mais teve notícia. Filha, filha, ela nunca foi, mas nunca lhe deixaram passar fome, nem frio ainda que suas roupas, sapatos e brinquedos fossem herdados da menina da família, quase da mesma idade. Os sapatos apertavam seus pés largos, os da menina eram delicados e, talvez por isso, sapatos novos em folha, só seus, eram o seu grande sonho.

Virou uma morena bonita, olhos e cabelos castanhos, ondulados, sempre presos num rabo de cavalo. Longilínea, ereta, tesa, rija. Chamava atenção a maneira de alternar as pernas em passos largos e lentos, elevando bem os joelhos ao andar. Só saiu da casa da família para casar. Teodoro, o nome dele.

Mal casou, Teodoro lhe fez um filho e se arranchou com outra. Foi a vez dela sumir no mundo. Desceu a serra trazendo o menino no ventre. A criança nasceu saudável, mas ela o tratava como se estivesse doentinho pra morrer. De tão protegido, o menino foi ficando frágil, cada dia mais frágil, o que ela interpretava como necessidade de redobrar os cuidados. Já grandinho tinha um ar abilolado.

Ela fazia faxina nas casas, ele ia junto, não confiaria seu menino a quem quer que fosse. Sempre limpinho, penteadinho, de sapato novo, ele ficava sentadinho numa cadeira estrategicamente colocada de modo que ela o tivesse sob vigilância. Carrinho de plástico na mão, o menino parecia construir estradas e paisagens sobre a toalha da mesa, as portas dos armários. Se não via ninguém por perto, ele fazia burrum, burrummmm. Não mexia em nada, não pedia nada. As crianças da casa o chamavam para brincar, ele olhava para a mãe que fazia com a cabeça que não, ele fazia que não.

Jamais vou esquecer. Era de manhã. De repente escutei um vozerio no pátio. Larguei o que estava fazendo, andei pela casa, espiei na janela. Meus filhos na escola. O menino sentadinho. Ela escovando o tapete no varal. Voltei à minha tarefa. O vozerio recomeçou. Apurei o ouvido. Parecia lá fora… E ao mesmo tempo tão perto… Fiquei à janela, atrás da cortina, atenta. Só então percebi que era dela a voz, sua imagem encoberta pelo tapete. Parecia uma cantiga… As palavras saiam sincopadas, como música. Mas, não era música; era poesia. Pura poesia. Nunca vi nada igual.

Como os repentistas da literatura de cordel que contam histórias em forma de versos, ela fazia de si mesma personagem, falava na terceira pessoa, narrando a história da sua vida com métrica e rima. Contava da ausência do pai, do abandono da mãe, do banquinho para lavar louça, do desejo de um sapatinho novo – foi assim que fiquei sabendo -, da paixão por Teodoro, do filho doentinho, da traição do amado. Qual Medeia, sua voz rascante destilava imenso ódio, mas ao final se abrandava, gemia: _ Todoro! Todoro!

Entre chocada com a crueza da sua dor e maravilhada com a beleza daqueles versos fiquei parada, usufruindo a poesia, sem agir. O menino, indiferente – teria já presenciado outros surtos? -, guiava o carrinho por seus caminhos imaginados. Não ouso tentar reproduzir os versos. Não estaria à altura, por mais que tentasse.

Enquanto ela desfiava o seu poema trágico, as janelas do prédio vizinho iam sendo ocupadas por uma plateia ávida por retratos da sordidez humana. Numa demonstração de estupidez e brutalidade, as pessoas riam e apontavam. Sob o pretexto de tratar sobre as tarefas ainda pendentes, a chamei tentando aparentar naturalidade. Ela voltou à realidade subitamente, como quem desliga um botão. Disse-lhe que deixasse a faxina pela metade, eu precisava sair com urgência. - Um imprevisto, menti. Ela trocou de roupa, pegou o dinheiro numa mão e o menino na outra.  Agradeci e lhe dei um abraço, emocionada. Ela demonstrou estranheza ao gesto de descabida intimidade.

Olhei-a com profunda admiração e respeito. Ali estava uma personagem épica, uma alma repleta de poesia. Parecia literatura, mas era simplesmente a vida acontecendo. A Vida, esse fragmento de tempo onde cada criatura humana se expressa em toda sua grandeza, em toda sua miséria, em toda sua contraditoriedade.

Izilda, o nome dela.

 

 

 

 

FLORIANÓPOLIS EM CINCO MOVIMENTOS

 

Foto: Carolina de Assis

Foto: Carolina de Assis

 

Carlos Damião

1

Florianópolis não
esconde origens & destinos
em domínios de
becos casas morros prédios mansões
ruelas praças histórias casarões
ilha e continente
sorrisos e movimentos
e gaivotas às tontas
como se a liberdade
fosse o cais
– e um navio da Hoepcke
na Rita Maria
e o vento Sul encanando
asas e folhas secas
– e lenços brancos
: velas de outono
navegação costeira :
brincadeiras
do tempo.

2

Florianópolis
oculta
e recupera
regenera espaços de aldeia
onde a aldeia ainda se vê
se abraça se toca se encanta
em sentires de olhós e olhares
ponte luz e ferro
olhais
oceano nuvem chuva sol noite dia
peixe-pescador
funcionário-servidor
balconistas
secretárias
motoristas
rendeiras
camelôs
mendigos
poetas
aposentados
estudantes
professores
bruxos e bruxas

3

Florianópolis
gente: calçadão
gente: praça
gente: migrantes
gente: catedral
gente: procissão
gente: mercado
gente: Carnaval
gente: palácio
gente: UFSC
gente: ônibus – e carros
– e pontes – e avenidas
gente: praias lagoas
morros favelas bairros shoppings dunas
trilhas barcos
velocidade humana
vida que vai-volta
transforma
multiplica estica habita
corre em desatino
violenta o destino
e sobrevive poesia-vento
e poesia-sol
sinfonia ao poente
no sobrevoo das andorinhas
e dos pardais
os quero-queros as garças e os urubus
montanhas e beira-mar
beira-mangue de lodo
e os cheiros todos
passado-presente

4

Florianópolis e
um sino: a aldeia vive:
um chamado
Menino Deus e Caridade
Menino Passos e Dores
drama e fé
encontro da tarde com a noite
velas e fiéis
vozes e ladainhas do
Desterro Nossa Senhora
dos vultos e sombras
: a cidade se volta
de volta :
às tantas
à espera.

5

Florianópolis
Flopolis
Floripa
Flopis
Fpolis
FLN
FNS
F
Flor
Flor cidade
Cidade Flor

 

* Carlos Damião é jornalista, colunista do jornal Notícias do Dia e poeta inspirado.   Escrito em 2007, o poema está sendo “lapidado” com a intenção de compor um arranjo musical em homenagem à Cidade. “A ideia era ser uma coisa meio sinfônica, com arranjo musical em cima. Busco a musicalidade integral. Já fiz uma experiência muito legal com o bravíssimo compositor e pianista  Alberto Heller

E a gente aqui, esperando…

 

 

Ô mulhé-di-Deuj!

Foto: Carlos Amorim

Foto: Carlos Amorim

 (no idioma próprio dos ilhéus)

Cotinha: – Bom diiia, ijtimada! Táj boazinha, táj? [sussurrando: - Vamu aproveita qui a Dargiza siesqueceu du celulari aquimcasa, vamu aproveitá pá fala bastanti!]. mi dij, i ui mininu? I aquel’ trajti du tô maridu, já aparô di enchê uj corn’, já? [

Comadre: - - - [tentando responder]

Cotinha: - Ô cumadi, tu mi dijcurpa si o demorê pá tidáti notíça. É q’ô andu c’á minha cabeça ton pertubada, ton disijquecida, maj ton disijquecida, cumádi, i ademaj, ô ainda mi atrapáiu toda q’éssai novidadi. Ô vô ti confessáti u’a côsa, cumadi: ô côsinha difíçiu di acertá essai bójta dessai técra! Hôjô ô inté abri u’a garrafinha di vin’ da coleção du mô filh’ i tomê u’ai talagada pá mi ajudámi a amulecê ui dedu. Crédincruj mulhé-di-Deuj! Era ton rúim, ton rúim, ton rúim, maj ton rúim, q’ô cuspí tudu na pia da cuzinha, i adijpôj fui olhá a garrafinha. Posagóra, tinh’ uai letra deferenti, cô non intindi é mai nada! Só deu pá intindê u’a côsa: Safra 2000! Ô Mulhé-di-Deuj, qui pirigu! Dôzi anu, cumadi! Dôzi anu! Só pudia meimu di tá istragad’! Fui lá vê nu armárinhu dondi el’ guarda aj garrafinha, i incontrê dej garrafa, dej garrafa cumadi!, tudu c’a meima data! Imborquê u’a puruma na pia! Quanu el’ chegá, u mô filh’ vai é mi agradicê di tê salvadu a vida del’!

Comadre: – - -

Cotinha: – Ô cumadi, ô já ti contêiti cu mô Cróvij, inricô, non ti contêiti? Posagóra! Deidi qui el’ arrumô aquela boquinha lá na Assembréia, que a vida deli mudô du dia pra noiti, mulhé! I vai ficá melhó ainda, pruquê tem um tali di deputadu amigu del’ que dijcubriu um jeit’ di ganhá muntu dieru, ô non sê bem cuméquié, só sê qui bajta imprejtá ui nomi pá abri u’a conta nu bancu. Non pricisa fazê mai nada! Elij faj tudu pá genti. Taj comprendendu? U mô flh’ já deu, i mi convidô pá dá, convidô u sogru del’, a sogra del’, u cunhadu del’ i a cunhada del’. Ô pensê: já qui tá tudu mundu danu, achu cô tamém vô dá! Tu non quéi dá tamém, cumadi? Fala páfilhada Elzinha, si ela non qué dá! Ôta côsa: adijpôj c’o mô filh’ tá trabaianu lá, el’ ficô chei di amigu! Ôtu dia, nu aneversáriuzinhu del’, fizeru u’a fejtinha cheia daj xiquesa aquimcasa. Tinha cumida di bufêti i tudu, nêga, côsa muntu cara! Côsa muntu fina! Posólha, veiu a deputança toda, mulhé!  Tudu mundu ingravatadu, ai mulhé del’j tuda nui brocadu i nui vilud’,  tuda chei’ di brilhu, mai parecenu u imperadô da Festa du Divinu! U prifumi francêj era tant’, mai tant’, mai tant’, qui nu fim inté catingava! Ô non quiria í, qui mi fiquê cum vergonh’, maju mô filh’ fei quejtã, aqueli quiridu, aí ô fui. Tumê um bainh’ di sabuneti bem cherosinh’, pentiê u mô cabel’ bem pentiadinh’, ingraxê u mô sapatinh’ bem ingraxadinh’ i botê um vijtidinh’ bem passadinh’. Tava simplisinha, maj tava injeitadinha. Sabij u mô dedu da pustema? Troquê u paninh’. Fui lá nu gardarôpa da Dargiza, a minha nora, peguê u’a fronha di trabisseru bem branquinh’, bem limpinha, raiguê u’a tira e fij um curativ’ novu. Pra ficá mai bunitinh’, ô dexê uj bordadinh’ pru ladu di fora. Poi tu acridita ca nujenta da Dargiza, mi puxô nu cantinh’ i dissi qui í ô inté qui pudia di í, mai qui era pr’ô ficá nu cantu c’a boca fechada? Non sê purquê qui ela dissi issu, aquelamarela da triza!

Comadre: – - -

Cotinha: Mai ô sê muntu bem pur causu di quê qui ela non gojta di mim, aquela vaca! Só pur causu qui um dia, ô mi deu-mi u’a vontadi danada de cumê u’aj pójta di pexe fritu c’um pirãuzinhu d’água bem iscardadinh’ qui, cá pra nój, só nójé qui sabemu fazê, né cumadi? Posólha, mi arrumê bem arrumadinha, peguê unj trocadinhu da minha apusentaduriazinha, peguê u carru da Transoli e mi fui lá nu Mercadu Púbricu, comprá u’aj tanhóti. Ô cherinhu bom qui tem aqueli mercadu, né, cumadi? Mi deu-mi u’apêrtu nuj pêitu di tanta sardadi da vidinha c’ ô tinha aí na Bara da Lagoa! U’a vontadi di molhá uj môj pé na água sargada, i di sintí aqueli cherinhu bom di marisia todu dia di menhenzinha q’ondoabria a minha janela… Aj tainhóti é qui non tavum muntu grada, dessa vej! Mai tavu, boa! Ô si tavu! Era di lambê uj bêçu! Apruveitê qui a nujenta non tava – c’aquilu non apára c’uj rabu denticasa -, limpê aj tainhóti bem limpinh’, abrí pelaj cojta, butê aj cabeça pá cuzinhá nu fejãu – i lá tem côsa melhó nu mundu du qui u’a cabecinha di pexe, pra genti chupá dipoidi cumê ui baguinhu? Pojintonci, butê tudu pá cuzinhá na panela, peguê aj tainhóti ijcalada, pindurê tudu num barbantinh’ bem limpinh’ e butê tudu pinduradinha, tudu infileradinh’ di carrerinha, na varanda du apartamentu quépá secá nu soli’. Si bem qui non é a meima côsa, pur causu di quê non tem a brisa du mari…C’ânda a mulhé chegô, cumádi-di-Deuj… Indoidô! Quaj tevum filh’!

Comadre: [- - -]

Cotinha: Otu dia tamém: só purqui ô butê ai minha ropinha pra quará nu pastinh’ du cundumíniu, a galinha fêj um fréji! I olha c’a minha rôpinha é tudu muntu bem limpinha, muntu bem zerzidinha, qui tu bem mi conheci! Ô disse assim pra el’: _ Sim, i ô ia butá a rôpa pra quará adondi?! Nai tuai fuça?!

Comadre: [- - -]

Cotinha: – A perdida agora inventô di fazê prájtica! Sijticôssi toda, encheu a cara di botóquij. Tácabôcaquéum badéj! I tamém butô uin negóçu nui peitu quépá ficá c’ai mamica impinada! Dij ela qui tudai mulhé tãu butanu. Ônonssê bem comé u nomi, mai ô vi na televisãu. É um tali dum negóçu mól’, qui mai pareci duaj água-viva, cumadi. Ô tenh’ pena é du pobri du mô filh’, tadinh’, tê qui carregá aquela cruj!

Comadre: [- -]  Cotinha (interrompendo): Maj, ô tava falanu na festinha. Í, ô fui, mai demorá ô non demorê muntu non, purquê – ô mulhé-di-Deuj! -, non é qui começô a mi duê ujuaneti? Daquelaj dô qui quêma, non tem? Dévidisê pur causu du sapatu, poi já faj pra mai dunj cincu anu c’ô non butava um sapatinhu fechadu; só di sandálha, só di sandálha! Uj deputadu lá discursanu, a fofocage cumenu i ujuaneti ardenu… Aí, quirida, ô non contê tempu. Pidi a palavra, dissi qui era mãe du Cróvij, dê bua noiti, apertê aj mãu dum pur um, cô sô u’a mulhé inducada, fij um pratinh’ cum tudu aquelaj cosinha boa qui tinha na mesa, cortê um pedacinh’ du bolu di aneversáriu e fui mimbóra pru mô bilichi nu quartinhu, juntu c’a Maria. Foi lá c’ô dijcubri u qui qui é felicidadi, nêga. Felicidadi é a genti pudê tirá uj sapatu qui tãu peganu nuj calu! Nu dia siguinti a nujenta tava cu’j córnu viradu pru mô lad’. Ô nem ti ligu, ferru antigu!, comu dizia a finada minha vó. Tô na casa du mô filh’, quem quisé, qui si mudi! Ô non pidí pá vim, fui cunvidada pur el’, qui dissi qui non ia mi dexá lá sozinh’, moranu naqueli ranchu na bêra da praia. Agora quisarrômbi!

Comadre: [- - -]

Cotinha: Ô cumadi, tu non conta pa ninguém, mai ô achu q’ u mô filh’ é côrnu! Si non é, um dia há di sê, tadinh’! Ô achu qui essa tali di mulhé del’ só qué é u diero del’. Ô mulhésinha aproveitadêra! Non faj nada dent’ di casa, non lava, non passa e non cuzinha qué pá non ijtragá azunha. Non faj nem a cama qui si deita, aquela vadia! Pá tudu tem a póbri da Maria e só qué xópi, só qué xópi, só qué xópi!

Comadre: [- - -]

Cotinha: – U môi netu sãu unj malinducadu. Tamém, c’a mãi qui tem! Mali falum cumigu, non pédi a bença antij di deitá, i quanu uj amigu delij vem aquincasa, elij dij pra ô non saí du mô quartinhu. Ai vej ô achu qui el’j tem vergonha di mim… Hoj sairu tudu mundu i mi dexaru aqui suzinha, intonci ô arresorvi telefoná pá ti. U mô netinhu maj mocinhu, qui é u únicu bonzinh’, é qui tá mi insinandu amexê c’essaj coisa. Ô rapariga! Essi negóçu é mai difício qui aprendê a fazê renda! Cumadi, aqui pa nój, tu sabj qui ô tô na boa vida, mai ô queru ti confessáti u’a côsa, maj tu vêj si tu non conta pa ninguém, sua alcovitêra! Ô tô cum u’a sardadi dui birru… Agora ô vô apará di fala c’o tô cansada. Tu vê si apareci, hem? Sua disaparicida! Um abraçu bem apertadu pá ti i pá todaj cumádi! Atichali!

 

FLORIANÓPOLIS 288 – A FIGUEIRA

DSC04357

Jaime Ambrósio

O tronco monumental, com seus braços retorcidosamparados por escoras metálicas, revela a idade centenária, mas ainda suporta as folhas e os musgos, carrega os segredos, mistérios. Anciã dos dias, ela sabe de coisas que ninguém mais saberá. Ouviu, e ouve, promessas e juras de amor, declarações insólitas, revelações de políticos, armações, ameaças, cantorias, confissões, sussurros noturnos, gemidos. A grande árvore se diverte com o bêbado que não para de falar, o pregador ensandecido que berra trechos da bíblia, as marchinhas de carnaval, os blocos de sujos, os vagabundos, os guias turísticos e seus grupos, o pintor de telas rápidas, o homem da cobra, as mulheres risonhas que dão voltas para arranjar marido, os leitores de jornais e os jogadores de dominó. A figueira da Praça XV é uma floresta que conhece a alma da cidade.

* Jaime Ambrósio é jornalista e escritor premiado. Publicou Por um Punhado de Contos (histórias do bem e do mal) Prêmio Cruz e Sousa – 1998 e As Vísceras e o Coração (histórias de homens e de bichos) Prêmio Cruz e Sousa – 2002. Em 2011 publicou As Aldeias de Todos Nós.

Herança

A família entrou depois de mim no coletivo. Quatro moças morenas, cabelos cacheados, muitos adereços, roupas baratas, mas à moda das novelas. Também os dois em questão. O velho, pele clara, olhos verdes, barba rala por fazer, homem muito simples e pouco afeito às novidades urbanas, parecia inseguro. Relutou a entrar no ônibus, estranhando o pagamento da passagem já na entrada do Terminal.  O outro era jovem, uns dezoito, mulato, cabelo cortado com máquina zero, correntões, na moda, como um rapper.

Mal sentaram, começaram – ou continuaram – a discutir. O jovem acusava o velho de haver dado com a língua nos dentes, contando algo para “ela”. O velho jurava que não. O jovem dizia que sim. As vozes alternavam-se repetindo as mesmas frases, os argumentos escassos, mas a raiva muita.

O ônibus girando. A conversa também, do fim para o começo. Na metade do trajeto, o meu trajeto, finalmente ela atingiu o ponto crítico: a herança deixada pelo “pai”. Disse o moço: – O senhor não tinha nada que ficar com o que era do meu pai, tio! (Pensei que era avô!).

Disse o velho: – Por que que não?! Fui que criei ele! Como quem diz…

O rapaz o interrompeu: – Não interessa! O que é do pai tem que ficar pro filho! Não pro irmão!

Disse o velho: – Mas se tu nem sabes usar!

- Não interessa! O que era do meu pai é meu, velho naba!

As moças, uma a uma, pediam calma, mas logo desistiam. Comecei a me preocupar, eles estavam na “cozinha” e eu no banco mais próximo – e se um deles puxasse uma faca? Um revólver? – a coisa não está fácil, meu amigo! Mas não! O que o rapaz sacou foi uma preciosidade!

- Eu não quero nem saber! Trata de devolver a minha tarrafa!

Foto: Maria de Fátima Barreto Michels.

Foto: Maria de Fátima Barreto Michels.

Seres Alados I

(Piriri Poético: Poesia Pueril Exercícios de Rima  - Nível de Dificuldade: Fácil)

 

Se eu fosse uma mosquinha,

Pra ouvir o que ele diz,

Será que ficava mais triste?

Será que ficava feliz?

 

Se eu fosse um passarinho,

Voava de flor  em flor,

Dava voltinhas no céu,

Pousava no meu amor.

 

Se eu fosse borboleta,

Colorida e de asa (torta),

Esquecia a timidez,

Pousava na tua porta.

 

Se eu fosse u’a abelhinha,

Fazedora de mel, melado,

Esquecia o meu ofício,

Pousava no teu telhado.

 

Se eu fosse um besourinho,

Voando desajeitado,

Contava no teu ouvido,

Que o amor não faz sentido,

Mas vale mais que o dourado.

 

Se eu fosse uma cigarra,

Cantadora experiente,

Pousava no teu jardim

E cantava docemente.

 

Se eu fosse um passarinho,

Voava ao teu redor.

Perguntavas: – O que queres, passarinho?

-Quero-quero um beijinho!