Day After

O que me choca diante das grandes tragédias, as minhas ou as de outrem, é ver que o mundo continua a girar. O sol nasce e se põe em sua inexorável hora. A Árvore da Felicidade reclama a falta de água no vaso da sala. Nas ruas, pessoas com cara de sono na fila do ônibus, gente entediada na fila do pão, gente sonhando com a sorte num cartão de loteria. Pessoas carregam sacolas de compras, renovado o endividamento no cartão de crédito. Alguém dá início a um buzinaço diante do semáforo apagado. O boleto sobre a mesa alerta que hoje é dia 05/12, dia de pagar as contas. Vou lá.chapecoense

Ponto de Fuga

Foge pela fresta que te resta

E faz do teu norte o vento mais forte.

 

Não temas a força do vento.

Melhor temer o teu próprio medo.

Impõe o desejo ao pensamento. Não pensa.

Apenas abre tuas asas e voa.

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Do livro Prosa Quase Poesia e vice-verso. Tempo Editorial. 2015

Imagem capturada no perfil de Kovács Jocó no Facebook. Autor desconhecido.

Mas Foi Por Um Triz!

Chegando do show do João Bosco. Quem me conhece sabe que tenho “uma queda” por ele. Mas tava tudo certo, tava me comportando e tal. Tanto que ele fez “ai, ai, ai, ai”  e eu reagi bem, tava calma até. Mas foi só ele fazer “ai, ai, ai, ai” a segunda vez e  a coisa desandou. O pior: eu tava sozinha, sem ninguém pra trocar uma ideia, fazer um comentário, segurar na mão, essas coisas que dão um alívio quando a pessoa tá na parte braba da crise. Daí ele fez “ai, ai, ai, ai”   a terceira vez e, juro!, olhou na minha direção.  O show acabou. Decidi largar tudo e ir embora com ele. Vim correndo pra casa e já tava arrumando as trouxas quando lembrei dos filho. Voltei pra trás. Agora tô aqui com um monte de roupa espalhada pela casa, uma taça de vinho na mão, Papel Machê presa no repeat e eu presa nesse estado alterado de consciência. Ai, ai, ai, ai, ai!!!

Falso Brilhante, a música que ele ficou devendo.

A Mais Bela Rapariga e o Homem Extraordinário

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Meu amigo escritor, Luís Osório,  fez uma confidência em seu perfil no Facebook:

“Só me lembro do nome: Leta. Uma grande amiga de minha mãe. Tinha uma filha que vi uma única vez, assombrei-me. A mais bonita rapariga que vi até hoje, tão bonita que hoje sei que não podia existir. Durante muitos anos, nos dias de festa e gargalhadas, recordava-se em minha casa a noite em que caí desamparado da cama depois de gritar várias vezes por ela. Tinha 9 anos”.

Faço eu também uma confissão:

Passei pela mesma experiência aos oito anos. Ele era trapezista de um circo que aportou na minha cidade. Tinha os cabelos negros, muito negros, usava um macacão vermelho e girava no ar sem qualquer sustentação. Era mágico! Quando o circo foi embora, a cidade ficou vazia. Lembro de mim sentada, aos prantos, diante do espelho. Minha mãe perguntou:

O que houve?????

– Tô com saudade da Irmã Matilde (minha professora do Colégio), respondi. Era janeiro, tempo de férias. O tempo passou, apaixonei-me outras vezes, mas nunca mais me equilibrei na vida.

*Imagem capturada na Internet

O Menino Zolhudinho

A ideia era simples: aproveitar o feriado à beira d’água e descansar, visto que o João Antônio estava “impossível”, agora que já tinha dois anos, falava pelos cotovelos e andava por tudo. Qual o quê!

Com o primeiro filho não tem um dia igual ao outro. Tudo é aventura e aprendizado. Criança quando desanda a andar aí é que dá trabalho porque ela só… Vai! Vê algo que lhe interessa e vai. Está sempre indo. E a gente correndo atrás. Pois a criatura correu o dia inteiro, a maior parte do tempo em direção ao mar. Subiu e desceu no escorregador da piscina, entrou e saiu da Casinha de Brinquedos, mergulhou na Piscina de Bolinhas, comeu areia, roubou porcaria da mão de outra criança, pintou, bordou e chuleou. À tardinha capotou, em pleno banho.

O Filho e a Nora resolveram jantar no hotel e dormir também porque ainda teriam três dias de intensas atividades pela frente. E ele ali no carrinho, ferrado no sono. Lá pelas tantas, um moço chegou com um violão. A música era suave, como convém. Pois no segundo acorde o João já estatelou aquele zolhão preto dele e virou a cabeça tentando discernir o que se passava. Filho e Nora entreolharam-se. Só rindo!

Qué saí, papai! Qué saí!

A Nora ainda tentou negociar: – Dorme, filho! Dorme mais um pouquinho!  Como dormir quando a pessoa tem coisa mais interessante pra fazer? Em segundos a pessoinha estava de pé, parada, se situando. De repente arrancou em direção ao palco, parou em frente ao cantor e disse:

A Baata, tio!

Primeiro o tio não ouviu, depois não entendeu. A Nora no esforço de levá-lo de volta à mesa, ele puxando a mão gorda.

A Baata, tio!  A Baata!

Até que o tio resolveu interromper o que cantava:

– O quê, meu amor?

– A Baata!

Não sei o que é!, dirigindo-se à Nora. Ela: – Nem eu!

– “A Baata diz que tem!“, o João esclareceu.

E foi assim que um restaurante em peso cantou alegremente enquanto um Menino Zolhudinho dançava:

“A Barata diz que tem sete saias de filó, é mentira da Barata ela tem uma saia só!

Hahaha! Hahaha! Ela tem uma saia só! Hahaha! Hahaha! Ela tem uma saia só!”

img_20140531_160140 * O Ziraldo tem o Menino Maluquinho dele lá. Nós temos o nosso Menino Zolhudinho.