Ser Ilhéu É Ser Embarcadiço

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Como relatar exatamente o que se passa na alma instigada pelos efeitos da insularidade? (…) Ao ilhéu o mar nunca passa indiferente, uma vez que lhe limita os horizontes, dá-lhe o sustento e alimenta a suas fantasias”.  Ser ilhéu é ser “embarcadiço“.

Salvi, Rejane.  Panorama Açoriano. Instituto  Cultural de Ponta Delgada. 1990.

Foto: Canoa Bordada. Fátima Barreto

Calçadas

Lisboa Arcos

Voei e
evitei – não este
verbo, não esta
arte de
liberdade –

Meu peito selvagem
levou-me acima
do marasmo das brisas
sonolentas do Equador
Desejei uma terra anciã
para fortalecer,
acariciar a ansiedade

tornando perdidas as gotas
de sangue da indecisão que ardem
na fome –
alimentei-me com
a mais livre queda
do peito

Regalo-me nas
calçadas brilhantes de Lisboa,
no seu rio de setembro,
nos arcos que me protegem
da indecisão

– Protejam-me da indecisão –

Elevo-me,
imagino e pinto
os ventos que
levam ao Norte

Quatro voltas
atrasado, o artifício confessa,
estas florestas sulistas
descansam no passado
de sua flor primaveril
enquanto degusto
este sopro de calor
do ultimo verão.

Arthus Mehanna
Lisboa, Portugal
30/10/2010

Foto: Arcadas de Lisboa – Norma Bruno

Setembro de 2016

Acepipes

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Era uma pessoa simples, o Manoel da Bia. Nome comum por essas bandas, Manoel, filho de Maria do Carmo, Maria, a Bia.

Pode-se dizer que era analfabeto, pois se por um lado era bom no manuseio dos números, no domínio das letras sabia apenas assinar o próprio nome e assim mesmo simplificado. Trabalhador e dono de inteligência privilegiada tornou-se bem sucedido na profissão de marceneiro; tanto que, ao longo da vida conseguiu amealhar um patrimônio de muitas léguas de terra e nove casas de aluguel. A família tinha um bom passadio.

Tido como um artista na arte de trabalhar a madeira, ficou famoso pela facilidade em solucionar os dificultosos pedidos da freguesia que a cada dia ficava mais exigente, as novidades tiradas das revistas ou do que se via nas viagens ao Rio de Janeiro, a sofisticada capital da República.

Durante muitos anos trabalhou na Funerária do velho Ortiga fazendo caixão para os novos residentes das Três Pontes até que foi convidado a trabalhar na Oficina do Heinich localizada na confluência da João Pinto com a Avenida Hercílio Luz, antigamente conhecida como Ponte do Vinagre. Por falar no Hercílio, esse foi um dos responsáveis pela boa fama do marceneiro.

Ocorre que o Governador estava reformando a casa, um projeto cheio dos requintes que, entre outras coisas, possuía uma complexa escada de madeira e, adornando a parede, um belíssimo vitral. Tudo ia bem não fosse por um erro de cálculo que comprometeu o sistema de sustentação da escada. A solução apresentada pelo engenheiro era apoiar a escada na parede o que implicaria em sacrificar o vitral.

Como numa cidade pequena as coisas correm, alguém comentou o fato na oficina do Heinich. O Manoel, que estava por perto, disse que sabia como resolver o engriguilho. A notícia chegou até o Governador e o Manoel foi chamado ao Palácio. Salvaram-se ambos: vitral e escada.  A partir daí, Manoel continuou a trabalhar na Oficina do Heinich, mas à disposição de Hercílio Luz, para quem fez outros serviços, inclusive, dizem, os móveis de casamento.

Apesar disso, continuava a sua rotina de homem simples. No cotidiano usava manga de camisa e calçado de lona com solado de corda de cânhamo ou tamancos de madeira conforme o sol ou a chuva, as ferramentas levava-as acondicionadas numa bolsa de palha retangular, do tipo que ainda se encontra à venda no Mercado Público. Nos finais de semana, porém, vestia terno tipo jaquetão e sapato engraxado para ir ao Teatro da UBRO e às reuniões da União Brasileira Operária à qual era associado.

Mourejava, mas todo dia, findado o expediente, passava na casa da Emília, a vizinha, quituteira de mão cheia, para comprar rosca de polvilho, pequeno luxo que se concedia como recompensa pelo trabalho duro.

A casa geminada, do tipo de porta e janela como a maioria das casas da Menino Deus, tinha um extenso corredor que levava aos fundos onde ficava a grande cozinha de paredes enegrecidas pela fumaça do fogão à lenha, localizado num canto. O corredor dava direto numa grande mesa onde ela preparava as iguarias enquanto controlava o movimento da freguesia.

Sobre um aparador, o pote de água e a tradicional gamela de madeira escavada que servia para lavar a louça, após o que se despejava a água suja pelo vão da janela, conforme o costume. Sobre o fogão, a chaleira de alumínio reluzente, tabuleiros untados à espera da próxima fornada e panelas de barro de diversos tamanhos: a pequena para o arroz, a maior para o feijão e o cozido, a mediana para o peixe ou a galinha gorda ensopada.

Verdade seja dita: ainda não se inventou panela melhor para imprimir gosto à comida, com a adicional vantagem de conservar a quentura por horas a fio. Por isso mesmo não é coisa pra gente sem experiência, porque panela de barro é que nem mulher. Demora pra esquentar, mas depois que pega a fervura, demora mais ainda pra esfriar e, no caso da panela, pra queimar a comida é o tempo de um cuspe.

Na “partelera”, como ela dizia, enfeitada com toalhinhas de papel de embrulho recortado como renda, ficavam os pratos de comer, um alguidar e o boião para fazer o café colhido no quintal da casa, onde, além do pé de café e da velha goiabeira, ficavam também o galinheiro e a casinha para as necessidades da família.

A cozinha tinha, como era costume nas casas simples, o “chão batido”, piso de terra que se usava varrer até que não restasse um único grão de areia solto, apenas o solo compactado pelo uso que, de tão varrido chegava a ter um certo brilho, o que atestava a perícia e o capricho da dona da casa.

Pois muito bem. Freguês antigo, Manoel chegava até a porta invariavelmente aberta para a rua, batia palmas e ia entrando, previamente autorizado. Trocava dois dedos de prosa e finalizava a compra, a rosca mais torradinha já embrulhada e devidamente anotada no caderno da quituteira, pois ali a freguesia pagava por mês. Naquele dia, tudo aconteceu como de hábito. Ou quase. Por um trisco.

No alguidar sobre a mesa, Emília sovava a massa para a próxima fornada quando ele chegou. No lusco-fusco, Manoel teve a impressão de que ela o tinha visto já que pareceu olhar em sua direção; por isso não bateu palmas.

Atravessando o corredor, já ia dizer _ Boas tardes, D. Emília!, quando ela levantou a barra da blusa de algodão, expondo a pele alva do abdome. Surpreso, Manoel estacou junto à parede pensando no que fazer quando notou que ela procurava algo no cós da saia. Ela mexeu, remexeu e mexeu de novo até que, finalmente, encontrou o que procurava.

Esfregando com força o polegar contra o dedo indicador, a quituteira depositou uma pulga na borda do alguidar e a esmagou com força, retornando com vigor à massa de polvilho que ela já estava atrasada e a freguesia não tardava a chegar.

Daquele dia em diante, Manoel da Bia, marceneiro talentoso, requisitado por gente da alta, seguia direto do trabalho para casa e, ao estranhamento à sua repentina aversão aos quitutes da Emília, ele respondia que fora proibido pelo médico, depois que teve uma congestã de rosca de polvilho.

A foto no texto é de Fátima B.Michels
Instalação compondo época, na exposição da Escola Jerônimo Coelho em Laguna,
em  homenagem ao Bicentenário do ilustre catarinense. Capturada no site do Coojornal, Rio Total, publicado em 04/11/2006, coluna da autora.

Do livro Cenas Urbanas e Outras Nem Tanto. Bernúncia Editora. 2012.