Para o Salim Miguel

Demorei porque buscava a palavra certa para homenagear Salim Miguel. Não a encontrei em meu próprio repertório, então fui buscá-la entre os seus iguais. Acho que o texto abaixo está à sua altura e traduz bem o que ele foi: além de um sonhador e um mestre na arte de contar estórias, Salim Miguel foi um exímio “escutador de vozes”. O nome da coisa é gratidão.

Corte e Recorte

” Assim que o viu assomar, Rosi perguntou-lhe:

– Explique como é que se faz?

– Faz o quê?

– Como é que uma pessoa consegue ler? Eu queria tanto saber...

– Isso demora  a aprender, Rosi.

– Eu vi como você faz. Você passa o dedo pelas linhas e vai mexendo os lábios. Já fiz o mesmo e não escuto nada. Explique-me qual é o segredo. Eu aprendo rápido.

O pai revirou os olhos e passeou as mãos sobre as folhas que jaziam na poeira.

– Para ler esses papéis , Rosi, você precisa ficar parada. Completamente parada, os olhos, o corpo, a alma. Fica assim um tempo, como um caçador na emboscada.

Se ficasse imóvel por um tempo, aconteceria o inverso daquilo que ela esperava: as letras é que começariam a olhar para ela. E iriam segredar-lhe histórias. Tudo aquilo parecem desenhos, mas dentro das letras estão vozes. Cada página é uma caixa infinita de vozes. Ao lermos não somos o olho; somos o ouvido. E foi assim que falou Katini Nsambe.

Rosi ajoelhou-se perante os papéis e permaneceu muito parada, à espera que as letras lhe falassem”.

 

Mia Couto

 Mulheres de Cinzas

 As Areias do Imperador 1

*Imagem capturada na Internet.

Sem Título 2

Foto Geraldo Cunha 02Foto: Geraldo Cunha

Para Norma Bruno…

Não contu alegria pur goxtu, nem trixteza pur prazê!
Cantu, comu si fossi sina qui munha cabeça adixperta
Queria ô tê a pagi di nada tê qui nessax linha dizê…
Poigi qui é fardu tá di coração i arma sempre aberta!
Mai não si cala, não si imudeci minh’arma dessi querê!
Intonssi, inscrivinho i dô liberdadi a minha mão inquieta…

Não canto alegria por gosto, nem tristeza por prazer!
Canto, como se fosse sina que minha cabeça desperta
Queria eu ter a paz de nada ter que nessas linhas dizer…
Pois que é fardo estar de coração e alma sempre aberta!
Mas não se cala, não se emudeci minh’alma desse querer!
Então, escrevo e dou liberdade a minha mão inquieta…

Seo Maneca.

 

R: Sinto-me agradecida e emocionada. Obrigada, Seo Maneca. Sou tua fã.

*primeira parte escrita no singular idioma falado pelas gentes nativas da Ilha de Santa Catarina.

Para melhor conhecer Geraldo Cunha:

https://seomaneca.wordpress.com

Sem Título 1

Foto Geraldo Cunha

U sabiá lá fora canta sempri sua preci!

Tão devotu é o gajo qui inveja dixperta,
Naqueli qui tem fé i di milagre careci…
Si atendidu o não, tá lá eli firmi em alerta!

Sabiá, tu qui égi pur Deux u ixcolhidu,
Discípru acundenadu a adorá a natureza!
E nossax trixteza du mundu tenx banidu!
C’um tua canção qui é marca di realeza!

Mi ajuda passarinhu c’um tua caridadi!
A ixquecê, a perdua, a lavá mô coração!
Daquela qui vuô c’ax asa da mardadi…
Mi dexandu sem nada… nessa solidão!

*

O sabiá lá fora canta sempre sua prece!
Tão devoto é o gajo que inveja desperta,
Naquele que tem fé e de milagre carece…
Si atendido ou não tá lá ele firme em alerta!

Sabiá, tu que és por Deus o escolhido,
Discípulo condenado a adorar a natureza!
E nossas tristezas do mundo tens banido!
Com tua canção que é marca de realeza!

Me ajuda passarinho com tua caridade!
A esquecer, a perdoar, a lavar meu coração!
Daquela que voou com as asas da maldade…
Me deixando sem nada… nessa solidão!

Autor: Seo Maneca

Foto: Geraldo Cunha

*escrito no singular idioma falado pelas gentes nativas da Ilha de Santa Catarina.

Para melhor conhecer Geraldo Cunha:

https://seomaneca.wordpress.com