Casa Branca

Foto: Carlos Amorim

Foto: Carlos Amorim

Casa branca em frente ao mar enorme,

Com teu jardim de areia e flocos marinhas

E o teu silêncio intacto em que dorme

O milagre das coisas que eram minhas.

A ti voltarei após o incerto

Calor de tantos gestos recebidos

Passados os tumultos e o deserto

Beijados os fantasmas, percorridos

Os murmúrios da terra indefinida.

Em ti renascerei num mundo meu

E a redenção virá nas tuas linhas

Onde nenhuma coisa se perdeu

Do milagre das coisas que eram minhas.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Cidade

Da janela do ônibus 1

Cidade, rumor e vaivém sem paz das ruas,

Ó vida suja, hostil, inutilmente gasta,

Saber que existe o mar e as praias nuas,

Montanhas sem nome e planícies vastas

Que o mais vasto desejo,

E eu estou em ti fechada e apenas vejo

Os muros e as paredes, e não não vejo

Nem o crescer do mar, nem o mudar das luas.

Saber que tomas em ti a minha vida

E que arrastas pela sombra das paredes

A minha alma que fora prometida

Às ondas brancas e às florestas verdes.

Sophia de Mello Breyner Andresen

A ARTE DAS ETAPAS

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(O CONTO)

“…Era uma vez uma comunidade de mulheres especialistas na arte de desvendar a beleza oculta das coisas, as Criveiras, também chamadas Mestres das Etapas. Ao atingir determinada idade, toda menina era encaminhada à D. Maria do Crivo, a Vovó Criveira , para que fosse iniciada no manuseio de tecidos, linhas e bastidores. Mas a arte de bordar é como a Vida, desafia os aprendizes, e exige mais que vontade de aprender. Exige disponibilidade e paciência para desfazer e refazer o trabalho e repetir os passos, um a um, tentando uma melhor performance.

Certo dia, uma das meninas, perguntou: – Vovó, qual o segredo da ‘arte das etapas’? Em sua simplicidade e sabedoria, D. Maria Criveira respondeu com seis perguntas: – Tu sabes fazer o Desfiado? – Sei. Respondeu a menina alegremente. – E o ponto Tampado? – Claro! – Pois, muito bem. Sabes fazer a Urdidura? – Sei, Vovó. A senhora me ensinou! – Tu conheces o ponto Caseado? – Sim! – E o Engomado? – Claro, Vovó! – Então, minha filha, o que estás esperando para descobrir os segredos do Crivo por ti mesma?”.

(Autor Desconhecido)

Colaboração da querida amiga Cristianne Sá Bez

A Sopa de Pedra

DSC04900(Existem muitas maneiras de contar uma história)

Aquele era um vilarejo muito pobre. As pessoas que ali moravam eram feias e rudes, incapazes de um ato de caridade ou gentileza. As casas, velhas, não tinham cores, nem jardins. Os campos eram secos, assim como as árvores, que não tinham frutos nem ramagens.

Mesmo em torno não vicejava beleza alguma, nenhuma esperança, nenhuma alegria. Há anos não se ouvia nem riso nem choro de criança, simplesmente porque ali não nasciam crianças, já que ninguém amava. Nem mesmo a morte reunia as pessoas ou parecia provocar qualquer compaixão. Os viandantes evitavam passar por aqueles caminhos pois tinham fama de assombrados. Um certo dia, já na boca da noite, algo estranho aconteceu.

Um homem bateu à porta de um casebre e pediu à mulher que o atendeu, com a porta entreaberta: – Tenho fome e frio… Por gentileza, eu gostaria de tomar um prato de sopa quente. A mulher o interrompeu, rudemente: – Pois se já não tenho comida nem para mim…  O homem esclareceu: – Só lhe peço um pouco d’ água. Tenho tudo o que preciso, disse, mostrando-lhe uma pedra retirada do farnel.

Movida pela curiosidade, a mulher autorizou-o a servir-se do poço, no quintal. Ele agradeceu com um sorriso e dirigiu-se ao lugar indicado. Bebeu um pouco, encheu o cantil e também o velho jarro deixado ali para esse fim, depois recolheu os gravetos que encontrou pelo terreno e, improvisando uma fogueira,iniciou o preparo da sopa. Com cuidado, colocou a pedra na panela e despejou sobre ela a água do jarro. Em seguida, encolhido sobre si mesmo, adormeceu, sabendo que era observado.

Pouco mais tarde acordou, espreguiçou-se prazerosamente. Mexeu e remexeu o líquido por alguns minutos e, sorvendo uma colherada, estalou os lábios com ar de aprovação. De repente, dirigiu-se à casa.

A mulher, que o espiava pela fresta da janela, sentou-se depressa, tentando aparentar desinteresse. Ele bateu palmas e pediu: – A senhora teria um pouco de sal? Intrigada, a mulher respondeu rispidamente que não. O homem agradeceu e, voltando ao fogão improvisado, começou a cantarolar uma canção esquisita, num idioma desconhecido. A mulher continuava a observar seus movimentos. De repente, apareceu no quintal trazendo algo nas mãos. – Eu encontrei isso perdido no armário… – Bravo! O homem ficou exultante: Noz moscada! Claro!  Era o que está faltando! Agradecendo, disse que ela era muito gentil.  Então, despejou o pequeno pedaço de noz moscada no líquido borbulhante, mexeu por alguns minutos, provou e exclamou: –  Agora, sim, não falta mais nada. Está servida?

Ela fez que não, pensando consigo mesma que não seria louca de tomar uma beberagem estranha daquela, não queria morrer envenenada. Voltou à casa, mas retornou em seguida: –  Espere!, gritou, quando o homem já ia despejar a sopa no prato. – Eu achei uma batata… Esplêndido!, ele agradeceu, dizendo à mulher que seus cabelos eram bonitos. Cantarolando, pôs-se a picar a batata. Ela permaneceu ali. Mas, de repente,disse: – Já volto! Voltou acompanhada de duas mulheres de aparência envelhecida que traziam nas mãos um pouco do quase nada que tinham em suas humildes casas, em suas humildes vidas. O homem agradeceu: –  Agora sim, esta sopa vai ficar realmente deliciosa! , e disse que nunca tinha encontrado pessoas tão generosas. Pediu que elas mesmas colocassem os ingredientes na panela e saiu para buscar mais lenha. As mulheres sentaram-se ao redor do fogo, atraídas pelo calor da chamas, pela beleza da  canção e também pelo delicioso aroma que se emanava da panela.

Aos poucos, outros foram chegando, trazendo um pequeno tomate, três varas de feijão de vagem, meia cebola, a carcaça magra de uma galinha velha, um pouco de sal. Sorrindo, o estranho observou que precisavam de uma panela maior.

Um velho de rosto descarnado e ar constrangido trouxe os gravetos que recolheu pelo caminho. Foi, de todos, o mais festejado e demonstrou contentamento quando o viajante, chamando-o num canto, confessou que o fogo era o principal ingrediente da receita.

A sopa finalmente ficou pronta e todos se regalaram, repetidas vezes. Uma “iguaria”, dizia um, “digno dos deuses”, dizia outro, todos se perguntando intimamente “como pode ser tão bom?”. Sorrindo, o viajante servia os pratos que eram passados rapidamente de mão em mão, até que, na roda, todos estivessem servidos.

Algo mágico aconteceu. Um homem de aspecto rude agradeceu à mulher que lhe entregara o prato. Como por encanto, todos passaram a agradecer também. Alguém riu, até hoje não se sabe  o motivo, o que provocou um silêncio profundo. Em seguida, todos desataram a rir sem parar, felizes de ouvir novamente o som já esquecido dos seus próprios risos.

Em meio a essa euforia, o viajante recomeçou a cantarolar, o que levou o  velho a dizer, surpreso: –  Eu conheço esta canção! Minha mãe a cantava para mim, quando eu era menino. Uma mulher pediu que o velho a ensinasse. Queria cantar também. Uma após outra, as pessoas foram integrando-se ao coro de vozes que entoava uma melodia que se revelava profundamente familiar, cujo som saía não apenas das suas gargantas, mas, sobretudo, das suas almas e dos seus corpos inteiros.

Talvez fosse o fogo, talvez fosse a música, o certo é que as mulheres puseram-se a dançar e, ao fazê-lo, sentiram que seus corpos ainda tinham boas carnes. O ritmo, aos poucos, se acentuava, marcado pelas palmas das mãos dos homens rudes. Quanto mais elas dançavam, mais se sentiam bonitas e, quanto mais se sentiam bonitas, mais eles as desejavam, a virilidade acordada. Ao final, os homens se incorporaram à dança das mulheres e, de repente, tudo ficou como previsto no Dia da Criação.

Ocupados com o Doce da Vida, nem perceberam a partida do estranho que, a essa altura, caminhava em direção a outro vilarejo pobre, habitado por pessoas feias e rudes, incapazes de um ato de caridade ou gentileza.

Precisava apressar-se, havia muitos vilarejos a visitar.

(* releitura absolutamente livre da fábula de Pedro Malazarte)

Brincando

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As madeiras
tornam-se prédios.
A terra e a serragem
tornam-se estradas.
As pequenas plantas
tornam-se praças e árvores.
Os palitos são pessoas
e os tubos arredondados
tornam-se carros.
Carrossel de linha gira,
faço trem-balas,
posto de gasolina,
ponto de ônibus,
ambulância e polícia.
Ergo uma cidade
um país
uma vida,
na vida
da minha infância.

Zé Mariano

Poeta e Professor