Que situação!

Tô indo no médico do coração. Sim, agora eu sou uma mulher com cardiologista! E com ortopedista também. Convenhamos: é outro nível! Diz o doutor: – Em que posso ajudá-la? – Olha, doutor. Não tenho uma queixa específica. É que ando sentindo umas batedeiras, uns tremeliques estranhos no peito, sabe? Assim, do nada, sem esforço, quando me deito, antes de dormir. Além disso, né, doutor?  Coração velho, maltratado, gente que entra e sai, gente que entra e não sai… O senhor entende. Ele sorriu e em seu olhar percebi que “das duas, uma”: ou ele é dos nossos ou está acostumado a ouvir essa queixa dos pacientes.

Diz o doutor que pela ausculta está tudo bem, mas me pediu uns exames. Fui logo avisando: – Esteira eu não posso fazer porque estou com problema no joelho  –  alguém aí falou “melhor idade”? Melhor idade é o cacete! – Tudo bem, disse ele. Vamos começar com um Eco e o Holter.

Tô chegando da clínica cheia de eletrodos, tenho que ficar com esse troço pendurado na alça do sutiã até amanhã e anotar numa folha tudo o que faço e sinto em seus respectivos horários. Tipo um relatório:

  • O que você está fazendo?
  • Horário de começo e fim da atividade?
  • O que você está sentindo?
  • Horário em que isso aconteceu?

O problema é que eu chego em casa, abro o Facebook e dou de cara com um post da Regina Carvalho falando sobre o João Bosco, paixão que compartilhamos, ela com mais autoridade porque está finalizando um livro sobre ele. Pois alguém, em resposta, me resolve publicar um vídeo do homem cantando Corsário, umas das minhas mais favoritas músicas entre todas as minhas mais músicas favoritas do João.

Meu coração traiçoeiro tão maltratado, coitado! – meio roto, meio rasgado -, desandou a bater mais que os bongôs, a tremer mais que as maracas e segue gemendo em descompassados  “ai,ai,ai,ai,ais” e “láláêôs” desde então. Tudo bem que eu já estou acostumada. O problema é como é que eu registro isso no relatório que tenho que entregar pro médico?

  • O que você está fazendo?

R: Ouvindo João Bosco.

  • Horário de começo e fim da atividade?

R: Comecei às 10h e só Deus sabe quando isso vai acabar.

  • O que você está sentindo?

R: Ah, doutor! Isso eu não conseguiria lhe explicar nem “chamando os universitários”.

 

 

Um Dia Especial

Obrigada, Pai e Mãe, pela Vida. Obrigada, Filhos, por me escolherem, por nascerem na minha casa. Obrigada, João Paulo e Flávia por esta dádiva que é o João Antônio, meu neto. Obrigada, Amigos, pelo carinho, pelo abraço, pela presença.

Abertura Norminha de pe sujo

Feliz 2015!

2015 não foi fácil! 2015 marcou a volta da carestia e da inflação, a confirmação da corrupção endêmica no Brasil, no futebol, dos atentados terroristas, dos desastres naturais e, sobretudo, dos desastres criminosos motivados pela omissão, a irresponsabilidade e o descaso com as vidas e as histórias das pessoas, das muitas, muitas guerras, da violência em todas as suas manifestações e do desamor.

A mediocridade, a estupidez  e a vulgaridade “pegando geral”, o perverso jogo do consumismo insano e frenético, as relações rasas e descartáveis confirmaram-se como opção – falso antídoto – ao risco de algumas lágrimas que o envolvimento  profundo e consciente sempre traz.

A cena antológica, bíblica, do Êxodo – o maior em tempos midiáticos -,  esfregou em nossas caras atônitas a imagem do Menino Afogado e de centenas de estranhíssimos peixes de formas humanas.  Mortes, mortes, muitas mortes. 2015 não foi nada fácil!

Tirando tudo isso, e em termos pessoais, no entretanto, 2015 foi um ano excepcionalmente bom! Excelente! Um ano maravilhoso! Ano de descobertas, de entrega às possibilidades, de experimentação, de inovação. Ano de literalmente “Sair da Caixa” (apesar da chuva persistente, constante, força de água durante sessenta dias consecutivos).

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Tempo de olhar para a própria trajetória com “olhos de ver”, ano de tentar compreender as motivações das pessoas e as minhas, de perdoar, de me perdoar, ano de reconhecer além da Sombra – minha velha conhecida -, a minha Luz, ano de reconhecer potencialidades,  e de, com alegria, experimentar novas configurações de mim mesma.

Tempo de ver o último filho sair de casa, de passar um  final de semana esquisito, estranhando o vazio do Ninho, e de, já na segunda-feira, sair a pintar parede de verde, espalhar quadros e flores pela casa e achar morar sozinha simplesmente o máximo!

2015 foi ano de mudar o que dá pra mudar  e  também de dar de cara com a chapante realidade e perceber que, não obstante a passagem do tempo, não obstantes a firme decisão, as intenções sinceras e os esforços,  há coisas que simplesmente não estão sob nosso controle; que,  ao contrário do que apregoam os gurus e alguns livros, nem tudo depende de Vontade e Determinação. E, apesar disso e por isso mesmo, confirmar as escolhas e seguir em frente sem nada fazer para alterar o rumo da Vida. Aceitar, agradecer a inspiração e seguir. Admitir, agradecer e aceitar. Ô coisa difícil! Ô coisa desafiadora! Ô coisa virtuosa!

Obrigada, Vida, por 2015! Um ano tipo: Minha vida. Antes e Depois.

  • Foto: A foto é minha, o graffiti é anônimo, o muro fica aqui, nas redondezas do mundo.

Em 2016 a gente podia…

“- Vamos nos ver mais no próximo ano!”.  

“- Vamos sim!!!”

Na troca de votos e felicitações de Ano Novo a proposta é corriqueira. A intenção, acredito, é sincera. Mas, entra ano, sai ano, não é o que acontece, não é? Me dei conta disso há pouco, ao enviar, no Facebook, uma mensagem de Feliz Ano Novo para uma pessoa muito querida.  Junto, a proposta: Vamos nos ver mais em 2016? A proposta foi sincera, de coração.

Ao rolar as mensagens percebi que a proposta finalizava também os votos de Feliz 2013. Aparentemente entusiasmada,  a pessoa respondera: – Siiim!!!! A proposta, afinal, se cumpriu no final do ano seguinte, mais precisamente no dia 06 de outubro. O local foi o Jardim da Paz no velório da minha mãe. Pra ser sincera, não era  exatamente isso que eu tinha em mente  quando fiz o convite.

Daí que – parodiando o impagável meme da Bela Gil -, em 2016 a gente bem que podia  Substituir propostas de “vamos nos encontrar mais” por iniciativa, por exemplo!

No início deste novo ano proponho a quem tiver interesse na minha atenção e afeto:

Em 2016 vamos nos encontrar mais? De verdade. No real. E em todos os sentidos. Que 2016 nos seja leve!

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Meu Filho Virou Pai

JP e JA em parceria.

JP e JA em parceria.

Olho meu neto e vejo meu filho quando tinha sua idade. É “cara dum, focinho do outro”, como se diz. Meu menino virou pai. E, para nossa alegria, tem se saído muito bem no papel. Sua performance vai muito além de trocar fraldas, dar mamadeira ou dar banho, essas coisas. Ele é presente, é responsável, é amoroso.  Pai e filho se adoram, são parceiros, adoram esporte – sim, esse toco de gente é todo performático já aos dois anos. Dia desses liga o pai e diz que o filho “ralou-se todo” porque caiu do patinete sem rodinha, pode isso?  -. A foto foi tirada durante um passeio num hotel fazenda, no momento exato em que a criatura ficou parada, pois cadê paciência pra esperar o peixe fisgar a isca? Resumo do dia: Peixe que é bom nada. Nada no açude.

Parabéns, meu filho, pelo teu dia!

As Placas Perdidas no Buraco, os Coelhos e o Sofá Velho

Foto da crônica do Felipe Obreer

“Na rua aqui perto de casa, tem um buraco enorme… os motoristas pensam que é só uma poça, e nessa rua tem um senhor que cata as placas… ele é dono de uns coelhos (…) ele costuma ir lá e colocar as placas em um sofá velho que tem ali… até eu olho ali de vez em quando e faço a mesma coisa”

O comentário era esse. A foto era essa. Pelo insólito, se reafirma aquela máxima de que a realidade supera com folga qualquer ficção. A partir da surpresa, a imaginação literária se move. Inspirada pela chuva e pelas placas perdidas.

O que escrevi agorinha:

As placas perdidas no buraco, os coelhos e o sofá velho

Chovia naquele bairro. Chovia em toda a cidade. Índice pluviométrico previsto para o mês concentrado em apenas dois dias. Lugares alagados, buracos camuflados sob a água.

As pessoas, apressadas dentro dos carros, em fuga da chuva mesmo estando ao abrigo dela, não atentavam para o grande buraco que engolia placas. Colhiam-se várias depois de cada chuvarada.

Ali perto, um senhor criava coelhos. Não se sabe se era mágico e os punha em uma cartola ou se simplesmente gostava dos bichinhos e por isso permitia que obedecessem ao imperativo divino “crescei e multiplicai-vos”. Lembrança da abertura de “Tudo o que você sempre quis saber sobre sexo mas tinha medo de perguntar”, do Woody Allen. Nem gosto muito dele, a esta altura, mas a lembrança veio. Nada disso que escrevo é importante, é só um exercício criativo, na medida do possível, dada a margem estreita de invenção para além do que já acontece na vida real.

Além de criar coelhos, esse senhor sabia aonde estava o sofá velho da rua. Ninguém sentava mais nele, mas o sofá seguia lá, há tempos. Acabou criando um ritual bem próprio: depois de cada chuva, saía em busca de placas perdidas e as dispunha lado a lado apoiadas no sofá decrépito. Mal sabia ele que, em tempos de mídias sociais, sua obra de arte contemporânea cairia na rede. Menos ainda que viraria personagem de uma crônica sem pé nem cabeça como esta.

A moça que fotografou as placas também ignora que as palavras dela inspiraram estas linhas. Os carros se reproduzem mais rápido que os coelhos, nesse mundo tão motorizado. As cadeiras na calçada foram substituídas pela televisão de plasma ou a tela do computador ou do celular esperto. Rede daquelas de balançar é pouco usada para apreciar a natureza em volta. E há quem olhe mais as postagens na internet do que o céu, já sem chuva, que neste momento é ornado por uma bela e brilhante lua crescente.

O texto é do Felipe Ubrer

* Fonte: perfil do Felipe Ubrer no Facebook. Não sei quem é a moça que fotografou o insólito. O Felipe não disse.

Cidade Rendada

“O designer da Polônia, conhecido pelo pseudônimo  NeSpoon  tece rendas na paisagem urbana aplicando-as nas paredes de edifícios com a ajuda de stencils especiais. Acredita que os meandros de certos padrões culturais escondem  códigos reconhecíveis por todos. Além disso, as rendas  embelezam o espaço e criam uma atmosfera positiva”.

http://www.livemaster.ru/topic/1282977-gorod-v-kruzhevah-nezhno-azhurnyj-strit-art-ot-dizajnera-nespoon

Cidade Rendada, uma expressão de generosidade urbana que combina com Florianópolis. Ou não?

Fonte: Perfil  Ярмарка Мастеров do Facebook