Barlavento – indo para o lugar de onde sopra o vento

Quem é de fora, como se diz, que seja bem aparecido e não se aborreça se essas histórias de província lhe parecem de rasa importância. É bom que saiba, no entanto, que é aqui, nesta pequena ilha do sul do mundo que o vento faz a curva e que, ainda que os homens de muito estudo expliquem porque as águas das duas baías se alternam em fúria ou calmaria conforme seja suli ou lestada a ventania, ninguém convence a gente por causo de que esse fenômeno acontece exatamente ali debaixo da Ponte Velha, nem mais pra cá, nem mais pra lá, lugar, aliás, de onde muito vivente já se jogou, desacorçoado da vida, que Deus os tenha.

 A verdade é que esta aldeia tem mesmo alguma coisa muito estranha. Há quem diga que a culpa é do Franquilin que foi buli c’o as bruxa, aí elas se arrenegaro e encantaram de vez esta aldeia e, desde então, todo mundo que passa por aqui fica encantado. A gente não sabe muito bem o que é que é, mas de uma coisa a gente tem certeza: aí tem!

 O que a gente sabe é que, aqui, o Vento Sul tem a estranha mania de bolinar com as moças e também com as velhas, e de levantar suas saias para espiar suas coxas e, como amante brincalhão, desmancha-lhes o cabelo chamando-as pra vadiar. E aí as moças não sabem se seguram as saias ou os pacotes e tem moço que fica parado, encostado na parede, só olhando, e as velhas, assanhadas, com a desculpa de que tem coisa que quebra, antes preferem acudir os pacotes do que as saias e ficam afogueadas e depois vão pra jigreja pedir perdão a Deus Pai de ainda pensar nessas coisas, apesar da idade.

 E esse mesmo vento que faz a alegria das viúvas e das moças já foi a desgraça dos engenheiros da CELESC e às vezes também dos pescadores que chamam ele de rebojo, porque é um vento traiçoeiro que muda o tempo todo de direção não adiantando aproar a batera pra quebrar a onda porque parece que ele apercebe e muda de novo abordando a canoa de lado e aí naufraga tudo, barco-homem-pescaria, devolvendo os peixes para o mar.

 Mas, apesar disso, também é aqui, moço, nesta aldeia, que todo ano Nosso Senhor reedita, ao vivo e em cores, o milagre da multiplicação dos peixes abençoando nossas redes com milhares e milhares de tainhas ovadas. Entonces, o milagre aparece na televisão pra quem precisa ver para crer e a gente sai de casa em pleno inverno, debaixo de vento, e vai para a beira da praia comer peixe frito com pirão d’água e, apesar de encarangado, diz assim: – Isso sim é que é Paraíso!

 * (trecho da crônica Metamorfose, do livro A Minha Aldeia, Papa-livro, 2004).

 * Lê-se também em Crônicas da Desterro em @carosouvintes.org.br

 

 

 

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About Norma Bruno

Vivo na Ilha de Santa Catarina desde que nasci. Sou de aquário, portanto já nasci aluada, mas contraditoriamente, não me dou bem com tecnologia e gosto mesmo é de coisa velha. Fiz muitas coisas, deixei para trás outras tantas, tenho muito por fazer. Coleciono cenas urbanas, rendas de bilro e revistas antigas. Escritora amadora em todos os sentidos, invento coisas, conto histórias. Livros publicados: - Prosa, quase Poesia - ou vice-verso - Tempo Editorial. 2015 - Cenas Urbanas e Outras Nem Tanto. Bernúncia Editora. 2012 - A Minha Aldeia Editora Papa-Livros. 2004. - Leia Crônicas da Desterro no site www.carosouvintes.org.br

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