Jornal O Catharinense 180 Anos

 Antes da invenção do jornal as notícias corriam de porta em porta.

À boca pequena construíam-se e destruíam-se reputações adicionando ou subtraindo personagens, fatos e detalhes de acordo com a criatividade e a conveniência do narrador. Uma Lei de 1642 “proibia em todo o Reino luso, a impressão de gazetas gerais” alegando a “pouca verdade de muitas e estilo de poucas” conta Celestino Sachet, em seu livro História de Santa Catarina. Em contrapartida, “Supria-se a falta de jornais pelos boatos e cochichos nas lojas de fazenda e nas boticas, nas feiras, nos Senados, nas Câmaras, nos cais dos portos, nos armazéns. (…) os pasquins multiplicavam-se afixados nos muros ou colocados sorrateiramente por baixo das portas, ou ainda jornais caprichosamente manuscritos, circulando de mão em mão, às escondidas, em prosa e verso, ora justos, ora injustos e caluniosos, denunciando irregularidades, influindo na opinião pública”. Em 1821 uma resolução governamental permitiria, enfim, a “circulação de periódicos de propriedade particular”, ainda que sujeitos à censura prévia, segundo o professor Sachet. Como no Brasil também na Desthêrro de antanho.

 “Naqueles tempos ainda não havia jornaleiros, nem venda avulsa. As edições eram distribuídas apenas aos assinantes, então chamados de ‘subscritores’ ”. 

 Em pesquisa na Biblioteca Pública Estadual, encontrei algumas deliciosas curiosidades. O Semanário Illustrado O OLHO, edição de 06 de abril de 1916 Número 1 ANNO 1, por exemplo,  trouxe na página 2 a seguinte advertência, quase ameaça:

 “Todos os que receberem o presente número e não o devolverem no prazo máximo de tres dias, serão considerados assignantes”.

E alertava:

 “Do 2º número em diante só publicaremos annuncios em papel assetinado si os srs annunciantes se sujeitarem ao pagamento da differença do preço do papel” (página 2).

 Já na página 3 esse era o destaque: “Esta revista só se vende na engraxataria à rua República”. Isso demonstra que os primórdios da Imprensa Catarinense resultaram dos esforços e do espírito empreendedor de grandes idealistas destacando-se Jerônimo Joaquim Coelho que, há exatos 180 anos comemorados neste 28 de julho de 2011 (coincidentemente uma quinta-feira), lançava o número-programa do jornal O Catharinense, o 1º jornal da Província. Corria o ano da graça de 1831 e Coelho dirigiu-se assim à sociedade catarinense:

 “por êsse modo, eu vos abro o santuário da Imprensa e, por seu intermédio também podereis mutuamente comunicar vossos pensamentos e idéias  e, desta arte, as luzes se propagarão com rapidez e facilidade”. (número-programa de O Catharinense, 1º jornal da Província lançado em 28 de julho de 1831, Jerônimo Coelho – Redactor).

*  Durante a pesquisa, descobri que o único exemplar original do O Catharinense existente na Biblioteca Pública do Estado de Santa Catarina foi roubado, assim como o que havia no Arquivo Público Municipal. É chocante observar o deplorável estado de conservação de exemplares datados do final do século XIX e início do século XX, verdadeiras preciosidades, esfarelados, riscados à caneta, rasgados ou cortados com estilete. Mais recentemente me chegou a informação de que haveria um exemplar do O Catharinense na Biblioteca Central da Universidade Federal de Santa Catarina, o que ainda não pode ser confirmado em função da greve da Universidade. Encerrada a greve farei uma visita à BC para confirmar a informação que, claro, será compartilhada com os amigos.

 

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About Norma Bruno

Vivo na Ilha de Santa Catarina desde que nasci. Sou de aquário, portanto já nasci aluada, mas contraditoriamente, não me dou bem com tecnologia e gosto mesmo é de coisa velha. Fiz muitas coisas, deixei para trás outras tantas, tenho muito por fazer. Coleciono cenas urbanas, rendas de bilro e revistas antigas. Escritora amadora em todos os sentidos, invento coisas, conto histórias. Livros publicados: - Prosa, quase Poesia - ou vice-verso - Tempo Editorial. 2015 - Cenas Urbanas e Outras Nem Tanto. Bernúncia Editora. 2012 - A Minha Aldeia Editora Papa-Livros. 2004. - Leia Crônicas da Desterro no site www.carosouvintes.org.br

2 thoughts on “Jornal O Catharinense 180 Anos

  1. Muito importante sua pesquisa sobre o jornal “O Catharinense”, sou estudante de jornalismo e por coincidência ou não trabalho na Rua Jerônimo Coelho. É uma pena que as pessoas não tenham consciência e roubem estes acervos tão importantes. Mas aguardo para saber se conseguiu o exemplar na Biblioteca da UFSC. Precisava ilustrar um trabalho com uma foto.

    • Olá, Ismênia!

      Não dei continuidade à busca, pois estou me dedicando a outros projetos. Se tiveres notícia sobre o exemplar, me avisa, por gentileza, gostaria muito de vê-lo. Tenho a cópia digitalizada da capa do 1º exemplar, se encontrar o arquivo te envio. Me repassa o teu e-mail? Obrigada pela visita! Forte abraço

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