A Minha Aldeia

Foto: Carlos Amorim

A aldeia é, desde os primórdios, referência de descanso e abrigo. Nasceu de uma paisagem que convidava ao repouso quer o caminhante precisasse recuperar suas forças, aguardar um clima mais favorável à caminhada ou permitir-se um tempo de reflexão para a escolha entre dois caminhos confluentes. As necessidades humanas de nutrição e conforto faziam florescer um comércio rudimentar que gerava trabalho e acabava por atrair um maior número de pessoas. Nascia, assim, uma cidade.

A aldeia continua viva em mim. Ela é qualquer lugar onde eu tenha a sensação de largar o fardo, sentar à sombra e beber um pouco de água fresca. É o lugar onde eu me sinto protegida e encontro as pessoas que, apesar de peregrinos de seus próprios caminhos, partilham comigo o mesmo espaço e o mesmo fragmento de tempo.

Ao pensar nisso, e sem que eu me aperceba, me chegam lembranças de aconchego, nutrição e amparo disfarçadas de goiabeiras e caquizeiros, cheiro de mar e entardeceres preguiçosos. Lembro um lugar feito de risos e confiança, de uma velha casa e um tempo em que o maior problema era inventar a próxima brincadeira. Sou invadida por aquela paisagem.

O que me permite dizer sou daqui, pertenço a este lugar, faço parte desta gente é um profundo senso de identificação, emoção que se constrói na aldeia. Pode ser uma casa, uma rua, uma cidade, um caquizeiro ou o peito da pessoa amada; aldeia é qualquer lugar para onde se queira voltar porque é, essencialmente, o lugar da saudade. É tudo aquilo que me inspira amorosidade e onde, envolvida pela emoção do pertencimento, eu sei quem sou. Fernando Pessoa traduziu assim essa emoção…

“O Tejo é mais belo que o rio da minha aldeia,

Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia.

Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

(…) poucos sabem qual é o rio que corre pela minha aldeia.

E para onde ele vai

E donde ele vem…”

Eu também não sei para onde vai o mar que banha a minha aldeia, mas onde quer que vá, ele me leva em suas águas, e de onde quer que venha, ele sempre me trará de volta Às vezes o sonho da gente fica maior do que o lugar e então é chegada a hora de ir. Não é preciso ter o olhar repleto de paisagens para se conhecer a saudade, porque saudade é desejo de voltar, mas só aprende a voltar quem aprendeu a partir. Eu sei de onde sou. Sou deste lugar. É apenas “um pedacinho de terra perdido no mar”, mas é mais belo que o Tejo porque fica o mar que banha minha aldeia.

E, por falar nisso, a tua aldeia…Onde fica?

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About Norma Bruno

Vivo na Ilha de Santa Catarina desde que nasci. Sou de aquário, portanto já nasci aluada, mas contraditoriamente, não me dou bem com tecnologia e gosto mesmo é de coisa velha. Fiz muitas coisas, deixei para trás outras tantas, tenho muito por fazer. Coleciono cenas urbanas, rendas de bilro e revistas antigas. Escritora amadora em todos os sentidos, invento coisas, conto histórias. Livros publicados: - Prosa, quase Poesia - ou vice-verso - Tempo Editorial. 2015 - Cenas Urbanas e Outras Nem Tanto. Bernúncia Editora. 2012 - A Minha Aldeia Editora Papa-Livros. 2004. - Leia Crônicas da Desterro no site www.carosouvintes.org.br

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