A Penitenciária e o Futuro da Cidade

Imagine esse prédio totalmente pintado de branco, sem grades, e uma trepadeira colorida esparramando-se pelo caramanchão.

Quando foi inaugurada (1930), chamava-se Pedra Grande e ficava num sítio distante chamado Agronômica ao qual chegava-se por uma estrada de chão. Ao redor, a exuberante vegetação do Morro da Cruz, o extenso muro de pedras, hortas, um lixão e o mangue isolavam os internos das “pessoas de bem” e desencorajavam as fugas. Com o tempo, foi sofrendo acréscimos para atender as demandas da crescente população carcerária, reflexo sinistro do desenvolvimento das cidades.

A implantação da Universidade de Santa Catarina no vizinho bairro Trindade impulsionou o crescimento da região de modo que, hoje, ao redor, temos uma intensa movimentação de pessoas fruto da abertura da Avenida Beira Mar Norte, da intensiva atividade comercial, da ocupação do Maciço do Morro da Cruz, da presença de instituições como o Centro Integrado de Cultura e da ocupação desenfreada da construção civil com seus condomínios destinados à classe média e às classes A e B.

Morei vizinho à Penitenciária por mais de trinta anos. Durante esse período, assisti a inúmeras fugas, tiroteios e rebeliões. Da minha janela presenciei policiais armados em perseguição aos fugitivos que, invariavelmente, se escondiam nos quintais das casas, inclusive da minha. No começo, era comum ouvirmos a sirene alertando a vizinhança sobre uma nova fuga. Corríamos a fechar portas e janelas e assim permanecíamos até passado o perigo. Com o tempo, as fugas tornaram-se tão freqüentes que a sirene já não tocava mais, provavelmente, para não chamar a atenção para a incompetência do sistema e de seus gestores. Hoje já não resido nas cercanias do presídio, mas ainda moro no bairro e a cada fuga, me sinto sob ameaça.

Mas, quando penso na Penitenciária, o que me vem à memória não são as fugas e sim um velho sonho que acalento desde que fui morar na Trindade. Passadas algumas décadas, meu olhar ainda passeia pelo conjunto de tijolos aparentes que abrigam os apenados, mas se fixa mesmo é no prédio branco que abriga a administração e se destaca dos demais por suas paredes curvas e envidraçadas e pelo caramanchão eternamente sem flores que há em frente.  Eu tinha vinte anos quando me mudei para aquela rua e pensava: que lindo espaço para abrigar uma biblioteca! Que delicioso seria poder sentar sob esse caramanchão com um livro na mão ou na companhia de um amigo para falar de música, de arte, de cultura, de livros ou simplesmente pra jogar conversa fora!

Essa digressão se faz a propósito da necessária transferência da Penitenciária e à discussão acerca da destinação daquela área nobre. O governador anterior, Sr. LHS, que a despeito da extensa milhagem e da pose de erudito não consegue ver além, sonhou encher aquilo tudo de prédio, negligenciando o previsível colapso das estruturas e equipamentos públicos, as restrições geofísicas à abertura de novas avenidas, o impacto sobre o já combalido manguezal, a saturação dos sistemas de abastecimento de água e esgoto, o acentuado desmatamento das encostas e a intensiva exploração imobiliária na Bacia do Itacorubi. Traduzindo: aos amigos construtores a antevisão do Paraíso e à Cidade, em troca, a experimentação do caos. O atual governador, Raimundo Colombo, demonstrando um pouco mais de razoabilidade declarou que a área seguirá pública e que deseja alí implantado um hospital.

Em 2004 participei de algumas reuniões onde se discutia a destinação do terreno da Penitenciária em contraponto à sanha das empresas da construção civil que, alvoroçadas, já antecipavam as verdadeiras orgias que costumam envolver o setor e os gestores públicos. As comunidades do entorno e os diversos grupos organizados no Fórum da Cidade reivindicam, desde o início, a manutenção do espaço público com a implantação de um imenso parque e equipamentos de uso coletivo como creche, quadras esportivas e a restauração de um antigo campo de futebol. Muitos encontros foram realizados com o objetivo de ampliar as discussões apresentando soluções já experimentadas em outras cidades brasileiras onde presídios desativados foram transformados em centros de cultura, lazer e, principalmente, em centros de promoção e exercício da cidadania.  Exemplo disso é o caso do antigo Presídio do Carandiru que já foi o maior presídio da América Latina, palco de degradação humana e de horrores, cujo terreno abriga o Parque da Juventude inaugurado em 2010 e comporta 10 quadras poliesportivas, pista de skate, alamedas, bosque e, principalmente, uma preciosíssima biblioteca pensada nos moldes das modernas livrarias onde a relação com o livro é motivo, sobretudo, de alegria.

Numa dessas reuniões falei do meu velho sonho. A ideia foi muito bem recebida. Decidimos, então, dar início a um abaixo assinado para, futuramente, levar a ideia ao Governador. Coletamos algumas assinaturas e, entre elas, uma lista de nomes muito, muito especial. Assinaram o documento e se comprometeram a doar exemplares de suas obras, editores e escritores como Cleber Teixeira, Fábio Brüggemann, Francisco José Pereira, Vilson Mendes, Dennis Radünz, Moacir Pereira, Hoyêdo de Gouvêa Lins, Júlio de Queirós, Iaponan Soares, Rodrigo de Haro, Caldeira de Andrade, entre outros. As assinaturas foram recolhidas no dia 24 de agosto de 2004 no Centro Integrado de Cultura (CIC) durante um evento raro: o lançamento dos livros Memórias Esparsas de Uma Biblioteca de José Mindlin e Memória de Uma Guardadora de Livros de Cristina Antunes da Coleção Memória do Livro editado por Cleber Teixeira. A lista é encabeçada por José Mindlin* que se mostrou muito sensível a ideia. Por razões diversas não demos continuidade à coleta de assinaturas, de modo que o projeto ficou parado durante todos esses anos, mas não foi abandonado. A volta do tema ao noticiário fez renascer o sonho. Por isso eu lhe convoco a sonhar junto, pois, como cantava Raul… “Sonho que se sonha só, é só um sonho que se sonha só, mas sonho que se sonha junto é realidade”.

 

* Taí um bom nome para uma biblioteca, não acha?

 

Gostou da ideia? Comente. Divulgue.

 

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About Norma Bruno

Vivo na Ilha de Santa Catarina desde que nasci. Sou de aquário, portanto já nasci aluada, mas contraditoriamente, não me dou bem com tecnologia e gosto mesmo é de coisa velha. Fiz muitas coisas, deixei para trás outras tantas, tenho muito por fazer. Coleciono cenas urbanas, rendas de bilro e revistas antigas. Escritora amadora em todos os sentidos, invento coisas, conto histórias. Livros publicados: - Prosa, quase Poesia - ou vice-verso - Tempo Editorial. 2015 - Cenas Urbanas e Outras Nem Tanto. Bernúncia Editora. 2012 - A Minha Aldeia Editora Papa-Livros. 2004. - Leia Crônicas da Desterro no site www.carosouvintes.org.br

3 thoughts on “A Penitenciária e o Futuro da Cidade

  1. Por coincidência também morei numa casa próxima e também por coincidência sempre acalentei a mesma vontade!
    Agora de longe, estou na torcida para que o espaço da Penitenciária seja inteligentemente aproveitado.

    Um beijo.

    João Paulo Bruno

  2. Querida Norma:
    Achei a ideia formidável. O nome para a biblioteca não poderia ser melhor. José Mindlin pasou tod vid entre livros. Parabéns.
    Geraldo Batista.

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