Violetas

(baseado em fatos reais)

 A paixão por flores era proporcional à sua falta de talento para cultivá-las. E ela bem que tentou: canteiros de rosas, gerânios, azáleas, orquídeas e violetas, adorava violetas. Perdeu a conta do que gastou com as flores ao longo da vida. Vasos, vasos e mais vasos.

No começo elas até que iam bem, mas depois davam pra murchar, depois pra rarear, depois simplesmente deixavam de florir. Ela, coitada, fazia tudo direitinho: retirava as folhas danificadas, adubava e molhava conforme as instruções. Na verdade, às vezes esquecia, passava uns dias sem molhar, então sempre molhava um pouquinho a mais pra garantir. Revistas especializadas, pesquisas na internet, sabia quase tudo sobre o cultivo de violetas.

Já a Madalena não sabia tanto quanto ela, mas tinha pra mais de cinqüenta vasos em flor. TODOS em flor. Sabe o que é isso? Madalena nem disfarçava, arranjou seus vasos no corredor coberto localizado entre a garagem e o resto da casa de modo que, fosse pela porta da frente ou pela porta dos fundos, a visita era obrigada a passar pela coleção de violetas. A mulherada parava.

Visitar a amiga tornara-se um tormento para ela, pois não havia como ignorar aquelas flores explodindo em cores. Até porque a Madalena vangloriava-se e fazia questão de mostrar a coleção. As novas aquisições, as de cores intensas, as de cores delicadas, as rajadas, as lisas, as dobradas e, principalmente, o que ela chamava de “berçário” (sim, a Madalena se dava ao luxo de ter um berçário de violetas!), os botõezinhos nascidos a partir do replantio de folhas. 

As amigas ficavam extasiadas, queriam saber o segredo. Ela esnobava. – É fácil. É só molhar quando estiver seco, adubar, proteger do sol direto. Aí a pessoa dizia: – Mas eu faço tudo isso. Aí a Madalena arrematava – Mas tu conversas com elas? Eu chamo elas de queridas, digo que elas são lindas… Elas ficam contentes e retribuem se enchendo de flores (ai que ódio!).

Ela entregou pra Deus. Passou a colecionar cactos. Tudo bem que eles não eram “tão” coloridos e nem soltavam “tantas” flores, mas, em compensação, não geravam nem expectativas, nem frustração. E lá estava ela, toda feliz com os seus quinze vasos de cactos – as pessoas elogiavam os seus vasinhos de cactos -, cuidadosamente colocados sobre a bancada na entrada da sala e tão feliz estava que resolveu dar uma festinha no seu aniversário.

Advinha o que a Madalena trouxe de presente? Bidú! Uma cesta enorme com vinte vasos de violetas explodindo em flores e cores. Vinte. Vinte. Ela pensou: – Não vou agüentar, mas disse: – Amei! E a amiga: – Eu sabia que tu ias gostar! São todas do meu berçário. Naquele exato momento acabou-se a festa.

Ela não via a hora que todos fossem embora para poder lamber suas feridas no silêncio sagrado do seu lar, mas a festa se arrastou até as altas da madrugada e a última a sair quem foi? Exatamente. A Madalena. E, não se contentando com o estrago que fizera, na despedida ainda enfiou mais um pouquinho o punhal: – Não esquece. Conversa com as violetas! Ela disse: – Pode deixar.

Mal a porta se fechou ela partiu pra cima das violetas: – Escuta aqui suas filhas da puta! O negócio é o seguinte: aqui em casa não tem moleza! Ou vocês tratam de soltar flor ou vão morrer tudo afogada!

E foi-se embora tomar um banho que o dia fora longo e ela estava com “as varize ardendo”, como se diz.

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2 comentários sobre “Violetas

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