A Cidade como Espaço de Convivência

 A cidade é mais que um conjunto de ruas e casas destinadas à residência fixa; é, sobretudo, um lugar onde se encontram e convivem os cidadãos.  Por isso a cidade é, por natureza, conversadeira (Goitia). 

 “A oitenta milhas de distância contra o vento noroeste, atinge-se a cidade de Eufêmia, onde os mercadores de sete nações convergem em todos os solstícios e equinócios. O barco que ali atraca com uma carga de gengibre e algodão zarpará com a estiva cheia de pistaches e sementes de papoula, e a caravana que acabou de descarregar sacas de noz-moscada e uvas passas agora enfeixa as albardas para o retorno com rolos de musselina dourada. Mas o que leva a subir os rios e atravessar os desertos para vir até aqui não é apenas o comércio das mercadorias que se encontram em todos os bazares (…). Não é apenas para comprar e vender que se vêm a Eufêmia, mas também porque à noite, ao redor das fogueiras em torno do mercado, sentados em sacos ou em barris ou deitados em montes de tapetes, para cada palavra que se diz (…) os outros contam uma história”. (Ítalo Calvino).

 A verdade é que o coração da cidade pulsa nas ruas, lugar onde, apesar dos esforços de distinção, tudo e todos se misturam, pois a cidade a tudo contém. A simplificação do seu significado – do latim ruga, sulco – revoltou o inspirador João do Rio, o flâneur por excelência, que dedicou a ela sua obra mais conhecida A Alma Encantadora das Ruas, onde protesta:

“Abri o primeiro, abri o segundo, abri dez, vinte enciclopédias (…) a rua era para eles apenas um alinhado de fachadas, por onde se anda nas povoações… Ora, a rua é mais do que isso, a rua é um fator de vida, a rua tem alma!”.

 “Há suor humano na argamassa do seu calçamento. Cada casa que se ergue é feita do esforço exaustivo de muitos seres, e haveis de ter visto pedreiros e canteiros, ao erguer as pedras para as frontarias, cantarem cobertos de suor (…). A rua sente nos nervos essa miséria da criação, e por isso é a mais igualitária, a mais socialista, a mais niveladora de todas as obras humanas”.(João do Rio)

 Ruas antigas, como as cidades antigas, nasceram de forma quase espontânea. Sua implantação se fez devagar, adaptando-se aos contornos dos terrenos, aceitando suas restrições, negociando com as águas, convivendo com elas. Foram enraizando-se, as ruas e com elas as cidades, e esse enraizar-se resultando, principalmente, das interações sociais, imprimiu suas formas orgânicas, suas curvas, meandros e desvios, pois a com-vivência humana, isto é, o compartilhamento da existência, não se dá no espaço da racionalidade que tudo esquadrinha, mas no espaço da emocionalidade, que ou afasta ou aproxima.

“Só em mapas, plantas e planos, ruas podem ser vistas apenas como meios de circulação entre dois pontos distantes. É claro que elas também o são. Mas (…) uma rua é um universo de múltiplos eventos e relações. A expressão ‘alma da rua’ significa um conjunto de veículos, transeuntes, encontros, trabalhos, jogos, festas e devoções. Ruas têm caráter, e podem ser agitadas, tranquilas, sedes de turmas, pontos e territórios” (Brigs).

Ressalte-se que o indivíduo geralmente vive numa cidade que foi construída pelos antepassados e  é nessa realidade herdada que ele respira, atua e delibera e assim vai inscrevendo, ele também, as suas marcas na paisagem.

 Leituras de referência para este texto:

“Edifica-se a casa para estar nela, funda-se a cidade para sair da casa e reunir-se com outros que também saíram de suas casas”. (Ortega Y Gasset)
Foto: Maria de Fátima Barreto Michels Praça Central de Laguna SC

 A Alma Encantadora das Ruas de João do Rio.

As Cidades Invisíveis de Ítalo Calvino

Breve História do Urbanismo de Fernando Chueca Goitia onde cita Ortega Y Gasset

Quando a Rua Vira Casa: a apropriação de espaço de uso coletivo em um centro de bairro de Carlos Nelson & Arno Vogel onde citam Brigs.

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Um comentário sobre “A Cidade como Espaço de Convivência

  1. Parabéns pela iniciativa que é oportuna e merecida, pois no cotidiano as pessoas mal têm tempo para respirar e praticamente sucumbem sob a avalanche de lixos sonoros, odoríficos e da parafernália egoística reprsentada pelo superficialismo que toma conta da vida de muitas pessoas.

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