Miramar, Ponto de Encontro da Cidade

Edifica-se a casa para estar nela, funda-se a cidade para sair da casa e reunir-se com outros que também saíram de suas casas”.

(Ortega Y Gasset)

 Em Florianópolis, durante 46 anos, quem desempenhou esse papel foi o Trapiche Miramar. Inaugurado no dia 28 de setembro de 1928, portanto, há exatamente 85 anos, para substituir o antigo trapiche municipal, o Miramar logo se tornou o lugar central, o ponto de encontro da provinciana Florianópolis. Em seu livro Transporte Coletivo em Florianópolis, Eliane Veiga, relata que:

“O projeto do Miramar foi obra dos Irmãos Contini, engenheiros que chegaram à Florianópolis em novembro de 1922, para supervisionar os trabalhos de construção da Ponte Hercílio Luz. Foram também autores dos planos do Hotel La Porta e do Novo Mercado Público, construído sob a orientação do arquiteto Augusto Hubel. Com relação ao estilo adotado para o café que seria mais tarde conhecido por Bar Miramar, predominaram as linhas ecléticas, distinguindo-se na frontaria do portal de acesso elementos neoclássicos e insinuações em art-déco”  (42).

 Ponto de encontro de remediados, porto de atracação e partida das lanchas de passagem – embarcações cobertas para o transporte de pessoas -, das balsas próprias para o transporte de gêneros e animais e também das pequenas canoas dos pescadores e ponto de entrada para os não-residentes, a beleza e a elegância arquitetônica do Miramar o transformaram na principal referência na paisagem da cidade.

 “Na década de 20 estar na moda era freqüentar o Miramar. As regatas eram a principal atração das manhãs de domingo, quando o sol iluminava a raia da baía sul, onde com élan e galhardia os ‘rowers’ dos clubes náuticos abriam estrias nas águas espelhadas, disputando os corações das senhorinhas que torciam em terra firme. A tradicional família florianopolitana fazia ali o seu ponto de reunião, sendo obrigatórios os vestidos longos e chapéus com enfeites rendados para as senhoras, e o aprumado terno, acompanhado de indefectível colete, chapéu, polainas e bengalas, para os cavalheiros. O bigode estava na moda e não tê-lo bem cerrado era quase uma anomalia física, um anátema. O Miramar servia-se para encontros sociais vespertinos, onde tomava-se chá com a mesma regularidade com que se retalhava a vida alheia. (…) À noite o Miramar se iluminava, rebrilhando nas ondas e qual um imponente galeão, patrocinava noitadas elegantes ao som de orquestras completas, afinadas sobretudo com o Danúbio Azul, de Strauss”. (Jornal O Estado, ed. de 24 de outubro de 1974).

Inúmeros são os relatos que dão conta da presença e da importância do Miramar no cotidiano das pessoas da cidade mesmo depois de transferidas as suas funções para a Ponte Hercílio Luz. Ali, emoldurados por suas muretas e vitrais, os ilhéus escreveram pequenos e significativos retalhos de suas histórias particulares. Por isso, a sua lembrança remete o homem velho à mão do pai que inspirava segurança ao menino; desperta na senhora a moça e o seu sonho de ser feliz ao lado do namorado e faz emergir no engenheiro o estudante que, junto com os colegas, reunia-se no Miramar para beber, falar mal dos militares e compartilhar o sonho de arranjar um bom emprego depois de formado.

 “Tudo começou quando eu tinha aproximadamente sete anos de idade. Geralmente nos lindos domingos de sol, com frio ou calor, não importava, meu pai me levava para a missa das oito e meia na Catedral Metropolitana. Era longe à beça. Tínhamos que subir uma parte da rua Martinho Callado e grande parte da rua Lacerda Coutinho, vagarosamente, para não sujar os pés de lama, pois as ruas não eram calçadas. Não podia, de jeito nenhum, sujar meus sapatos de verniz. Sapatos de “missa”, como chamávamos. No caminho se passava pela Praça Pereira Oliveira, o bar do IPASE, a Gruta de Fátima e finalmente subíamos as escadas que davam acesso à Catedral. Lembro perfeitamente que durante o trajeto eu segurava o dedo indicador do meu pai, pois eram bem fortes. Eu sempre me sentia mais seguro. Término da missa, íamos vagarosamente pelo Jardim Oliveira Belo na Praça XV de Novembro, a fim de ver e admirar com um pouco mais de tempo, as frondosas árvores, o cantar dos passarinhos e as pessoas que passavam. Ao chegarmos ao Miramar, ficávamos aguardando a chegada do Hidroavião da TABA que chegava por volta das dez horas. Meu pai me pegava no colo e me colocava na mureta do Miramar para que eu pudesse ver o avião pousar na água. Esperávamos até o final para ver os passageiros que vinham num pequeno barco até o Trapiche onde outros já estavam esperando para entrar no avião. E lá se ia o avião levantando voo, desaparecendo no ar. O próximo seria dali a quinze dias. Mas o passeio não tinha acabado. Meu pai sentava com alguns amigos. Eu tomava um refrigerante, Kola-Marte ou Ginger-Ale, não lembro bem, depois ia até a mureta do Miramar jogar algumas moedinhas para os mergulhadores apanharem. Era uma festa inesquecível que se repetiu por muitos e muitos anos”. (Depoimento de Vilson Mendes, editor, em 2004).

 Tenho com o Miramar uma relação afetiva muito forte, construída desde que eu era criança e pegava o ônibus no Miramar com minha mãe. Morávamos no Saco dos Limões e eu a acompanhava quando ela vinha à “cidade” pagar o carnê da Modelar ou comprar um “corte de fazenda” para costurar nossas roupas. Para mim ele sempre foi a imagem mais bonita de todo o casario do centro de Florianópolis. No dia que marca a passagem dos 85 anos da sua inauguração, esta é minha homenagem.

 Leituras de referência para este texto:

Ramos, Sebastião. No Tempo do Miramar. Papa-Livro, 1993.

Silva, Adolfo Nicolich. Ruas de Florianópolis. Resenha Histórica. Fundação Franklin Cascaes, 1999.

Veiga, Eliane – Florianópolis: Memória Urbana. FSC/FFC, Florianópolis: 1993.

– Transporte Coletivo em Florianópolis Origens e Destinos de uma Cidade à Beira-mar. Florianópolis: Insular, 2004.

Miramar década de 1940. Foto de autor desconhecido

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Um comentário sobre “Miramar, Ponto de Encontro da Cidade

  1. marcio rodrigues

    Em 1962 remei em uma guarnição “quatro com” no Clube de Regatas Aldo Luz. Em nossas saídas e chegadas sempre esteve presente o “Miramar” e nas ensolaradas manhãs de calmaria, a Baía Sul como um espelho, ele parecia um palácio flutuante refletido nas águas. Lindo, de não esquecer nunca mais.

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