Cidade: Cenário e Arquivo da História

 

Ponte Hercílio Luz Foto: Coleção Rogério Santana. Década de 1960.

Os traços de uma cultura não se definem por momentos ou por manifestações esporádicas. Sua fisionomia vai se fazendo aos poucos, deixando marcas no tempo e nos espaços que passam a constituir-se em memória e tradição. O selo de autenticidade dessas manifestações é a vida que elas contêm e a força de permanecerem pelo tempo, marcando e vitalizando o presente. Assim, tradição e memória não serão simples lembranças de um passado que se perdeu, ou que vai sempre distante, mas são, numa certa medida, o modo de entendermos e vivermos nosso tempo”. (Abrelino Vicente Vazatta)

Cenário onde se teatralizam as ações humanas e, ao mesmo tempo, “arquivo de recordações”, a cidade é, antes de tudo, uma realidade histórica, por isso inscreve e traz em si, traços e evidências de sua evolução e as projeta em direção ao futuro. Esse projetar se faz pela memória.

“ ‘Alí era o quarto de mamãe e alí era o meu. Do outro lado morava o meu irmão’. Em pé, no meio das pistas do eixo viário, o morador vai reconstituindo um espaço que é real em sua cabeça” (Santos & Vogel).

Nossas lembranças estão armazenadas no conjunto de objetos que nos rodeiam. Para além dos seus aspectos utilitários, ao longo do tempo, os objetos vão se tornando repositório de nossa vida cotidiana, configurando a conservação de épocas, fatos, pessoas e de emoções que, já decorridos, invadem o momento presente. Pela sua presença, os objetos biográficos atualizam o passado e influenciam tanto nossa percepção do mundo quanto a sua narrativa. Ecléa Bosi fala dessa presença e o faz poeticamente:

 “Mais que um sentimento estético ou de utilidade, os objetos nos dão um assentimento à nossa posição no mundo, à nossa identidade; e os que estiveram sempre conosco falam à nossa alma em sua língua natal. (…) Quanto mais voltados ao uso cotidiano mais expressivos são os objetos: os metais se arredondam, se ovalam, os cabos de madeira brilham pelo contato com as mãos, tudo perde as arestas e se abranda. (…) O que poderá igualar à companhia das coisas que envelhecem conosco? Elas nos dão a pacífica impressão de continuidade”.

Ancorada nos objetos biográficos, a Memória permite lidar com as temporalidades da existência e, à dolorosa consciência da nossa finitude, contrapõe a promessa de continuidade através dos relatos de família, das peculiaridades de um lugar, de uma Cultura.

 

Leituras de referência para este texto:

Bosi, Ecléa. O Tempo Vivo da Memória. Ensaios de Psicologia Social. São Paulo. Ateliê Editorial, 2003.

Memória e Sociedade. Lembranças de Velhos. 3ª ed. São Paulo. Companhia das Letras, 1994.

Santos, Carlos Nelson & Vogel, Arno. Quando a Rua Vira Casa: a apropriação de espaço de uso coletivo em um centro de bairro. 3ª ed. São Paulo. Projeto, 1985.

Vazatta, Abrelino Vicente. in: Prefácio.Santos, Carlos Nelson & Vogel, Arno. Quando a Rua Vira Casa: a apropriação de espaço de uso coletivo em um centro de bairro. 3ª ed. São Paulo. Projeto, 1985.

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