Poesia nas Redes Sociais

 Daí que ela se rendeu e entrou no Twitter. De cara começou com seis seguidores: as duas irmãs, uma prima e três amigas do peito. Em uma semana conquistou dez seguidores, mas encalacrou na marca até que descobriu a #meseguequeeutesigodevolta. Foi quando aconteceu o milagre: quinze, vinte, trinta, sessenta, cento e vinte, trezentos, quinhentos seguidores. Finalmente, ela se tornara popular!

 Aquilo fez um bem enorme para ela, pode-se dizer que foi até terapêutico porque se a gente tem autoestima baixa, o que ela tinha era uma baixoestima altíssima. O caso era grave! Animada com a repentina popularidade ela não fazia nada sem anunciar na rede e, quando por ventura, precisava sair de casa para resolver alguma coisa, ao chegar, corria esbaforida para o computador com a sensação de que havia perdido algo deveras importante e irrecuperável.

 Um certo dia, caiu na besteira de tecer um comentário depreciativo sobre um certo ídolozinho popular e deu início ao seu calvário: o número de seguidores passou a cair dia a dia, sem parar, aos borbotões! Sentindo o golpe, ela ainda tentou se justificar, mas a “emenda saiu pior do que o soneto”. Tentou se fazer de engraçada, não adiantou. Puxou o saco dos mais influentes, os tais “formadores de opinião”. Nada. Aí partiu pra ignorância e resolveu tirar satisfação. Mandou DM para os ex-seguidores querendo saber o que houve. Silêncio sepulcral. Então desandou a bater boca sozinha, lançando impropérios a esmo, tipo “duela a quien duela”. Nossasenhoradaparecida!

 Sobraram o “tosador de poodles”, a “candidata à síndica”, o “corretor de imóveis”, meia dúzia de nulidades públicas tipo “sigo todo mundo pra ver se alguém me segue”, além das duas irmãs, da prima e de duas amigas do peito, pois a terceira rompeu relações em definitivo. Foi quando percebeu que estava irremediavelmente só. A solução seria ignorá-los e retornar para a terapia. Antes de sair, decidiu “dar um tapa com luva de pelica”, como se diz. Em seus derradeiros 140 caracteres, ela resolveu reproduzir uma poesia muito linda que tinha lido ali mesmo, no Twitter:

 “Esses que atravancam meu caminho…” (como é que continuava a p#%*@ daquela “poesia”? Quem é que escreveu esse negócio, o Dalai Lama, a Cecília Meireles ou o Luiz Fernando Veríssimo? Ela pensava de si para si). O jeito foi improvisar:

 “Esses que atravancam meu caminho”

Ó! Ceis vão tudo catá coquinho!

Fui!

P.S: se tivesse dado “um Google” ela teria descoberto, a tansa!

 

Poeminha do Contra

 

“Todos esses que atravancam meu caminho,

Eles passarão.

Eu passarinho!”

 

(Mário Quintana, quem mais havéra de ser?)

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About Norma Bruno

Vivo na Ilha de Santa Catarina desde que nasci. Sou de aquário, portanto já nasci aluada, mas contraditoriamente, não me dou bem com tecnologia e gosto mesmo é de coisa velha. Fiz muitas coisas, deixei para trás outras tantas, tenho muito por fazer. Coleciono cenas urbanas, rendas de bilro e revistas antigas. Escritora amadora em todos os sentidos, invento coisas, conto histórias. Livros publicados: - Prosa, quase Poesia - ou vice-verso - Tempo Editorial. 2015 - Cenas Urbanas e Outras Nem Tanto. Bernúncia Editora. 2012 - A Minha Aldeia Editora Papa-Livros. 2004. - Leia Crônicas da Desterro no site www.carosouvintes.org.br

3 thoughts on “Poesia nas Redes Sociais

  1. Minina, tu és ótima, tu és fenomenal! Como a Fátima falou, queria que essa crônica fosse minha. E além de escrever uma crônica melhor que a outra, ainda termina com Quintana. Aí é de matar. Parabéns. Sou teu fã.
    Beijo do Amorim, com carinho e com poesia.

  2. Norma querida estou dando gargalhadas feito uma doida! Guria essa tua verve humorística é tudibom!
    AAAAAAMMMMMEEEIIIIII! Esta crônica tá assim tipo …”eu queria que fosse escrita por mim”! Morri de inveja!
    Aahahahahahah! Parabéns pelo seu texto que fez do meu sábado um dia especial. Bj da Fatima/Laguna/SC

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