Cartilha Caminho Suave

Foto: Cartaz original da Cartilha Caminho Suave Lição da Zabumba-za

“Vejo um passarinho.

O passarinho bicou o pêssego.

O pêssego ficou furado.

Cássio jogou o pêssego no lixo”.

 (Lição do Passarinho, Cartilha Caminho Suave, pág. 12)

Aos sete anos descobri que o mundo era feito de palavras, ou melhor, que era feito de letras e que, quando uma letra “chegava perto” de outra letra, elas, juntas, formavam uma coisa chamada sílaba. E quando, por sua vez, as sílabas “chegavam perto” umas das outras, como por encanto, se descortinava um mundo novo: o Mundo das Palavras.  Até hoje, para mim, esse mundo maravilhoso tem um único nome: Cartilha Caminho Suave da educadora brasileira Branca Alves de Lima.

A capa, colorida, mostrava um casal de crianças caminhando, pastas de couro nas mãos, por um lindo caminho florido e arborizado que conduzia a um prédio branco e imponente: a Escola. O menino ia de calção preto e camisa impecavelmente branca; a menina de vestidinho branco, com um gracioso laçarote às costas e tranças nos cabelos, certamente arrumados por uma mãe zelosa.

As lições eram copiadas no “caderno de classe” e recitadas repetidas vezes em voz alta para que fossem “decoradas”, isto é, “guardadas no coração” segundo Rubem Alves. Mais tarde as letras seriam caprichosamente desenhadas no caderno de caligrafia, meu “dever de casa” favorito. Irmã Verônica, a diretora do Colégio Nossa Senhora de Fátima, em seu indefectível hábito preto – cabeça baixa, as mãos cruzadas atrás das costas, andar compassado pelo corredor -, fiscalizava a cantoria. E nós lá:

Abelha – a! Elefante – e! Igreja – i! Ovo – o! Unha – u!

Quando, enfim, conseguimos dominar as vogais, era hora de passar às lições mais complexas:

Barriga – ba – be – bi – bo – bu!

Macaco – ma – me – mi – mo – mu!

Xadrez – xa – xe – xi – xo – xu!

Eu sentia vontade de rir ao dizer “xaxexixoxu”; mas engolia o riso, aqueles eram tempos de rígida disciplina, e morria de vergonha de soletrar as sílabas da palavra cachorro cacoc… Então parava no có!

Palavras estrategicamente sobrepostas aos desenhos associavam imagem e escrita. Nas paredes da sala, cartazes reproduziam as imagens e a primeira sílaba de cada lição, o que tornava o método inovador e original, mas, sobretudo, eficaz. Eu gostava da maioria das figuras – a Igreja, a Casa com sua simpática varandinha, o Navio, que tinha a letra do meu nome, a Jarra cheia de suco. Tinha nojo do Sapo e medo do Rato. Achava bonito o desenho da Cebola e também o do tabuleiro de Xadrez, mas, para mim, a mais legal de todas era, sem dúvida, a letra “Zê”. de Zabumba.

Talvez porque aquela fosse a única palavra desconhecida, já que, para mim,  o nome daquela coisa era tambor; talvez fosse o som: zêdezabumba! A verdade é que, desde então, sempre que preciso soletrar uma palavra com a letra “Z” eu falo: zêdezabumba, tudo junto, como a D. Maria Zélia ensinou. Os mais jovens me olham como se eu fosse um espécime do Período Mesozóico, mas os do “meu tempo” abrem um sorrisinho de cumplicidade e fazem cara de “Essa é das minhas!”.

Como a maioria das “professoras primárias” da década de 1960, D. Maria Zélia era normalista, isto é, possuía uma formação de nível médio, específico para a iniciação da criança na educação formal. Ela era muito jovem, creio que devia ter dezenove, vinte anos, era uma moça bonita, usava o cabelo bem curtinho, sempre de brinco de pérola, sempre atenciosa, sempre sorrindo. Para minha alegria, era noiva do seo Aldo Rodrigues, um dos maiores amigos do meu pai, uma amizade profunda que começou na infância, eles eram vizinhos, e se estendeu até a velhice. Por conta disso, tive a oportunidade de conviver com ela durante a minha vida inteira, ainda que só a encontrasse esporadicamente.

Em 2004 tive o prazer de convidá-la, ela já viúva, para o lançamento do meu primeiro livro, que ocorreria na 19ª Feira do Livro de Florianópolis que, à época, acontecia no Shopping Beira Mar. Para que não chegasse sozinha, meus pais lhe ofereceram carona. Acontece que os lugares foram sendo ocupados nos carros e, ao fim, quem estava indo sozinha era eu, então a convidei para ir comigo, no meu carro. E lá fomos nós, só as duas.

Para encurtar a conversa: pegamos um engarrafamento enorme e acabamos chegando atrasadas. Que constrangimento! Quando entramos no espaço da Feira percebi a relevância daquele momento. Instintivamente segurei sua mão. No estande da Editora Papa-Livro ninguém entendeu porque chegamos as duas rindo e chorando ao mesmo tempo.

Não foi preciso dizer nada. Aos sete anos, D. Maria Zélia me guiou pela mão tornando suave o caminho das primeiras letras. Natural que me levasse pela mão também naquele momento tão significativo. Na dedicatória registrada em seu exemplar, escrevi assim:

 D. Maria Zélia, a culpa é sua!

 Por falar nisso, olha só! Zélia, como é que se escreve? Se escreve com de Zabumba!

 *O cartaz da foto é original. Foi adquirido na internet e está emoldurado na parede do meu escritório. Para minha alegria, ontem, Dia do Professor, arrematei também, depois de muita espera, um exemplar da Cartilha Caminho Suave, edição de 1962 igualzinha àquela da “minha época!”

Anúncios

15 comentários sobre “Cartilha Caminho Suave

  1. Jaquelini

    Ola boa tarde,
    Trabalho com educação especial e hoje sinto necessidade de alfabetizar uma criança com o método da cartilha pois ela apresenta um comprometimento auditivo e acredito q o canal de comunicação mais indicado para a alfabetização seria a imagem onde a cartilha se encaixaria muito bem, você tem todos os cartazes para me enviar por email ?
    Desde ja Agradeço
    Jaquelini

    1. Oi, Jaquelini! Desculpa a demora em te responder. Que belo trabalho o teu. Infelizmente não tenho os outros cartazes, apenas o do “ZÊ”. Tenho também a Cartilha, mas ambos estão emoldurados. Sugiro tentar na internet. Creio que conseguirás encontrá-los para impressão. Desejo muito sucesso na missão. Se não conseguires, me avisa. Encontraremos uma solução. Obrigada pela visita.

  2. Norma. Em noite nostálgica, encontrei o seu texto. Ri e chorei; que rico ele é. Comovente também. Feliz de saber que você é de Desterro. Sou da pauliceia mas tenho origens no sul e a bruxólica Ilha de Santa Catarina de Alexandria tão belamente cantada por Cascaes foi palco de meu segundo romance Diário da Sibila Rubra. Bom saber que alguns escritores não se esquecem do caminho. Parabéns!

    1. Kizzy Ysatis! Que grata surpresa! Sinto-me honrada com a tua visita ao blog. Mais ainda em partilhar o amor à Ilha de santa Catarina contigo. Onde encontro teu livro?

      1. A honra foi minha fico grato pelo texto encantador. Meus livros você encontra nas melhores livrarias. Mas te indico a saraiva virtual, o Diário da Sibila Rubra tá baratinho lá. bjs

  3. gilberto goulart

    Minha querida amiga Norma,
    Lindo lindo o que escreveste sobre o “caminho suave”. Eu também fui alfabetizado usando aquela cartilha no inesquecível Colégio Santa Catarina da Rua Vitor Konder.Ainda me lembro da Irmã Adelaide com seu hábito de freira franciscana( que vontade eu tinha de puxar aquele véu pra ver se realmente ela era careca como comentávamos em coxixos). Tempos lindos e cheios de ternura e inocência foram aqueles!!! Parabéns e obrigado por me fazer lembrar de tão doces momentos.
    Abraços
    Gilberto

    1. Caríssimo amigo!
      Dizer que a Ir. Adelaide era careca era pura maldade de aluno. Nos colégios que frequentei dizíamos a mesma coisa das freiras. Tipo vingança, sabe como é? Agora… A Cartilha CAminho Suave é um ícone, não é? Quando chegar o exemplar que arrematei, a gente marca um café e refaz a lição. Combinado?
      abraço forte

      1. gilberto goulart

        Nem precisa esperar pela chegada do exemplar em tela. Basta que me digas o local, dia e a hora . Lá estarei

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s