A Cidade como Espaço de Oposição entre o Velho e o Novo

A Desvalorização da Memória  

Houve um tempo em que os objetos eram substituídos exclusivamente por motivo de perda, quebra ou exaustão do material. A Revolução Industrial, no entanto, inventou uma nova “maneira de fazer as coisas”.

Esse novo modus operandi promove a obsolência intencional dos produtos obedecendo a lógica de mercado cuja ordem é propiciar, continuadamente, a realização de novos negócios. Daí que acabamos nos acostumando à “durabilidade” relativa dos produtos e à “necessidade” de sua substituição por um exemplar novo e mais moderno ainda que o anterior esteja em perfeito estado e em pleno funcionamento. Vivemos num mundo de coisas transitórias.

Considere-se ainda o efeito das novas tecnologias da informação que permitem trocas e traslados em tempo mínimo e a influência da publicidade que uniformiza os idiomas, os produtos e as paisagens direcionando nossas preferências e aversões. Como resultado dessa massificação que despersonaliza as pessoas e os lugares, tudo o que é antigo passa a ser visto como desatualizado, atrasado, inadequado e inapropriado, portanto passível de substituição. Termina que, hoje, todos os lugares se parecem.

A noção de globalização traz implícita a desvalorização da Memória. Há, entre ambas, pode-se dizer, uma certa incompatibilidade conceitual que coloca em contradição o velho e o novo, o antigo e o moderno, o local e o global. Some-se a isso o fato de que, em geral, construções e prédios antigos estão localizados nos núcleos de fundação das cidades e suas cercanias, espaços mega valorizados no mercado imobiliário e, portanto, cobiçados pela indústria da construção civil.

A ideologia da renovação e da mudança se traduz, na área da Cultura, em desvalorização do já existente, do que é antigo e do que é local, legitimando a substituição dos equipamentos no espaço urbano. Uma mentalidade particularmente danosa aos edifícios históricos; um campo fértil para o discurso desenvolvimentista.

“Jamais se deve confundir uma cidade com o discurso que a descreve. Contudo, existe uma ligação entre eles”. 

Calvino

Centro de Florianópolis Foto: Carlos Amorim

Leitura de referência para este artigo:

Adams, Betina – Preservação Urbana: gestão e resgate de uma história. Florianópolis. Editora da UFSC, 2002.

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About Norma Bruno

Vivo na Ilha de Santa Catarina desde que nasci. Sou de aquário, portanto já nasci aluada, mas contraditoriamente, não me dou bem com tecnologia e gosto mesmo é de coisa velha. Fiz muitas coisas, deixei para trás outras tantas, tenho muito por fazer. Coleciono cenas urbanas, rendas de bilro e revistas antigas. Escritora amadora em todos os sentidos, invento coisas, conto histórias. Livros publicados: - Prosa, quase Poesia - ou vice-verso - Tempo Editorial. 2015 - Cenas Urbanas e Outras Nem Tanto. Bernúncia Editora. 2012 - A Minha Aldeia Editora Papa-Livros. 2004. - Leia Crônicas da Desterro no site www.carosouvintes.org.br

2 thoughts on “A Cidade como Espaço de Oposição entre o Velho e o Novo

  1. Quando se usam copos de várias formas e padrões, não é um desastre quebrar um deles e substituí-lo por um novo qualquer Mas, se se trata de um conjunto de cristal, a quebra de uma taça não admite substituição. Desarmoniza e fere. Em Laguna, cidade sem grandes destaques arquitetônicos, o que pesa é o conjunto. Está muito difícil convencer a população que a “cidade antiga” precisa ser preservada e pode conviver com a moderna que se estende além do centro histórico. Sob a alcunha de “velharia” um tesouro brasileiro se esvai sob a mania do vidro temperado.

    • Caro escritor Márcio Rodrigues!

      Como diz a sabedoria popular “Só se ama o que se conhece e só se preserva o que se ama!”. A ironia é que a nossa querida Laguna já foi exemplo de preservação do seu patrimônio. Mas, não nos deixemos abater.
      Continuemos companheiro! Que a luta é justa e a causa é nobre!

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