O Impacto do Discurso Desenvolvimentista sobre a Memória

“Os objetos, vivos no presente, como integrantes fundamentais das cidades e sua produção, num momento posterior se tornam obsoletos e descartáveis para novas temporalidades entrando em conflito com os diferentes seguimentos sociais”.

Betina Adams

Basta uma rápida folheada nos jornais da década de 1970 para perceber que o discurso desenvolvimentista teve papel fundamental na pacificação dos cidadãos durante o processo de demolição do Miramar, em Florianópolis. E essa aceitação, manifestada pelo silêncio da maioria, foi patrocinada pela compreensão de que a cidade precisava ser atualizada, isto é, corrigida, “para não perder o bonde da História” e, mais do que tudo, para acompanhar o “progresso”, à época representado por um projeto rodoviário de desenvolvimento. 

Por isso, é importante uma reflexão sobre os discursos dos diversos atores estampados nos jornais. Sabemos que, quer sob a forma de reportagem, espaço editorial ou de opinião, no jornal o discurso vira “notícia” e, para alguns, adquire status de verdade. Parodiando o slogan da revista que circulou em décadas passadas – “Aconteceu, virou Manchete”, podemos dizer que, aos olhos, ou melhor, aos ouvidos desatentos –Virou manchete, aconteceu!

A verdade é que o discurso desenvolvimentista encontrou receptividade à proposta de desalojar o Miramar, convencidos que estávamos da sua inutilidade, da sua decadência (de certa forma patrocinada) e da imperiosa necessidade de sua remoção de uma paisagem urbana assolada por gravíssimos problemas viários e pela estagnação econômica; visão estreita, típica “(…) de um tempo marcado pela escolha de soluções rodoviárias”, arremata Paulo César Santos.

Ele, que estudou o impacto do aterramento da Baía Sul sobre a Memória de Florianópolis, destaca que o discurso que desqualificava a edificação reverberava e se estendia para o mar, como se a presença das águas, ocupando um espaço exagerado, fosse ilegítima, como se aos técnicos, do alto de sua autoridade, coubesse a correção aos exageros da Natureza.

“Assim, demolir o Miramar (…) seria uma intervenção no sentido de negar o privilégio excessivo que o mar dispunha na vida de Florianópolis. O equivalente a dizer: ‘Esta área é imprópria para ao mar’ ”(Santos).

Trapiche Miramar já cercado pelo aterro da Baía Sul. Foto: Acervo de Gilberto Silveira. Fonte: internet

Leituras de referência para este artigo:

Adams, Betina. Preservação urbana: gestão e resgate de uma história. Florianópolis. Editora da UFSC, 2002.

Calvino, Ítalo. As Cidades Invisíveis. São Paulo. Companhia das Letras, 1990.

Citelli, Adilson. Linguagem e Persuasão. 9ª ed. São Paulo. Ática, 1995.

Maturana, Humberto. Emoções e Linguagem na Educação e na Política. Belo Horizonte. Editora da UFMG, 1998.

Nonnemmacher, Marilange. Um lugar na memória: Rua Conselheiro Mafra. Dissertação. UFSC, 2002.

Orlandi, Eni Pulcinelli. A Linguagem e seu Funcionamento: as formas do discurso. 2ª ed. Campinas. SP. Pontes, 1987.

Santos, Paulo César. Espaço e Memória: o aterro da Baía Sul e os desencontro marítimo de Florianópolis. Dissertação. UFSC, 1997.

 

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About Norma Bruno

Vivo na Ilha de Santa Catarina desde que nasci. Sou de aquário, portanto já nasci aluada, mas contraditoriamente, não me dou bem com tecnologia e gosto mesmo é de coisa velha. Fiz muitas coisas, deixei para trás outras tantas, tenho muito por fazer. Coleciono cenas urbanas, rendas de bilro e revistas antigas. Escritora amadora em todos os sentidos, invento coisas, conto histórias. Livros publicados: - Prosa, quase Poesia - ou vice-verso - Tempo Editorial. 2015 - Cenas Urbanas e Outras Nem Tanto. Bernúncia Editora. 2012 - A Minha Aldeia Editora Papa-Livros. 2004. - Leia Crônicas da Desterro no site www.carosouvintes.org.br

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