Vozes Dissonantes: o Discurso dos Cidadãos

 Creio que o velho Trapiche foi demolido também porque sua presença remetia à lembrança incômoda de um passado de estagnação econômica que a cidade se esforçava por ultrapassar e esquecer. O Miramar remetia à Florianópolis marítima, provinciana e estagnada. Já o aterro remetia à Florianópolis moderna, desenvolvida e próspera que se desejava ver nascer. Remover o Miramar significava renegar esse passado.

O colunista Beto Stodieck, demonstrando um espírito cosmopolita e visionário, fez da sua coluna no jornal O Estado uma tribuna em defesa do Miramar, como de resto de todo patrimônio arquitetônico da Cidade. Na edição de 18/09/1974 (pág. 16), por exemplo, ele acusava o descaso com o Trapiche Miramar como também com o da Praia de Fora que se localizava na altura da Praça Lauro Müller, nas imediações do atual Shopping Beira Mar. No dia seguinte, a coluna reiterava o protesto:

“Enquanto Florianópolis perde o seu encantador Miramar e o cheiroso ‘mictório público’ (…) destruindo assim duas de suas marcas registradas, Laguna dá um exemplo de consciência histórica, tombando 90% do seu centro”.(Jornal O Estado, Coluna Beto Stodieck, ed. 19/09/1974, pág. 12).

Em 20/09/1974 (pág. 12), Beto desafiaria o Prefeito Newton Severo da Costa a tombar o Miramar e o Mictório Público e a recuperar todo o casario da Rua Conselheiro Mafra e pintá-lo de cores fortes. E, no dia 05 de outubro de 1974, voltaria a insistir:

“O Miramar continua de pé. Ainda é tempo de salvá-lo. Quantas coisas poderiam ser feitas: uma central de informações turísticas; um museu; um simples monumento ao mar que ali existiu. Todos ganhariam com isso. Todos”.

Mas na edição de 18/09/1974 o mesmo  jornal estampava um editorial melancólico e derrotado desde o título: “Trapiche: em breve uma saudade

“Agora com a construção da nova ponte e seus acessos, o trapiche da Baía Sul deve ser demolido. A data ainda é incerta, mas parece ser para breve. Aos poucos, as antigas lembranças da antiga Desterro vão sendo destruídas. Quanto ao trapiche, o abandono veio com uma ponte e a demolição com outra. Em pouco tempo, Florianópolis será uma cidade moderna, com grandes edifícios, ruas largas, sistemas viários, e só”.

Enquanto isso, e ainda que se revelasse um esforço infrutífero, nas ondas do rádio outra voz se erguia em defesa da preservação do velho Trapiche. A voz inconfundível do jornalista Adolfo Ziguelli, a quem coube anunciar o “tombamento” do Miramar num contundente discurso:

Ontem à tarde morreu o Miramar, ainda bem que lhe pouparam a agonia das mortes dolorosas e lhe desfecharam um golpe só, rápido e certeiro. O progresso matou o Miramar. Foi em nome dessa palavra mística incorporada ao pensamento médio vigente que o Miramar tombou, sem um gemido e sem protesto, destroçado pela máquina. Sobre as areias conspurcadas do aterro espalharam-se os restos do seu corpo esquartejado sem que ao menos as antigas águas amigas lhe lambessem as feridas sangrentas. (…) nenhuma lápide, nenhuma inscrição, ontem morreu o último símbolo da Ilha”.

(Transcrição da locução do jornalista Adolfo Ziguelli. In: ‘Informe Confidencial’ Programa Vanguarda: 25/10/1974. Fonte Arquivo Zininho – Casa da Memória – FFC apud Adolfo Nicolich da Silva, 1999, pág. 27).

Diante do fato consumado, ficou o enorme vazio. Três dias depois, Beto Stodieck lamentava:

“Florianópolis esta semana sofreu um abalo irreparável. Todos nós sofremos. Foi quando um enorme trator investiu contra o Miramar, o velho Trapiche (…) onde nossos avós tomavam a lancha Zuri para ir ao Streitcho. Nesse momento ficou perfeitamente claro o nível intelectual daqueles que teriam a obrigação de zelar pela nossa cidade. O Miramar foi parte inseparável da Ilha durante muitas décadas. E seu sacrifício foi a coisa mais inglória e inútil que já fizeram contra Florianópolis (…). Quando é que as pessoas vão começar a entender que o ‘progresso’ não é nada disso que estão pensando? Auto-pistas e arranha-céus? Hoje todo mundo está sentindo falta. É só passar por ali e sentir um vazio terrível. Um vazio que aumentará se a sanha demolidora de alguns conseguir seu intento de destruir o Mictório Público pela vaga razão de que não foi tombado como monumento histórico por nenhuma burocrática e sonolenta repartição pública”.

(Jornal O Estado, edição de 27/10/1974, pág. 19)

Não lembro onde eu estava e nem o que estava fazendo na tarde do dia 24 de outubro de 1974. O que sei é que eu tinha vinte anos e que estava muito ocupada com as descobertas da vida. Mas, há muito tempo me sinto culpada por não ter reagido, nem protestado diante da ameaça de destruição, afinal, eu gostava muito do Miramar. E, ainda que a intenção tenha sido boa, não posso ver aquele monumento (a lápide) que puseram em seu lugar.

Tenho, em minha casa, um pé de mesa do velho Miramar – tripé de ferro fundido e estrutura em madeira de lei, maciça, apenas o tampo de mármore não é original – adquirida de uma amiga cujo pai foi o último arrendatário do bar e olho para ela como a uma relíquia. Também tenho “seu retrato na parede” e, como no coração do Poeta, em mim também dói.

Por isso falo do Miramar; para me redimir, para não deixar que ele caia no esquecimento, para não me deixar persuadir pelos discursos como os que, hoje, desqualificam a Ponte Hercílio Luz e sugerem a sua demolição e a construção de uma réplica útil em seu lugar (que Deus me conceda uma boa morte antes que isso aconteça!).

A lembrança daquele prédio elegante banhado pelas águas da Baía Sul – se fechar os olhos ainda posso sentir o cheiro bom da maresia e o Vento Sul desmanchando meus cabelos – me permite reconstruir as bases da minha identificação com a minha cidade. Minha velha árvore, minha aldeia.

Vista interna do pavilhão do Trapiche Miramar em 1973 com o mar já aterrado. Foto: Acervo de Gilberto Silveira. fonte: internet

 Leituras de Referência para este artigo:

Silva, Adolfo Nicolichi. Ruas de Florianópolis. Resenha Histórica. Florianópolis. Fundação Franklin Cascaes, 1999.

Jornal O Estado edições referidas. Florianópolis. SC

 

 

 

 

 

 

 

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About Norma Bruno

Vivo na Ilha de Santa Catarina desde que nasci. Sou de aquário, portanto já nasci aluada, mas contraditoriamente, não me dou bem com tecnologia e gosto mesmo é de coisa velha. Fiz muitas coisas, deixei para trás outras tantas, tenho muito por fazer. Coleciono cenas urbanas, rendas de bilro e revistas antigas. Escritora amadora em todos os sentidos, invento coisas, conto histórias. Livros publicados: - Prosa, quase Poesia - ou vice-verso - Tempo Editorial. 2015 - Cenas Urbanas e Outras Nem Tanto. Bernúncia Editora. 2012 - A Minha Aldeia Editora Papa-Livros. 2004. - Leia Crônicas da Desterro no site www.carosouvintes.org.br

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