Finadinho, um “Halloween” peculiar

Pois então que me deparei com o Peninha, aquele estimado, dia desses, no ônibus Amarelinho. Sentei ao seu lado, sorriso de orelha a orelha, e já puxei meu Moleskine para as devidas anotações. Sou tansa?

Prosear com Gelci Coelho é entrar em contato com o que há de mais genuíno na cultura popular. Não dá dois minutos e começam a brotar as histórias. Não sei ao certo como chegamos ao assunto, o homem “fala mais que o homem da cobra!” – mas, relembrando, falamos do Miramar (ele conta uma história cabeluda sobre o Trapiche!); falamos do Mestre Franklin, como não podia deixar de ser, sobre a casa onde ele vive na Enseada do Brito (vivo me convidando para fazer-lhe uma visita de “colo feito”, sempre adiada) e, não sei como, chegamos ao Halloween, a festa importada, que acontece por esses dias.

Diz o Peninha que, antigamente, também tínhamos uma festa nos dias anteriores ao dia dos mortos, cuja temática e propósito remetem às origens do Halloween: a aproximação do mundo dos vivos e dos mortos; nada a ver com bruxas lá e cá. Era o chamado Finadinho. Se bem entendi, a coisa acontecia assim:

Nos dias que antecedem ao dia dois de novembro, Dia das Almas, as crianças ilhoas saiam batendo de porta em porta a pedir doces, bolos e ovos cozidos preparados com antecedência pelas famílias. A visitação era feita em memória dos desencarnados da família visitada, principalmente em honra das crianças, os anjos, que, naquela época eram muito numerosos pelas razões que todos nós conhecemos.

Esse costume, como tantos outros, caiu em desuso após a condenação do Concílio Vaticano IIº que expropriou as práticas que adaptam as liturgias católicas em releituras muitas vezes mais próximas dos rituais pagãos ou as misturam às práticas de outras religiões, coisa tão própria do povo brasileiro. A razão do abandono, segundo Peninha, seria o medo que o povo tinha, ou tem, de “praga de padre”. Diz que é mortal!

Enquanto conversávamos, o Amarelinho seguia seu itinerário e, quando me dei conta, tinha chegado ao meu destino. Mas o assunto não estava encerrado e ele fez a gentileza de saltar no meu ponto, continuando a aula agora numa versão “peripatética”. Chave de ouro!

Mas, para isso existem relógios e o da Catedral Metropolitana com uma encantadora badalada advertiu que, mais um pouco, e eu perdia o compromisso. Posagora! Combinamos então, mais uma vez, um encontro na Enseada para uma “Aula Magna”, sem hora pra acabar. Eu levo a rosca e o pão, ele faz o café e as honras da casa. Já separei o bloquinho.

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