Coberta d’ Alma

Jardim da Paz

Houve um tempo, na Ilha, em que o luto não ficava restrito à família, como nos dias de hoje; ao contrário, o luto envolvia a comunidade toda, especialmente as famílias das casas mais próximas do morto.

O costume determinava que, nas três casas da direita e nas três casas da esquerda à morada do morto e inclusive nela, ninguém podia se servir da água dos potes de barro fosse para beber, cozinhar ou fazer a higiene, porque o morto precisaria de “Sete Águas” para se banhar antes de empreender a derradeira jornada.

Preparado o corpo, colocava-se-lhe uma moeda dentro da boca, sobre os olhos ou entre as mãos cruzadas para que fosse entregue ao Barqueiro como paga pela travessia para a “Outra Margem do Rio”. Passava-se, então, às “Incelênças”, o cântico fúnebre repetido treze vezes a fim de convencer o morto a fazer a travessia.

 “Incelênça que quer pra ele, Mãe de Deus, Ó Mãe de Deus! (1)

Rogai por ele Mãe de Deus”

 

 “Incelênça que quer pra ele Mãe de Deus, Ó Mãe de Deus! (2)

“Incelênça que quer pra ele Mãe de Deus, Ó Mãe de Deus!             

Rogai por ele Mãe de Deus”

 

“Incelênça que quer pra ele Mãe de Deus, Ó Mãe de Deus! (3)

“Incelênça que quer pra ele Mãe de Deus, Ó Mãe de Deus!   

“Incelênça que quer pra ele Mãe de Deus, Ó Mãe de Deus!

           Rogai por ele Mãe de Deus”

 (e assim sucessivamente até completar as 13 repetições)

 Para o sepultamento propriamente dito, enfeitava-se o carro de boi que conduziria o ataúde até o campo santo acompanhado a pé pelos vizinhos e a comunidade, mas não pela família. Esta cumpria o luto em total reclusão por sete dias: janelas cerradas cobertas pelo caritó, o simbólico pano preto que adornava também, como faixa, a manga esquerda ou o debrum do bolso da camisa nos homens e o corpo inteiro nas mulheres, na obrigação de guardar luto fechado por um ano, no mínimo.

Decorriam, então, sete dias sem varrer a casa, sem ir à pesca, sem ir à roça, sem dar trato aos animais, sem amassar o pão e nem tomar banho. Nesse período a família enlutada era cuidada e alimentada pelos vizinhos próximos que também proviam a sua substituição nas tarefas diárias. 

 Cumpridos os “Sete Dias de Nojo”, uma expressão que se usa até hoje, a família finalmente  saía para a reza ou para a missa, conforme se dispusesse ou não da presença de um padre. Na maioria das vilas isso era um luxo. Por isso se apelava a Nossa Senhora para chegar ao coração de Deus. Na cerimônia de exaltação ao morto, era apresentada a pessoa que vestia a Coberta D’Alma do falecido, o que consistia em vestir uma roupa do morto para dar-lhe materialidade e representá-lo durante as homenagens.

Para vestir sua Coberta D’Alma a pessoa elegia alguém já em vida, em geral o amigo mais chegado. Ser escolhido era sinal de grande apreço e considerado uma grande honraria. Após a cerimônia todos compartilhavam de uma refeição onde as homenagens tinham continuidade.

Ao final, aquele que recebera a distinção ganhava a roupa que usava, – muitas vezes a única herança deixada pelo morto -, o que era bem vindo num tempo em que as roupas custavam caro, mormente para os desvalidos da sorte. Nem sempre o “fato” caía bem, às vezes ficava apertado, às vezes ficava folgado, pois o falecido era mais alto, mais baixo, ou mais gordo. Vem daí o chiste: “O defunto era maior!”.

A encarnação se repetiria a cada ano no aniversário de nascimento do falecido. Nesse dia, o herdeiro da roupa incorporava o finado novamente, propiciando o estreitamento entre o mundo dos vivos e o mundo dos desencarnados. Assim rezava a tradição.

Quem tu escolherias para vestir tua Coberta d’ Alma?

 

 * inspirado nos relatos de Gelci Coelho, o Peninha.

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Um comentário sobre “Coberta d’ Alma

  1. Fatima Barreto Michels

    Cara escritora Norma: é muito bom ter alguém que nos traga em texto essas tradições. Você é poeta, pesquisadora e principalmente uma guardiã dos conhecimentos que não podemos perder de vista. Gosto imensamente de ler matérias assim que fazem esta ponte com nossas avós e as gentes que nos precederam. O que sinto é que você faz isto com muito carinho e zelo. Hoje sendo o dia consagrado aos mortos adorei vir até aqui para sentir bem pertinho o amor dessa gente que fez a travessia, que aqui deixou saudades. Linda a sua homenagem, lindo texto. Parabéns a você e ao Gelcy, seu querido amigo historiador! Bj da Fatima Barreto Michels / Laguna/SC

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