Lá Vai Meu Pão-por-Deus

A gente manda o coração e recebe o pão. Deu pra entender?”.

Dizem os que manjam do assunto que o costume veio do Arquipélago dos Açores e da Ilha da Madeira lugares onde se desenvolveu a tradição de recortar papel até deixá-lo filigranado como uma fina renda para depois escrever, em seu centro preservado, uma mensagem pedindo um adjutório ali marcado como “pão”, riqueza essencial, pelo amor de Deus!

“Pão por Deus

fiel com deus

Bolinho no saco,

Andai com Deus”.

Na Ilha de São Miguel, o Pão-por-Deus é uma “tradição arraigada” ainda hoje, porém é “circunscrita aos jornaleiros” que, “pelos santos”, isto é, no período que prenuncia o Dia de Todos os Santos, “solicitam uma dádiva aos fregueses e assinantes”. Foi o que afirmou o Dr. Francisco Carreiro Costa, folclorista micaelense que, em visita à Santa Catarina, reconheceu a sobrevivência da tradição distinguindo-a, no entanto, daquela praticada em sua terra onde não se lhe dão o formato de coração. Já o Prfº José Eduardo Prestes Franco, madeirense, professor da Universidade de Lisboa, declarou desconhecer o Pão-por-Deus escrito em versos.

Guardadas as diferenças, o que de semelhante existe, lá e cá, é o objetivo: o Pão-por-Deus é essencialmente o mensageiro de um pedido de esmola escrito em papel artisticamente recortado por mãos inspiradas, com extrema perícia. Em Santa Catarina as mensagens assumiram um tom peculiarmente poético, ainda que feito de rimas simplórias, de caráter romanesco que, ao olhar do cientista Seixas Neto, o aproximariam das Cantigas d’Amor e Cantigas d’Amigo do cancioneiro da Idade Média (in: Maria de Lourdes Monteiro).

“Quando abrir este envelope

Abra com todo cuidado

Dentro dele acharás

Meu coração retratado”.

(verso anônimo)

 

“Lindo cravo, linda rosa

Lindo mal-me-quer dourado

Manda meu Pão-por-Deus

 Já que somos namorados”.

(verso anônimo)

As Cantigas, como lembrou Seixas Neto, são ritos de cunho religioso associados à imagem idealizada da mulher amada, que encerravam uma declaração na qual ia implícita a expectativa de correspondência amorosa. Tais mensagens transitavam pela intermedição dos “bardos viajeiros” que os carregavam em suas andanças. Com a disseminação da escrita e do uso do papel, as Cantigas passaram a ser remetidas diretamente ao destinatário, mantida, no entanto, a natureza das mensagens: amor, amizade e apreço.

Mas promessas e juras amorosas, ontem como hoje, exigem materialidade e precisam ser constantemente “alimentadas”. E, nesse caso, haverá alimento mais representativo do que o pão? E quem melhor poderia avalizar a promessa do que Deus em primeiríssima pessoa?

 “Acho lindo o seu nome

Para sempre escrever

Pão-por-Deus de suas mãos

Espero ainda receber”.

(verso anônimo)

 

“Por ser a mais linda moça

Linda flor desse lugar

Mandai meu pão-por-Deus

Para mais te adorar”.

(verso anônimo)

No Pão-por-Deus catarinense tudo afirma o apreço pela pessoa agraciada: o formato, a palavra “coração” sempre presente no texto e a sua própria denominação.  Aqui, “coração” é sinônimo de “Pão-por-Deus”.

Doralécio Soares, o emérito folclorista que à recém completou 97 anos, afirma, do alto de sua autoridade, que Santa Catarina é a “criadora da delicada missiva” e que a arte de confeccionar e enviar o Pão-por-Deus se estendeu pelo litoral desde Florianópolis até o norte do Estado. E aponta a cidade de São Francisco do Sul como a região onde o Pão-por-Deus mais se infiltrou na cultura popular, a ponto de haver quem se dedicasse à sua “feitura” com objetivos comerciais.

Assim também na Ilha de Santa Catarina, onde, no Mercado Público, alguns “taboleiros” mantinham, em exposição, uma diversidade de modelos de Pão-por-Deus adquiridos especialmente pelos enamorados sequiosos, mas pouco afeitos à arte da tesoura, segundo testemunho do historiador Oswaldo Rodrigues Cabral

De acordo com a tradição, os corações eram enviados nos dias 1º e 2 de novembro, dias consagrados a Todos os Santos e às Almas, o que nos remete ao rito das “Esmolas Perdidas” sobre o qual discorreu Oswaldo Rodrigues Cabral (in: Maria de Lourdes Monteiro):

O espírito de caridade aliado ao culto dos mortos revelava-se outrora nas chamadas esmolas perdidas, como ainda hoje no conhecido Pão-por-Deus. As esmolas perdidas eram uma forma de sufrágio as almas e consistia em colocar uma esmola fora de casa: umas vezes no peitoril da janela inteiramente fechada para se não saber quem a levava: outras nas banquetas dos caminhos ou então junto das alminhas que tinham para esse efeito numa pequena copeira. […] O Pão-por-Deus…é, presentemente nos Açores, uma demonstração de caridade versando o sufrágio das almas”.

 Assim, nos dias que antecediam o Finados, os pobres batiam à porta das casas pedindo:

 “Dai pão por Deus

Que vos deu Deus

P’ra repartir

C’os fiéis de Deus

Pelos defuntos de Vosmecês”.

Quem tem cabra tem cabrito

Quem tem porco tem presunto

Manda-me o Pão-por-Deus

Por alma dos teus defuntos”.

(anônimo)

 

Daí que, por essas plagas, os dias 1º e 2 de novembro, dias de Pão-por-Deus, tinham uma importância maior até do que o próprio Natal no que se refere à troca de presentes. Segundo declaração de diversas senhorinhas aos jornalistas Carolina de Assis e Gustavo Schwabe, nesses dias as pessoas colocavam roupa nova, quem podia, e passavam o dia na expectativa da entrega e do recebimento do Pão-por-Deus.

Pedia-se, e ganhava-se, de tudo: desde o pão propriamente dito até bolo de milho, pacote de feijão, pedacinho de sabão, cacho de banana, corte de tecido, blusa, chinelo. As viúvas pobres, em sua penúria, pediam por mantimentos.

“Lá vai meu coração

Na asa de uma andorinha

Se não tiver o que me dar

Me dê uma cuia de farinha.”

 

Na entrevista, a escritora Dalvina Siqueira, ela própria praticante da arte na juventude, declarou que se pedia muito por sombrinha, já que era difícil de encontrar e custava caro. Os presentes deveriam chegar até o Natal. Gelci Coelho, o Peninha, adverte que negar o “Pão” era grave, pois equivalia a desagradar o Menino Jesus.

Quando o ipê amarelo dá flor, é hora de pedir o Pão-por-Deus”, conta ele, reproduzindo a marcação orgânica da passagem do tempo praticada pelo povo, destacando também que o Pão-por-Deus era uma das raras oportunidades em que as pessoas exercitavam a escrita.

Mas, como a alma humana não é feita só de luz, havia também uma versão “sombria” dos versos itinerantes chamada Respingo onde se exercitava, sem pruridos, o escárnio e a maledicência… Mas essa  já é outra história!

* Doralécio Soares  faleceu no dia 30 de agosto de 2011.

Esse coração, recortado por Carolina de Assis, minha filha, foi-me dado de presente, no ano 2000, após a apresentação do vídeo que norteou este meu artigo e deu à ela o diploma de jornalista. A quadra é minha, em homenagem à ela, Carolina.

Obs: pode ser usada com os devidos créditos.

 

Leituras de referência para este texto:

Assis, Carolina de & Schwabe, Gustavo – Caderno de Campo. Anotações e roteiro do Vídeo Lá Vai Meu Pão-por-Deus. Não editado.

Buss, Alcides et al. Vichietti Pão-por-Deus. Florianópolis. Garapuvu, 2002.

Debus, Eliane. É Tempo de Pão-por-Deus. Ilustração de Márcia Cardeal. Tubarão. Copiart, 2011.

Mannrich, Maria Eli Braga. Pão-por-Deus. Vivo na Cultura Brasileira. Florianópolis. Ed. da UFSC, 2007.

Soares, Doralécio. Folclore Catarinense. Florianópolis. Ed. UFSC, 2002.

 Conversas informais com minha filha, Maria Carolina, minha mãe, D. Aurelina e com Gelci Coelho, Peninha.

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3 comentários sobre “Lá Vai Meu Pão-por-Deus

  1. Nina

    Amei o texto e vou fazer o Pão-por=Deus como encerramento de um curso onde sou coordenadora. Abraços, Aurelina (De Fortaleza – Ceará)

    1. Quanta honra, Aurelina! Deixa-me te contar um segredo: minha mãe também chama-se Aurelina. E minha bisavó também! Interessante porque é um nome incomum. Tenho várias crônicas onde as menciono. Procura a tag “família” e “amores da minha vida” e vais achá-las. Que curso é esse? Um forte abraço

    2. Complementando: o “coração” que ilustra esta crônica foi recortado pela minha filha, Maria Carolina durante a sua pesquisa para a monografia de conclusão do curso de Jornalismo da UFSC. Ela me deu de presente após a apresentação. O versinho eu escrevi para ela quando publiquei a crônica. Abç

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