O Natal numa Caixeta de Chocolate

Ela era uma negra miúda, de uns setenta e poucos anos, os cabelos grisalhos mal cortados amarrados por uma tira de tecido branco. Sem pedir licença, sentou ao meu lado no canteiro que circunda a parte externa do Shopping. Eu sentara ali à espera de uma amiga para almoçarmos juntas, cansada pelo alvoroço das compras de Natal.

Sentou perto demais, apesar da grande disponibilidade de espaço, contrariando as boas regras de convivência social que estabelecem uma distância estratégica, já que não nos conhecíamos. Não me senti ameaçada ainda que a violência dos dias atuais recomende o absurdo de desconfiar de todos, inclusive de velhos e crianças. Tive a impressão de que buscava intimidade. Por isso, contrariando os meus habituais cuidados, não me afastei nem dei aquela clássica chegadinha para o lado que se costuma dar à aproximação de um desconhecido. Não demorou muito para que puxasse assunto. – Será que vai chover? Eu respondi que estava com jeito, simpatizando de imediato com aquela velhinha.

Para minha surpresa, encostou a cabeça ternamente no meu ombro e pediu, com o olhar brilhante e um sorriso inocente: – Me dá um cruzeiro pra eu comprar uma caxeta de chocolate? Como dizer não? Era Natal. Tirei R$ 1,00 da carteira e lhe entreguei. Ela, demonstrando frustração, disse, com veemência: – Mas isso não dá pra comprar chocolate!

Tive que admitir.  Perguntei o seu nome. – Lourdes, ela respondeu. A senhora gosta de chocolate, dona Lourdes? A pergunta quebrou o encantamento. De repente, aquela velha franzina transformou-se numa linda menina pequena, os olhinhos brilhando, o rostinho iluminado por um grande sorriso sem dentes: – Eu adoooro chocolate!  

Foi então que compreendi que, diante de mim, estava não uma mulher velha mendigando uma esmola, mas uma criança me pedindo um presente de Natal. Sorri para Lourdinha, a menina que ela ainda era e lhe dei mais R$ 4,00. Agora dá para comprar uma caixeta de chocolate?Dá. Ela disse, guardando o dinheiro no fundo de uma sacola de supermercado. Em seguida se afastou um pouco de mim e, com o olhar distante, mudou de assunto.

Disse que estava vindo da casa de não sei quem onde fora devolver uma blusa que haviam lhe dado de Natal. Perguntei a razão da devolução e ela disse que não gostara da cor. Sorri internamente pensando que tamanha sinceridade só se encontra nas crianças que ainda não perderam a inocência.

De repente levantou, puxando sem cerimônia a saia que se enroscara no meio das suas pernas e disse: – Ela não tava em casa, então eu deixei um recado co’a empregada pra ela trocar por uma co’de rosinha (naturalmente). Em seguida, levantou a mão, deu tchau e foi-se embora rua acima.

As pessoas passavam por mim carregando sacolas e pacotes coloridos, reclamando cansaço, irritadas com o calor e com as intermináveis listas de presentes muitos deles vazios de emoção e afeto. Eu permaneci ali sentada, em meio ao burburinho e às buzinas impacientes dos carros, usufruindo emocionada de um pequeno milagre que só eu vi e que antecipou o calendário em cinco dias, fazendo o Natal acontecer numa calçada da minha cidade, em pleno meio dia de uma manhã nublada de trânsito conturbado.

Feliz com o presente que acabara de ganhar, nem percebi a chegada da minha carona.

(Florianópolis, 20 de dezembro de 2005).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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4 comentários sobre “O Natal numa Caixeta de Chocolate

  1. michela

    É pra chorar?? pois chorei tá! muito significativa o caso, bem apropriado a época, lindo, como vc! beijos Michela

  2. Fatima Barreto Michels

    Cotinha o poema cotidiano é assim…de repente acontece. É onde entra o papel do escritor que o registra. Você entrou no tempo e quebrou sua esquina dando de cara com a pequena Lourdes. Uma gracinha o conto! Abraço e obrigada por nos levar junto na fantasia que é pura realidade mas é sobretudo vida, é encontro e partilha. É Natal que se avizinha. Bj daqui da Laguna. Benta.

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