Promessas de Ano Novo

Tinha ido ao Centro com o propósito de agradecer a Deus pelo ano que estava terminando e também para fazer meus pedidos para o Ano Novo. Havia muito a agradecer. Dos pedidos do ano anterior, só faltou o namorado; por isso mesmo era agora o primeiro item da lista. Um homem inteligente, bonito, gostoso e valente, do tipo que sabe o quer e luta por isso.

O salão do Centro do Seo Osvaldo Mello estava praticamente vazio àquela hora da manhã. Mal cheguei, a porta do reservado se abriu para os que desejavam tomar o passe. Não vi quem era, mas alguém entrou comigo. Após a belíssima oração e o passe mediúnico, tomei o copo de água fluidificada que um homem gentilmente me ofereceu, agradeci sem olhá-lo e saí à rua. Ele seguia à minha frente. De repente parou e eu passei, distraída com meus pensamentos. Dirigia-me à escadaria que leva à Avenida Osmar Cunha quando ele emparedou comigo e perguntou, na lata:

– Tu moras em Barreiros? Surpresa e rindo interiormente, respondi – Não. Moro na Trindade.

– Na Trindade? Onde? Naqueles prédios?

– Não, no momento moro numa casa, mas estou me mudando para um apartamento.

– Sozinha?

– (?!) Não, com os meus filhos.

– Pequenos?

– Não, adultos.

– De que idade?

– Vinte e sete, vinte e quatro e dezoito (à época).

– Trabalhas aqui, no comércio?

– Não. Sou professora.

– É? Em que colégio tu dás aula?

– Eu não trabalho em colégio e no momento não estou dando aulas.

– Por que?

– Estou fazendo uma pesquisa. Enquanto isso descíamos a Deodoro.

Ah, porque se não tu podias mandar um currículo pra uma escola que tem perto da minha casa. (Por que cargas d’água eu levaria um currículo para a escola que tem perto da casa dele? Pensei, mas não falei, até porque sabia a resposta). Ele continuou o inquérito:

– E… Qual é o teu nome? Eu disse. Também perguntei o nome dele.

– Rudinei. Ele respondeu.

– E o que tu fazes na vida, Rudinei?

– Sou fotógrafo.

– É uma profissão muito interessante.

– É, o problema hoje é a concorrência. Tá meio difícil. Esse ano eu fiz uns trabalhos pro Dário, mas quero ver se consigo trabalhar com o Luiz Henrique. E… Onde é que tu vás passar o Reveillon? (Ele emendou, sem rodeios). Na Beira Mar?

– Não, em casa.

– Sozinha?

– (rs) Com a minha família.

A essa altura, havíamos chegado à Igreja de São Francisco onde eu acenderia minhas velas e deixaria meus habituais pedidos a Nossa Senhora Desatadora dos Nós.

– Fico por aqui, eu disse. Ele pareceu decepcionado, já que isso interrompia a conversa, e eu me sentia aliviada, pois já via a hora em que ele pediria meu telefone.

É? Tá…

 – Olha, Rudinei, eu desejo que tenhas um Feliz Ano Novo. Tomara que consigas o trabalho com o Governador e que tudo dê certo pra ti.

 – Pra ti também, ele disse, e saiu andando na direção do Mercado Público. Fiquei a observá-lo. Não era meu tipo, mas era inegavelmente um homem valente, do tipo que luta pelo que quer. Entrei na Igreja tomada por uma absoluta certeza: Deus existe. Só precisa melhorar a pontaria.

* Rudinei é um nome  fictício

Ilha de Santa Catarina e de Cascaes

Ano da Graça de 2005

 

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