A Vida (Fácil) do Cronista

 

O cronista é um sujeito, ou sujeita, como outro qualquer com crises de flatulência e contas a pagar. O que diferencia o cronista é o jeito de olhar para aquilo a que chamamos realidade, além da mania de interpretar o que vê, ou acha que vê, e a necessidade de contar para os outros o que viu.

O cronista precisa ter o olhar atento, mas não treinado, precisa ter senso de oportunidade e, sobretudo, sensibilidade para saber que, por trás das coisas e dos fatos, existem as pessoas protagonizando suas vidas, seus enredos, suas histórias.

O cronista não precisa necessariamente ser um exímio escritor, qualidade rara, precisa é saber contar uma história. Na verdade, o que ele precisa mesmo é ser bem aquinhoado pela sorte, pois as histórias se contam sozinhas, o tempo todo. Estar no lugar certo, na hora certa significa presenciar ou não a cena, o fato acontecendo. A crônica está sempre por um triz. Que o diga Fernando Sabino, contador da crônica mais linda que eu já li até hoje – A Última Crônica -, ô inveja!

 “A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café no balcão. Na realidade, estou adiando o momento de escrever. (…) Ao fundo do botequim, um casal de negros acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura de humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acentuar pela presença de uma negrinha de seus 3 anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao seu redor. Três seres esquivos que compõem à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome…”

Às vezes a crônica se apresenta em vários esquetes, como esta, às vezes numa única significativa cena. A verdade é que a crônica simplesmente acontece; se “escreve” sozinha. O cronista apenas a interpreta e descreve. Como a cena que presenciei esta semana, numa praça feinha de Florianópolis.

Tinha ido ao Cartório do Saco dos Limões em busca de uma certidão, já que nasci no bairro. À espera do ônibus, eu o vi. Sentado num banco do outro lado da praça, um jovem bem vestido rodeado por duas grandes malas, também esperava. Talvez uma carona. Talvez uma saída. Ao lado, um vaso de suculentas de aparência tão desprotegida quanto ele. No colo, a mochila apoiava uma solitária orquídea branca, fresca, cuja embalagem, de festa, não combinava com o seu olhar desolado. Os braços frouxos, abraçados à mochila, contrastavam com a delicadeza da orquídea e, juntos, suculentas, braços e orquídea, contavam histórias de vulnerabilidades. O moço fora despejado da vida de alguém. A orquídea.

No dia seguinte, uma história mais feliz! Vazio, o ônibus aguardava o horário da saída. Entrei e me postei à janela, distraída com a rica fauna humana que por ali transita. O motorista entrou e deu início aos preparativos para assumir seu turno: ajustou a posição do banco, verificou os espelhos laterais, passou o cartão de identificação no leitor ótico, digitou sua senha. Da sacola, com logotipo, retirou uma pequena e desgastada mantilha de crochê, listinhas brancas, verdes, rosas e azuis. Dava para ver que a mantilha fora feita sob medida já que tinha os encaixes e amarrações necessárias ao ajuste. Mãe, namorada, esposa, amante, alguém o ama! Aquela mantilha falava de atenção, de cuidado, de afeto aceito e compartilhado.

Refletindo sobre isso, estar no lugar certo, na hora certa, lembrei: numa certa manhã, há uns cinco ou seis anos, me dirigia ao Estreito quando um carro azul, muito limpo e lustroso, emparelhou com o meu, na sinaleira. Ao volante, uma senhorinha de cabelos brancos bem cortados e penteados, do tipo que usa rolinhos e laquê. Eu na pista do meio, ela na da direita. Fiquei a observá-la, disfarçadamente. Usava um casaquinho rosa e um lenço amarrado no pescoço, as pontinhas viradas para o lado, com esmero. Era uma figura bonitinha. Um quadro!

Ao sinal, deixei que ela arrancasse e mudei de pista colocando-me também à direita. Ainda bem que não a ultrapassei, teria perdido algo precioso. No vidro traseiro do carro, impressa em folha A4, a seguinte advertência:

“Tenho 72 anos. Sei dirigir. Pago meus impostos, portanto tenho direito de estar aqui. Eu lhe respeito. Você me respeita!”.

E foi-se embora, à 60km/h, cuidar da sua vidinha. A cronista aqui diminuiu a marcha e ficou sorrindo, olhos cheios de lágrimas e o coração agradecido pela oportunidade. Atrás, motoristas buzinavam, enfurecidos. Tolos!

(Acho que também vou fazer uma plaquinha).

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About Norma Bruno

Vivo na Ilha de Santa Catarina desde que nasci. Sou de aquário, portanto já nasci aluada, mas contraditoriamente, não me dou bem com tecnologia e gosto mesmo é de coisa velha. Fiz muitas coisas, deixei para trás outras tantas, tenho muito por fazer. Coleciono cenas urbanas, rendas de bilro e revistas antigas. Escritora amadora em todos os sentidos, invento coisas, conto histórias. Livros publicados: - Prosa, quase Poesia - ou vice-verso - Tempo Editorial. 2015 - Cenas Urbanas e Outras Nem Tanto. Bernúncia Editora. 2012 - A Minha Aldeia Editora Papa-Livros. 2004. - Leia Crônicas da Desterro no site www.carosouvintes.org.br

15 thoughts on “A Vida (Fácil) do Cronista

  1. Norma:
    Voltei a ler a Cotinha. Tadinha. É triste a história dela: o filho enrica e passa a ter vergonha do pai e da mãe, das suas origens e do seu jeito de falar. Isso é comum. Mas ela não abandonou o filho. Pergunta: ela chegou a completar a ligação?
    Você já pensou em dar voz à Cotinha e colocar o áudio no Youtube?

    • Como eu vejo: a Cotinha é Ilha e sua cultura.

      Clóvis: o filho fica dividido entre as suas origens (a quem ele ama sinceramente) e a possibilidade de progredir, de se adequar, de ser “como todo mundo”. É um “vendido”, deixou-se corromper pelos interesses dos grupos políticos e financeiros, aceita as regras do jogo e se ilude com a atenção e os agrados que recebe.

      Adalgisa: é deslumbrada com o enriquecimento, renega suas origens, tem vergonha do seu passado, esconde a “sogra” no quartinho dos fundos, é artificial, toda “montada”, para se adequar ao estilo de vida que vê nas revistas, nos blogs de moda e na TV. É a consumista típica. Por isso o conflito com a Cotinha, espontânea, verdadeira, inconveniente.

      Netos: têm vergonha da avó, pedem que ela não “apareça” diante dos amigos. Não a respeitam, não a reverenciam.

      * não tive a intenção de escrever sobre o tema, não planejei nada, nem o conteúdo nem a narrativa. Simplesmente saiu. Ao reler é que fiz a interpretação. Sobre a possibilidade de colocar o áudio no Youtube, confesso que não havia pensado. Sonho em vê-la transformada em peça teatral.Mas, gostei da ideia. Precisaria que uma boa atriz fizesse a leitura, porque falar aquele texto com naturalidade não é pra qualquer um. Eu não consigo. Vou colocar no cesto de sonhos para 2013. Quanto à “completar a ligação”, queres dizer com a ligação com a comadre Benta? Sim, claro! O problema é que ela não deixa a coitada da Benta falar. Obrigada pela sugestão e pela leitura. Um abraço

    • Oi, Jair! Muita gente me pergunta isso. “Suculenta” é um tipo de vegetação ornamental muito utilizada em canteiros e pequenos vasos.São muito lindas e fáceis de cuidar, pois, como os seus parentes, o cactus, possuem a capacidade de aproveitar e armazenar água o que lhes confere grande resistência em situações adversas. Quando uma suculenta tem uma aparência desprotegida é porque… Um abraço Norma

      • Obrigado, já posso continuar lendo o livro sossegado, nem vou questionar o final abrupto da resposta.

      • Bom dia, Jair! Ontem, coincidentemente, recebi a visita de uma amiga com um vaso na mão. Ela faz coleção de suculentas e resolveu me presentear depois de ler o livro. Vou fotografar e postar em tua homenagem!O final abrupto deve-se à simbologia da cena. Se uma planta tão resistente à falta de cuidado definha e morre… Fico muito feliz com a tua leitura e com o teu contato. Se, ao terminar, quiseres fazer um comentário aqui, eu ficarei honrada!

    • Muito obrigado pela homenagem. Reconheço a planta, já cultivei uma vez; nem sei que fim levou. Cuide bem das suas.
      Quanto ao livro, quando eu terminar de traduzir a Cotinha eu volto aqui.

      • Confesso que, às vezes, eu mesma tenho dificuldade de ler este conto. O segredo é ler “emendado”, esquecendo as pausas convencionais. Depois que a gente pega o ritmo, vai que é uma beleza! Fico aguardando…

      • Dona Norma:

        O seu livro, eu ganhei de presente de natal da Mafalda Boeing, tia da minha esposa, e que tambm ex-professora e escritora. Como comentei no blog, terminei de ler hoje. J publiquei no meu face e fiquei seu f. Eu sou de Blumenau e suas narrativas, apesar de serem direcionadas ou relacionadas ilha, vo bem mais longe. Muitos dos termos usados me remeteram infncia,… quando eu nem sonhava que existia essa ilha. Ah, eu s no vi dois termos comuns, um mais moderno, o “no tem?” (No tem a ponte?) e um bem antigo mas sempre usual, o “dijaois” ou “dijaoji” (Dijaoji eu escrevi no facebook…). Novamente, parabns pelo livro.

        Em 15 de janeiro de 2013 08:56, Norma Bruno

      • Não conheço a Mafalda, mas vou procurar os livros dela. Agradeço a indicação do livro no teu Face. A história da Cotinha é realmente engraçada, eu também morro de rir com a inadequação dela à sua nova vida, coitada!Mas… Sugiro que, em outro momento, releias o conto/crônica e tentes ver o que é dito de forma subliminar. A história, no fundo, é triste. Se descobrires, me conta. Um abraço

      • “… Fala Quirida!” Terminei de ler o livro. Li a Cotinha de vereda para o meu filho e foi só risadas (não tinha como não ser, tanto pelo dialeto quanto pela Cotinha). Já contei e recontei a estoria (?) das Violetas. Parabéns pelo livro. Virei seu fã.

      • Ô Jair! Que legal! Ganhei o dia!NO próximo lançamento te convido! A história das violetas aconteceu de verdade. Passados vinte anos, resolvi dar uma nova chance às violetas e à mim mesma. Há uma semana comprei 4 vasinhos, vamos ver no que dá! forte abraço

  2. Ô, inveja! Menina, tua crônica tá supimpa, de lamber os beiços. Quando eu crescer, quero escrever assim. Parabéns. Vou usar um pedacinho dela para dizer nada, porque você já disse tudo.
    Abraço do Amorim

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