O Jobe, a Conceição e a Ponte Hercílio Luz

Monumento em Homenagem ao Governador Hercílio Luz tendo ao fundo a Ponte

Foto: Carlos Roberto Amorim

O Jobe e a Conceição eram como a corda e caçamba, o Romeu e a Julieta, O Charles e a Camila, a Minerva e o Joaquim. Moravam numa casinha pobre embaixo da Ponte.

Naquele tempo, morar embaixo da Ponte significava morar próximo às salgas de pescado localizadas sob os seus pilares, na cabeceira continental.  Era morada de gente pobre, sem dúvida, mas de gente trabalhadora, que aqueles eram outros tempos.

A Ponte também não era uma qualquer. Ela era única numa Florianópolis provinciana, uma obra de arte a ligar a Ilha ao resto do mundo, por isso era conhecida como a Ponte. Com o tempo passou a ser chamada de Ponte Velha para diferenciá-la da Ponte Nova feita de concreto, pragmática, cartesiana e feia. Antes, só dava ela e por ali transitavam todos, de carro, de ônibus ou a pé. É o que fazia Aurelina, aquela que viria a ser minha mãe.

Quando jovem, Aurelina atravessava a Ponte a pé, a caminho da Fábrica de Bordados onde, moça bonita e caprichosa, recortava os bordados que iam adornar os enxovais das moças de família do Rio de Janeiro e de outras cidades brasileiras.

Diz ela que encontrava o Jobe na travessia da Ponte todos os dias. Na época ele ainda não tinha a Conceição – mas já tava aluado -; certo dia, ele lhe disse assim: – Ô galega! Eu gosto de ti! Agora eu vou melhorar de vida, que o seo Deba vai me dar um aumento, aí eu vou casar contigo. O seo Deba era o poderoso “Dr. Aderbal” a velha raposa, o mandachuva da província.

Não sei se ele, afinal, ganhou o aumento. O que sei é que quem casou com a galega foi o Lourival, meu pai. O Jobe ficou com a Conceição e foram morar na tal casinha debaixo da Ponte. Todos os dias os dois atravessavam a Ponte para almoçar no Mercado Público onde pediam um prato feito e dôj galfo. Comiam juntos, no mesmo prato, em comunhão.

(contra os que querem derrubar a Ponte, a resistência que me cabe)

Norma Bruno

Esta crônica está publicada no livro Cenas Urbanas e Outras Nem Tanto. Bernúncia Editora. Florianópolis, 2012.

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About Norma Bruno

Vivo na Ilha de Santa Catarina desde que nasci. Sou de aquário, portanto já nasci aluada, mas contraditoriamente, não me dou bem com tecnologia e gosto mesmo é de coisa velha. Fiz muitas coisas, deixei para trás outras tantas, tenho muito por fazer. Coleciono cenas urbanas, rendas de bilro e revistas antigas. Escritora amadora em todos os sentidos, invento coisas, conto histórias. Livros publicados: - Prosa, quase Poesia - ou vice-verso - Tempo Editorial. 2015 - Cenas Urbanas e Outras Nem Tanto. Bernúncia Editora. 2012 - A Minha Aldeia Editora Papa-Livros. 2004. - Leia Crônicas da Desterro no site www.carosouvintes.org.br

11 thoughts on “O Jobe, a Conceição e a Ponte Hercílio Luz

    • Querida escritora!
      Há quem só se atenha ao prosaico, mas essa visão é equivocada. A Vida é feita de Prosa e Poesia. Demonstras isso no registro poético que fazes das paisagens da tua Laguna. Quando, afinal, teremos o privilégio de usufruir das tuas lindas fotos?

  1. Oi querida amiga Norma! Gostamos muito do que lemos, um lindo e breve relato desta história que por certo deve ainda haver outros, e que culminou com a chegada desta amiga e grande escritora que és. Parabéns ao Joaquim que conquistou a galega.

    Osmarina(prima) e Paulo villalva.

    • Obrigada prima! Só faço uma correção: quem conquistou o coração da galega foi o Lourival. O Joaquim foi o grande amor da Minerva, uma linda história que contarei algum dia.

  2. Norma, poética história dos tempos em que a Nossa Senhora do Desterro, ainda que já não mais se chamasse assim, era só nossa. Nossa cidade perdeu o encanto e aos poucos perde a beleza. Já não mais ouvimos sequer a algazarra das bruxas pelas matas – o progresso conseguiu assustá-las. Nosso sotaque desaparece todos os dias e muitos até se esforçam para falar com sotaque estrangeiro, quem sabe querendo, talvez, parecerem mais cultos, mais modernos, mais globalizados, não sei. A verdade é que temos vontade, coragem e munição para resistir, então vamos à luta! Forte abraço Manezinho do @ODesterrense.

      • Pena que poucos Manezinhos estejam dispostos a defender nossas coisas. O silêncio, principalmente dos homens do poder, é constrangedor.
        Parabéns pelo teu trabalho e pela tua luta.
        Saudações Desterrenses.
        O Desterrense

  3. Meu querido amigo D. Geraldo sempre tão gentil! Vê se não esquece de enviar o exemplar da tua amiga catarina. O meu novo livro está rodando por aí à procura de um editor.

    • O livro vai demorar um pouco, mas logo que sair, enviarei o sedu exemplar.
      Abraço,
      Geraldo

  4. Menina, este texto é de arrepiar de bom.
    Quando é que você vai juntar seus maravilhosos texto num novo livro?
    Meu novo livro: “Romance no gueto de Varsóvia” está pronto sendo formatado por uma especialista.
    Espero que fique bem bonitinho. Vou tentar publicá-lo através da Embaixada de Israel.
    É muito pretensão, mas sonhar ainda não é proibido.
    Abraços.
    Geraldo.

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