Eu, Meu Pai, Nosso Carro Velho e a Ponte Hercílio Luz

(da série porque a Ponte não pode cair)

Até os sete anos morei num lindo chalé no bairro Saco dos Limões. Já falei sobre isso. Ao entrar em idade escolar – sou do tempo em que não havia “jardinzinho” -, minha mãe inventou de me matricular no Colégio Nossa Senhora de Fátima, localizado perto da casa da minha avó, no Estreito, parte continental da cidade. Anos depois ela confessou tratar-se de uma estratégia para se mudar para lá.

Daí então que, dos sete aos nove anos e de segunda a sexta, eu morava na casa da Vó Chica. Nos finais de semana voltava para minha casa. Meu pai me pegava depois do trabalho e me trazia de volta no domingo à tardinha. Nesse dia, minha mãe e meus dois irmãos vinham também aproveitando para dar uma “voltinha” no nosso velho Hillmann de cor creme.

Certo dia, não sei porque cargas d’água, meu pai não pode me levar no domingo. Saímos então na segunda-feira bem cedinho para que ele pudesse ir até o Estreito e retornar a tempo de cumprir o expediente na Rádio Diário da Manhã. Pois muito bem.

Deu tudo errado. Mal entramos na Ponte, o Hillmann, que de vez em quando nos deixava na mão, começou a ratear. Meu pai encostou o carro, o mais que deu, abriu o capô para ver o que podia fazer, mas não descobriu o defeito. Dois moços que caminhavam pela lateral da Ponte empurraram o carro de ré até a cabeceira insular, que estava mais próxima. Eu, dentro do carro sem entender coisa alguma.

A Ponte ainda tinha o assoalho de trilhos de madeira do projeto original. Se saísse do trilho, o veículo teria que continuar assim até o fim sob pena de tombar. Meu pai estacionou o Hillmann no Belvedere, mandou que eu pegasse minhas coisas e saísse. Obedeci sem coragem de perguntar o que viria a seguir; meu pai ficava nervoso nessas horas. Ele pegou-me pela mão e caminhou em direção à Ponte. Entrou decidido na passarela lateral. Eu entrei porque não tinha escolha.

A passarela era (ainda é?) feita de mourões enfileirados numa distância entre cinco a dez centímetros, espaço que aos meus olhos de criança se alargava. Eu titubeava e meu pai me segurava ainda mais firme. De repente, parou.

À nossa frente um trecho onde faltavam duas ou três tábuas alternadas (já naquela época a Hercílio Luz era tratada com descuido), era preciso pisar com atenção. Meu pai apoiou-se na balaustrada de ferro, sua mão apertando a minha a ponto de me machucar. Ele ordenou: – Não olha pra baixo! Foi o mesmo que mandar olhar.  Dava pra ver as águas profundas cor de esmeralda, lá embaixo. Era assustador! E lindo!

Refeitos do susto, passamos a usufruir a belíssima paisagem e a leve brisa que nos acompanhava na travessia. Caminhamos até a casa da minha avó nas proximidades da Igreja Matriz – é um bom trecho -, pois, para mais ajudar, não passou um único ônibus por nós. Resultado: eu perdi a escola e o meu pai o dia de trabalho já que ele ainda teria que arranjar alguém para rebocar o carro e levá-lo para a oficina; isso a pé, coitado. Hoje a gente resolve tudo pelo celular e ainda reclama!

No dia seguinte levei uma anotação para a escola explicando o motivo da minha ausência. Diante da turma, a professora quis saber o que havia acontecido e eu contei a aventura em todos os seus detalhes. Principalmente como quase caí da Ponte Hercílio Luz, ao pisar numa tábua solta, ficando com uma perna pendurada. Sorte que o meu pai me segurou! Não fosse por ele…

Foto: Ponte Hercílio Luz. Décda de 1960.  Arquivo Rogério Santana foto captada da internet. Observe os trilhos de madeira e a passarela para caminhantes à esquerda.

Esta crônica está publicada no livro Cenas Urbanas e Outras Nem Tanto. Bernúncia Editora. Florianópolis, 2012.

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About Norma Bruno

Vivo na Ilha de Santa Catarina desde que nasci. Sou de aquário, portanto já nasci aluada, mas contraditoriamente, não me dou bem com tecnologia e gosto mesmo é de coisa velha. Fiz muitas coisas, deixei para trás outras tantas, tenho muito por fazer. Coleciono cenas urbanas, rendas de bilro e revistas antigas. Escritora amadora em todos os sentidos, invento coisas, conto histórias. Livros publicados: - Prosa, quase Poesia - ou vice-verso - Tempo Editorial. 2015 - Cenas Urbanas e Outras Nem Tanto. Bernúncia Editora. 2012 - A Minha Aldeia Editora Papa-Livros. 2004. - Leia Crônicas da Desterro no site www.carosouvintes.org.br

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