A Revolução de 30 e o Caso do Soldado que Caiu da Ponte e não Morreu

Eis que esta semana encontrei o seo Jardim na banca de revistas. Amigo do meu pai, uma amizade iniciada ambos já idosos, seo Jardim tem um hobby interessante: coleciona recortes de jornal sobre a história e o patrimônio cultural da Ilha de Santa Catarina, o que sempre rende bom papo cada vez que nos encontramos.

Conversa vai, conversa vem, chegamos ao tema do momento: a preservação da Ponte Hercílio Luz. Contei a ele sobre o meu propósito de coletar e publicar “estórias” sobre a Ponte e lhe perguntei se tinha algum causo para me contar. Ele, então, me veio com esta preciosidade: – Durante a Revolução de 30, um oficial caiu da Ponte, mas não morreu. Tenho tudo lá em casa, nome, data, num livro da Polícia, deixo pra ti na Gráfica. (Costumamos deixar coisas um para o outro, aos cuidados de um funcionário, na gráfica que frequentamos).  À tarde me ligaram: – D. Norma, o seo Jardim deixou uma sacola aqui pra senhora.

O pacote continha dois álbuns, um sobre a construção e o vai não vai da recuperação da Hercílio Luz, e outro sobre o Mercado Público, o primeiro, o atual, o incêndio, tudo, e a Penitenciária do Estado, construção, ampliação, oficinas. Junto veio também o livro que relata o tal incidente:

“Desde o dia 20 de outubro, quando os revolucionários atingiram a região de Florianópolis, não mais foi possível repouso para os que defendiam a sede do Governo e isto porque além das missões militares, o já escasso pessoal da Força Pública era obrigado a exercer severa vigilância nos edifícios públicos, logradouros principais, residências particulares e pontos vulneráveis da cidade para evitar atividades de marginais e desordeiros, pois com o movimento de tropas, tiroteios e bombardeios pela artilharia naval, a população civil, atemorizada, retirou-se quase em massa para o interior da Ilha, deixando as residências abandonadas.

 (…) a situação na Capital do Estado era tão confusa, sobretudo no dia 24, ao ponto de ninguém fora da área governamental superior ter conhecimento de haver o Presidente do Estado Dr. Fúlvio Aducci, com as notícias de deposição de Washington Luiz, abandonado o Palácio após haver entregue o Governo a uma Junta Governamental Provisória e com seu secretariado embarcado em um ‘ITA’ (…) rumo à Capital Federal (…).

A tropa da Força Pública que defendia a cabeceira da ponte ‘Hercílio Luz’, em conseqüência desses fatos lamentáveis, foi a última força a depor as armas em todo o território brasileiro (…). O Sr. Pedro Augusto Carneiro da Cunha, Diretor do Tesouro do Estado e o Major Adelino Marcelino de Souza, Cmt. Do 1º BI (…) aceitaram a difícil missão de parlamentarem com o Gal. Ptolomeu de Assis Brasil, Cel. Plínio Alves e o Dr. Nereu Ramos, este líder da Revolução em Santa Catarina. (…) teriam os dois emissários, não sem risco de vida, que transpor a ponte ‘Hercílio Luz’, passando por sobre as vigas de ferro de pequena espessura, um vão de mais de 10 metros com luz tênue de lanternas rudimentares. E esse perigo ficou comprovado no instante mesmo em que os dois emissários haviam transposto o abismo, pois o Tenente Heitor Atayde da Força Pública que teimara em acompanhar os mesmos, não conseguiu equilibrar-se na viga, caindo no mar de uma altura de trinta e três metros, salvando-se por milagre” (pág. 96 a 99).

Dizem os antigos que os ilhéus retiraram os pranchões de madeira do piso da Ponte para impedir o avanço das tropas revolucionárias, o que justificaria o “vão” entre as vigas que provocou a queda do Tenente. Quanto ao milagroso salvamento, para o seo Jardim, a explicação é simples: naquele momento, o Tenente Atayde usava uma capa-ponche que amorteceu a queda fazendo o papel de pára-quedas. Se foi ou se não foi, é isso o que o povo conta. E quem sou eu pra duvidar?

* Seo Aulo Gomes Jardim tem 81 anos e gosta de uma boa prosa. Possui mais de 80 álbuns com fotos e recortes de jornal sobre Florianópolis. Mora no bairro Trindade onde cultiva orquídeas e amigos.

Para saber mais:

Ribas, Antônio de Lara – Polícia Militar de Santa Catarina Ação de Guerra dos Batalhões de Infantaria Período de 1922 a 1930. IOESC Florianópolis, 1985.

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