Recado ao Glorioso Senhor Jesus dos Passos

Em 2007, meu pai foi informado de que precisaria fazer uma nova cirurgia cardíaca. Enfartou muito jovem, aos trinta e seis anos, numa época que não havia recursos a não ser rezar. Aos sessenta e dois fez a cirurgia, quatro pontes entre safenas e mamária. – Agora é a válvula que tá ruim, seo Lourival, precisamos operar. Deixamos passar as festas de fim de ano e marcamos em seguida, disse o médico. Estávamos em setembro. Meu pai negociou. – Tudo bem, doutor Frederico, mas com uma condição: eu faço aniversário no dia 24 de março. Eu quero fazer oitenta anos. Se o senhor marcar antes disso eu não venho. Se marcar para o dia seguinte, eu estarei aqui.

A cirurgia ficou marcada para o dia 07 de abril pela manhã. No dia anterior fomos para o Imperial Hospital de Caridade para os procedimentos e providências que antecedem a cirurgia. Mal nos instalamos, meu pai me convidou para irmos à Capela Menino Deus. Queria “conversar” com o Senhor dos Passos. Filho de pai católico fervoroso, membro da Irmandade, e mãe espírita, meu pai era um espírita sui generis; estudioso e praticante da Doutrina Espírita, mas devoto de Santo Antônio e do Senhor dos Passos.

Na saída, ele deixou o seguinte recado no livro de registros que existe na Capela: “Caro Senhor dos Passos, amanhã vou fazer uma cirurgia. Peço-lhe a graça da recuperação da minha saúde e o meu retorno ao seio da minha querida família. Muito obrigado!”, e assinou com sua caligrafia bonita.

À noite, durante a entrevista para verificar o seu estado geral, a enfermeira descobriu que meu pai esquecera de descontinuar o uso do anticoagulante do qual fazia uso regular; havia o risco de hemorragia. A cirurgia foi, então, remarcada para dali a uma semana.

Fizemos tudo de novo. Internação, instalação das coisas no quarto, visita ao Senhor dos Passos, reza e assinatura no livro de pedidos. Dessa vez meu pai escreveu assim: “Caro Senhor dos Passos, cá estou novamente e tu bem sabes o motivo”. Assim era o meu pai.

A cirurgia transcorreu nos conformes e meu pai enfrentou tudo com galhardia, mas, infelizmente, o Senhor dos Passos tinha outros planos para ele.

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About Norma Bruno

Vivo na Ilha de Santa Catarina desde que nasci. Sou de aquário, portanto já nasci aluada, mas contraditoriamente, não me dou bem com tecnologia e gosto mesmo é de coisa velha. Fiz muitas coisas, deixei para trás outras tantas, tenho muito por fazer. Coleciono cenas urbanas, rendas de bilro e revistas antigas. Escritora amadora em todos os sentidos, invento coisas, conto histórias. Livros publicados: - Prosa, quase Poesia - ou vice-verso - Tempo Editorial. 2015 - Cenas Urbanas e Outras Nem Tanto. Bernúncia Editora. 2012 - A Minha Aldeia Editora Papa-Livros. 2004. - Leia Crônicas da Desterro no site www.carosouvintes.org.br

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