Farra: A Batalha do Boi Contra os Homens Embriagados (Quadrilátero da Dor Cercada I)

O boi no meio dos homens. O boi medrado, constrangido, só. Os homens alcoolizados, berrantes e unidos. A Farra vai ser grande. Há cachaça e disposição para muitas horas. Encurralado o boi espuma, raivoso. Sabe que a batalha é difícil, sem mediadores, mas tentará ficar em pé, fugir. Não sabe para onde…

Ali na meirinha, próximo ao mar, não há saída; de um lado uma multidão imprevisível, de outro as águas revoltas do mar grosso.

– Intisica o boi! Intisica o boi! – grita o bacuri, filho menor de um dos pescadores. O pai, atiçado, bebe mais uns goles da boa pinga de alambique e dispara festeiro com um galho espinhado na mão. Une-se ao bando que corre atrás do animal cansado, que corre, a esmo.

De todos os lados, de todos os modos, o boi recebe saraivadas que marcam o couro. A raiva aplaca a dor, só fica a dor da raiva, maior, incontrolada. Sangra o boi pelas têmporas e fuça, mas ainda corre, não se entrega. Ainda não. Mas os músculos vão enfraquecendo, chegam ao limite da resistência. Ele para um pouco. Faz isto de vez em quando para recuperar a respiração, que é ofegante, parece acabar. Nestes momentos os farristas também param um pouco, recompõem-se na inacabável bebida.

– Intisica!

Recomeça a festa dos homens, que não é a festa do boi.

Enquanto isso alguns velhos da comunidade, algumas mulheres, iniciam os preparativos para o grande churrasco. Cada família deu sua parte.  São os sócios do boi que dividiram entre si as despesas com a compra do animal. Recolhem a lenha seca, amontoam-na junto à churrasqueira improvisada, grande.

O boi, espumando a raiva pela fronte, corre de um lado a outro, tentando chifrar alguém. Às vezes consegue, com menor ou maior estrago. Então a Farra cresce. O boi, isolado na sua condição de boi marcado, ataca e se defende, mais perde do que ganha. O tempo passa para ele. A carne, humilhada em visíveis chagas, fraqueja, os músculos perdem a vitalidade.

Os velhos fazem o fogo, que vai arder na achas de lenha seca. É preciso muita brasa. As mulheres limpam o local, preparam o ambiente da festa. Depois, enquanto aguardam o desfecho da Farra, velhos, mulheres e crianças improvisam o Boi-de-Mamão, folguedo açoriano tradicional. Estão lá, rusticamente, a Maricota e Bernunça, personagens consagrados. A cantoria, ao som de viola e pandeiros, é por demais conhecida. O refrão repete-se exaustivamente.

E faz-se a dança.

O boi, fustigado pelos golpes de varas e paus, vai perdendo cada vez mais força. A baba espumante, que é raiva e cansaço, mistura-se ao sangue vermelho-escuro, formando bolhas incandescentes que se alongam até a terra pisada. .

Está prostrado o boi. Desanca no chão à mercê dos homens que, agora, aproximam-se com faca amoladas, machadinhas e serras; que bebem mais cachaça no gargalo; que gritam, vitoriosos.

Na churrasqueira as brasas ardem, anunciando que tudo está pronto.

O boi acuado. De um flanco os farristas afoitos; de outro o mar grosso.

Mas o que ninguém esperava, acontece, como num clarão bíblico. O boi se ergue, com estranha e inesperada força, e corre, desanda, na direção das águas revoltas.

Por um breve instante os farristas, atônitos, calam; cala também a cantoria. Depois, possessos, os homens embriagados rugem, esbravejam. Alguns espumam pela boca enquanto cospem pragas atrozes.

No mar, de águas calmas (assim, de repente), o boi serena, numa mansidão crepuscular. Não precisa atacar, não se defende. Deixa-se levar, resoluto, e submerge nas águas profundas, vitorioso.

* Jaime Ambrósio é jornalista e escritor; duas vezes vencedor do Prêmio Cruz e Sousa na categoria contos, é autor de As Aldeias de Todos Nós (2011) e As Vísceras e o Coração (histórias de homens e de bichos) (2002) de onde extraí este conto que mais parece crônica.

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About Norma Bruno

Vivo na Ilha de Santa Catarina desde que nasci. Sou de aquário, portanto já nasci aluada, mas contraditoriamente, não me dou bem com tecnologia e gosto mesmo é de coisa velha. Fiz muitas coisas, deixei para trás outras tantas, tenho muito por fazer. Coleciono cenas urbanas, rendas de bilro e revistas antigas. Escritora amadora em todos os sentidos, invento coisas, conto histórias. Livros publicados: - Prosa, quase Poesia - ou vice-verso - Tempo Editorial. 2015 - Cenas Urbanas e Outras Nem Tanto. Bernúncia Editora. 2012 - A Minha Aldeia Editora Papa-Livros. 2004. - Leia Crônicas da Desterro no site www.carosouvintes.org.br

2 thoughts on “Farra: A Batalha do Boi Contra os Homens Embriagados (Quadrilátero da Dor Cercada I)

  1. Ganhei o dia! Como dizemos aqui, seja bem aparecida!
    O que estás esperando para conhecer Santa Catarina? As terras, os climas, as gentes, Santa Catarina é linda e plural! E, por falar nisso, a tua Aldeia… Onde fica?

  2. Norma, outra aquariana – de gostos coincidentes – passou por aqui e se embeveceu com tudo que leu (desculpe a estupidez da rima). Nunca estive em Santa Catarina, mas consegui sentir ainda mais a minha brasilidade através dos seus escritos. A leitura fez valer a minha tarde!

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