Los Nuevos Matadores (Quadrilátero da Dor Cercada II)

Os touros dominam a terra.

São cenas comuns em várias partes: em Espanha cinco mil touros na nova arena de Madrid. Assistem ao flagelo anunciado de mais um humano, descendente da linhagem dos antigos matadores. São selecionados por causa do sangue escuro abundante, que é bebido no final, na celebração orgiástica da vitória. Outra razão é a pura vingança de raça, agora com a inversão de papéis.

Não há como escapar, nem como não morrer. O homem sabe disso, é seu fardo, sina atroz. No meio da arena, palco fatal, arfa como bicho acuado, percorre com os olhos a platéia em êxtase e não encontra nenhum gesto de alento, nenhum corpo gêmeo.

Em volta um círculo fechado de quadrúpedes sedentos, postos ali para formarem uma muralha intransponível de patas e chifres. Mais no centro três touros preparados para o espetáculo.

Primeiro cansam o homem, fazendo-o correr de um lado a outro, sem perspectiva de fuga. Depois atacam, um por vez. O humano é ágil, livra-se da primeira estocada de chifre. Livra-se da segunda, mas não evita a próxima que lhe rasga a coxa. O sangue jorra; o homem engole a dor, mas deixa a baba grossa, de raiva, sair pelos cantos da boca. A platéia muge afoita, quer mais. O homem tenta se esquivar como pode, mas está fraco e arrasta uma perna rasgada. Então, exausto, ajoelha-se no centro da arena e deixa-se perfurar por 14 estocadas de chifres. O sangue esguicha em profusão e os espectadores berram num clímax trepidante. Os três touros bebem do sangue escuro e saem vitoriosos. O espetáculo vai continuar depois, com outros personagens, touros e homens, até a noite cair.

Até o dia (que chegará) de mais uma insurreição, quando os homens, cansados do jugo, alcançarão, mais uma vez, a supremacia da terra.

Em Espanha, arena de Madrid, voltarão, nos domingos ensolarados, as antigas e alegres touradas. O sangue será outro; a esta, a mesma.

* Jaime Ambrósio é jornalista e escritor, duas vezes vencedor do Prêmio Cruz e Sousa na categoria contos. Autor de As Aldeias de Todos Nós (2011) e As Vísceras e o Coração (histórias de homens e de bichos) (2002) de onde foi extraído este conto.

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About Norma Bruno

Vivo na Ilha de Santa Catarina desde que nasci. Sou de aquário, portanto já nasci aluada, mas contraditoriamente, não me dou bem com tecnologia e gosto mesmo é de coisa velha. Fiz muitas coisas, deixei para trás outras tantas, tenho muito por fazer. Coleciono cenas urbanas, rendas de bilro e revistas antigas. Escritora amadora em todos os sentidos, invento coisas, conto histórias. Livros publicados: - Prosa, quase Poesia - ou vice-verso - Tempo Editorial. 2015 - Cenas Urbanas e Outras Nem Tanto. Bernúncia Editora. 2012 - A Minha Aldeia Editora Papa-Livros. 2004. - Leia Crônicas da Desterro no site www.carosouvintes.org.br

2 thoughts on “Los Nuevos Matadores (Quadrilátero da Dor Cercada II)

  1. O homem contemporâneo está insensível e ausente ao problema do homem. Só nos importamos com nossas próprias mazelas e quando gritamos não há ninguém para escutar. Mas acho que existem mais passarinhos, As crianças atuais já não querem mais matá-los nem mantê-los em gaiolas. Novos tempos? Quem sabe, esperança para os touros de Madrid e de Ganchos.

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