A Paixão de Cristo

Há uma passagem na Bíblia que descreve o sofrimento de Jesus durante o Martírio. No mundo inteiro a narrativa é relembrada por artistas profissionais e amadores durante as comemorações da Semana Santa. Na Ilha, ficaram famosas as encenações de Rio Apa nas areias da Lagoa da Conceição durante a década de 1980. Mas, muito antes, a cena já servia de inspiração para os artistas ilhéus.

Integrante de um grupo de teatro amador, Armando Luiz tinha diante de si o desafio de representar nada mais nada menos que o protagonista da peça “A Paixão de Cristo”, ponto alto das comemorações da Páscoa na cidade.

A apresentação aconteceria no Teatro Álvaro de Carvalho. Pisar o palco que recebeu os maiores nomes da dramaturgia nacional não é coisa para qualquer um, mas ele era bom, daria conta do recado, ninguém duvidava. O problema do Armando era a cachaça. O bicho era chegado!

Após meses de exaustivos ensaios, chegou o grande dia, ou melhor, a grande noite. devidamente paramentado, o Armando andava pra lá e pra cá, ansioso. Soou o gongo. Apagaram-se as luzes do grande lustre de cristal. Silêncio. Primeiro ato; segundo ato. Crucificado, Cristo, sedento, pede um gole de água ao soldado romano. Todos sabem o desfecho da história. A platéia, levada aos limites da emoção, vendo o recipiente se aproximar dos lábios de Cristo e já esperando o grito lancinante de dor, quedou parada, perplexa, ao perceber na fisionomia de Cristo um largo sorriso de satisfação.

 Acontece que, sabedor da inclinação do Armando, um gozador trocou a água que faria as vezes de “fel” por dois dedos da branquinha. Daí que, no ápice do seu calvário, “Cristo” exclamava em júbilo: “Mais fel, mais fel!”.

* História corrente na memória de Florianópolis, confirmada por Luiz Armando Camisão, neto do artista.

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About Norma Bruno

Vivo na Ilha de Santa Catarina desde que nasci. Sou de aquário, portanto já nasci aluada, mas contraditoriamente, não me dou bem com tecnologia e gosto mesmo é de coisa velha. Fiz muitas coisas, deixei para trás outras tantas, tenho muito por fazer. Coleciono cenas urbanas, rendas de bilro e revistas antigas. Escritora amadora em todos os sentidos, invento coisas, conto histórias. Livros publicados: - Prosa, quase Poesia - ou vice-verso - Tempo Editorial. 2015 - Cenas Urbanas e Outras Nem Tanto. Bernúncia Editora. 2012 - A Minha Aldeia Editora Papa-Livros. 2004. - Leia Crônicas da Desterro no site www.carosouvintes.org.br

4 thoughts on “A Paixão de Cristo

  1. Esta história da paixão de Cristo em Florianópolis, quando deram cachaça para o pobre ator que interpretava Jesus, me foi contada pelo meu tio Djalma Telemberg, que, infelizmente, já não está entre nós. É uma coisa, ou “côsa”, bem típica da nossa forma manezinha de brincar com tudo. Bons tempos em que a cidade era só nossa e que podíamos saborear nossas histórias.
    As apresentações do Rio Apa nas dunas da Lagoa eram magníficas. O povão ia assistir e podia também participar. Há algum tempo fiquei sabendo que Rio Apa ainda é vivo e que mora na Lagoa, me parece que está com mais de 90 anos. Saudações Desterrenses. Roney Prazeres @ODesterrense.

    • O que prova que é mesmo verdade. Imagina a cena!
      Sobre o Rio Apa, tive o prazer de ver um documentário sobre ele na TV no final do ano passado. Tem mais de 80 anos, mas continua vigoroso, articulado e carismático, como sempre. Segundo o documentário, mora no litoral de Santa Catarina, não consegui descobrir o local, pois peguei o bonde andando, mas não era a Lagoa. Legal recordar essas coisas.

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