Kit Sobrevivência

Coisa de lá se vão bem uns bons quarenta anos, Fulano, Sicrano e Beltrano reuniam-se toda sexta-feira, sempre em torno de boa comida e boa cerveja, elementos favoráveis à boa conversa e a muita, muita risada.

A conversa corria solta e assim o riso. O tema, livre. Lá pelas tantas, o assunto resvalou para um terreno perigoso. O Fulano, vaidoso como ele só, disse que não podia comer muito, pois estava de regime. Os outros caíram de pau. O Beltrano comia e dizia: – Eu quero é carne gorda! Eu gosto mesmo é de ouvir as veia entupindo! E dá-lhe riso!

Mas o Fulano insistiu, então a conversa desandou. E veio com uns papos de índice de circunferência abdominal, nível disso e daquilo, aquela chatice que todo mundo conhece. Às gargalhadas, o Sicrano confessou: – Dia desses quaj que me mijei-me todo… A barriga não me deixava achar o “ijtimadinho”, cara! Naquele momento eles tiveram a dimensão exata do problema. Sabe como é homem!

Ficou decidido que na segunda-feira, sem falta, agendariam uma visita ao médico pra começar o regime. Para ninguém trapacear, o Fulano se encarregou de agendar as consultas. Todos no mesmo dia, horários consecutivos. Ansioso, ele chegou primeiro, é claro. Depois chegou o Sicrano. – Esse doido, ó! Não é que levou a sério? Por último, chegou o Beltrano trazendo uma marmita nas mãos. Os dois já desandaram a rir porque, em se tratando do Beltrano, boa coisa não havia de ser.

O Beltrano sentou, abriu a marmita e disse: – Tão servidos?  Na marmita uma generosa porção de torresmo ainda quentinho. A gargalhada foi geral.  – Tu táj doido, cara? Se a médica te pega! Disse o Fulano, baixinho. O Beltrano deu de ombros. – Vocês que sabem. Essa é a nossa última refeição decente, acreditem em mim.  E se pôs a comer o torresmo enquanto aguardava.

À lembrança recorrente da marmita, o Fulano se esforçava para conter o riso enquanto a médica falava de colesteróis e triglicerídeos. Com o Sicrano não foi diferente. Devidamente examinados, medidos e pesados, os três receberam as mesmas advertências: a importância das boas escolhas alimentares, a necessidade imperiosa de exercícios diários, a proibição de ingestão de gorduras e de bebidas alcoólicas e a necessidade de mudança de hábitos para todo o sempre.

Saíram do consultório cada qual com uma dieta rigorosa nas mãos e o retorno marcado para dali a uma semana com o compromisso de 1 kg a menos. No elevador, diz o Fulano: – Ô Beltrano!… Aquele torresminho… Sobrou algum?

 

* a partir de uma tirada do meu amigo Edson Ferreira

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About Norma Bruno

Vivo na Ilha de Santa Catarina desde que nasci. Sou de aquário, portanto já nasci aluada, mas contraditoriamente, não me dou bem com tecnologia e gosto mesmo é de coisa velha. Fiz muitas coisas, deixei para trás outras tantas, tenho muito por fazer. Coleciono cenas urbanas, rendas de bilro e revistas antigas. Escritora amadora em todos os sentidos, invento coisas, conto histórias. Livros publicados: - Prosa, quase Poesia - ou vice-verso - Tempo Editorial. 2015 - Cenas Urbanas e Outras Nem Tanto. Bernúncia Editora. 2012 - A Minha Aldeia Editora Papa-Livros. 2004. - Leia Crônicas da Desterro no site www.carosouvintes.org.br

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