O Que Dá Status ao Pobre

Toda semana é a mesma coisa. Quando ele chega para o trabalho, eles já estão lá com suas pequenas queixas. Vêm à “cidade” para receber a pensão de parente analfabeto, comprar o que não se produz no sítio ou pagar a prestação do jogo de estofado. Passam pelo Posto de Saúde movidos por urgências reais ou só pra prevenir, aproveitando a viagem. Chegam cedo para garantir a “ficha”, mas também para prosear, contar causo, botar a conversa em dia.

Demoram-se pouco nos assuntos introdutórios: o tempo, o preço das coisas, o aumento da passagem. Logo vão ao que realmente interessa: suas dores e mazelas. Alguém pergunta: – O menino, o que é que tem? É o suficiente para a mãe desfiar o seu rosário. Imediatamente um homem diz que conhece alguém que ficou curado tomando chá disso ou daquilo. Uma mulher apropria-se dos sintomas do menino e passa a falar do seu sofrimento. – Os médico não descobre o que é… ela diz, entre preocupada e orgulhosa. Percebendo o silêncio repentino, um homem pergunta o que está acontecendo. Uma mocinha, demasiado jovem para estar tão grávida, responde baixinho: – Tá desenganada!

Um velho muito pálido, a face contraída de quem sente dor, geme enquanto a nora reclama do trabalho que ele dá, diz que sobrou pra ela, aquelas coisas. Os outros casos variam entre coisas simples como friera e congestã, sensação de peso nas perna, bicho berne, dor de flato, dor nas junta, terçol, erisipela, cobrero e unhero, surto de piolho, vermes e amarelão, sinusite, cistite e amigdalite,  carne esponjosa, veia entupida, pustema, resfriados e gripes, malijeito, íngua, prolema no fígado, escorrimento, crise de ciático, sarna, alergias e outras coceiras, asma e bronquite, casos graves de bafo e chulé, quemação no stômo, dores de cabeça das mais variadas, mulher com ataque, bexiga caída, dor de croca e nó nas tripa, mulher com calorão, homem negando fogo, neném com sapinho, matóqui baixo, doenças de rua – a lista toda -, até os casos graves de úlcera istuporada, mal-di-parqui, criança afogada com bala, queda da matriz, picada de cobra, dor de corno, parto encruado, homem com dor nos bago, menino acidentado com rojão, moça bonita queimada em explosão, criança atropelada, gente com a cabeça rachada em briga de vizinhos ou de amantes, gente engasgada com espinha de peixe, um caso grave de fimose estrangulada em plena lua-de-mel, mulher doente co’as regra que subiu pra cabeça e não adianta o médico dizer que isso não existe, qualquer mulher sabe quanto pode ser perigoso!

Uma mulher entra gemendo, em trabalho de parto. Um homem diz, imprudente: – Na hora de fazer é ai minha Nossa Senhora dos Prazeres, na hora de ganhá, é ai minha Nossa Senhora do Parto! O barulho foi tanto, que a atendente dá um berro e manda todo mundo calar a boca, pois estão atrapalhando o médico. Por um breve instante, os mais velhos sentem saudade daquelas enfermeiras de antanho, cuja fotografia enfeitava os corredores dos antigos hospitais, a roupa imaculadamente branca e engomada, um casquete sobre o coque, o dedo indicador cruzado sobre os lábios, pedindo silêncio com simpatia e elegância.O tom baixa, mas logo sobe, dada a rivalidade que se instala entre duas mulheres que descobrem possuir o mesmo diagnóstico. Uma desanda a relatar o seu padecimento, contando em detalhes os seus sintomas. A outra diz: – O meu caso é pior! E passa a desfiar as suas agruras, esclarecendo que tem os mesmos sintomas agravados pelos efeitos colaterais por causo dos remédio. Sem se deixar intimidar, a primeira diz que os remédio ela até que podia de tomá, o problema era uma dor que começava na cabeça, depois descia pros pé e a obrigava a passar o dia deitada sem podê fazê o selviço. A outra diz: – Mas o meu caso é muito pior! Ela, além dos efeitos colaterais, também tem essa dor, só que a dela, antes de descê pos pé, aparava nos grugumilho e dava soltura e fastio, além da fraqueza!

E assim seguem as duas disputando, sintoma a sintoma, o título de pior diagnóstico, já quase esgotando o repertório de enfermidades do Código Internacional de Doenças e dividindo a atenção da platéia, a ponto de uma mulher dar a vez para outra ao chamada pelo médico. As pessoas dão a disputa por empatada, quando um velho, incomodado com aquele matraquear de mulher que não tem o que fazer pensa: – Ah, um cocho de rôpa pra lavar! E diz: A minha mulher morreu disso!

Foi um santo remédio. Naquele dia, milagrosamente, as duas saíram dali curadas.

* Versão resumida

 

 

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About Norma Bruno

Vivo na Ilha de Santa Catarina desde que nasci. Sou de aquário, portanto já nasci aluada, mas contraditoriamente, não me dou bem com tecnologia e gosto mesmo é de coisa velha. Fiz muitas coisas, deixei para trás outras tantas, tenho muito por fazer. Coleciono cenas urbanas, rendas de bilro e revistas antigas. Escritora amadora em todos os sentidos, invento coisas, conto histórias. Livros publicados: - Prosa, quase Poesia - ou vice-verso - Tempo Editorial. 2015 - Cenas Urbanas e Outras Nem Tanto. Bernúncia Editora. 2012 - A Minha Aldeia Editora Papa-Livros. 2004. - Leia Crônicas da Desterro no site www.carosouvintes.org.br

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