Às Minhas Raízes Indígenas

Meu avô materno valia-se do nome, Antônio Barbosa Cabral, para enaltecer suas origens. Dizia-se descendente direto de Pedro Álvares, o pretenso descobridor do Brasil.

Mas, se pelo lado paterno descendia de portugueses, pela linhagem materna era descendente de índio, ressaltava. Seu tataravô pertencia a uma tribo no Xingu. Era o cacique, naturalmente. Com ele, meu avô aprendeu a fazer o sinal da cruz em “indígena”, ainda menino. Ele ensinava: “Tapacica! Tapurú! Zumbi! Taparí! Tupi!”

Claro que bastava fazer umas continhas básicas para descobrir o engodo, mas naquele tempo as crianças não sabiam que gente grande também mente, ainda mais o avô da gente. Além disso, semblante sério, ele falava com extrema convicção. Certa vez, no Dia do Índio, contei essa história no Colégio, o que me rendeu um certo prestígio.

Anos mais tarde, revelei aos meus filhos a sua “verdadeira” origem e ensinei-lhes a tal reza. Naturalmente o fiz com o mesmo nível de seriedade. Mas, nesse caso, eu não estava mentindo sobre a sua ascendência: por parte de pai eles são mesmo descendentes de índios (a bisavó) e de negros (o bisavô), além da inevitável carrada de portugueses de ambos os lados que é pra dar o tempero.

Minha tia Narair (nome de índio, segundo o meu avô) uma mulher loira de olhos verdes, linda como as artistas de cinema dos tempos áureos, casou-se com o Zé Luiz, nascido em Palmeira dos Índios, nas Alagoas, descendente de índios e negros, uma mistura que resultou num dos homens mais bonitos que eu já vi, minha tia ensinava: – Gurias, vocês têm que procurar homem moreno pra casar que é pra escurecer um pouco esta família! Só tem gente desquarada!

Segui o seu conselho e, por isso, tenho três filhos morenos – lindos! -, resultado da mistura das linhagens de Pedro Álvares Cabral, de Zumbi dos Palmares e de um grande cacique de uma tribo do Xingu. Quanto à reza que o vô Antônio me ensinou, se queres aprender eu te ensino. Faz aí:

Tapaçica (mão na testa), Tapurú (mão no peito), Zumbi (mão no ombro esquerdo), Taparí (mão no ombro direito), Tupi (mão no peito).

Em honra das minhas raízes indígenas, pelo Dia do Índio!

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About Norma Bruno

Vivo na Ilha de Santa Catarina desde que nasci. Sou de aquário, portanto já nasci aluada, mas contraditoriamente, não me dou bem com tecnologia e gosto mesmo é de coisa velha. Fiz muitas coisas, deixei para trás outras tantas, tenho muito por fazer. Coleciono cenas urbanas, rendas de bilro e revistas antigas. Escritora amadora em todos os sentidos, invento coisas, conto histórias. Livros publicados: - Prosa, quase Poesia - ou vice-verso - Tempo Editorial. 2015 - Cenas Urbanas e Outras Nem Tanto. Bernúncia Editora. 2012 - A Minha Aldeia Editora Papa-Livros. 2004. - Leia Crônicas da Desterro no site www.carosouvintes.org.br

2 thoughts on “Às Minhas Raízes Indígenas

  1. Delícia, Norma. Gostei mesmo. Somos todos índios, na verdade. Na minha família também há descendentes bugres e portugueses. Abraço do Amorim

  2. Esta mistura é que nos faz povos especiais. E não somos nós brasileiros que dizemos isto, são os de fora. Parabéns por tão divertida página de tua lavra. Fatima/Laguna

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