A Batedeira, O Liquidificador, o Radinho de Pilha

Num tempo em que eletrodoméstico era algo incomum e caro, o Fernando enchia a Gika de novidade. Nas datas comemorativas ele não trazia flor, nem caixa de sabonete, nem corrente com medalhinha, nem corte de fazenda, nem cartão com poesia. Trazia liquidificador, batedeira, enceradeira, panela de pressão.  Isso de ônibus.  Na vizinhança, era tido como um excelente partido apesar do noivado interminável. Interpelado, ele dizia que só casava depois de montar a casa toda, pois queria dar à noiva o de bom e o de melhor.

Nos dias comuns, caminhava alheado carregando um radinho de pilha ligado em bom volume. Radinho é maneira de dizer, pois rádio portátil naquele tempo tinha quase o tamanho de uma TV de doze polegadas. As más línguas o chamavam de exibido, caipira, o que, a bem da verdade, era uma injustiça. O Fernando era é moderno. Fosse hoje, diriam que era um apaixonado por tecnologia.

A família da Gika fazia gosto. Principalmente a futura sogra que bem sabia o que é lavar, passar e cozinhar para uma família. O que incomodava eram as brigas. O Fernando era de lua. Quando estava bem era um doce de coco, mas quando estava mal, era o cão!

Quando eles brigavam, a vizinhança logo ficava sabendo, pois lá descia o Fernando com a caixa do liquidificador debaixo do braço. As pessoas riam e já ficavam esperando pelos desdobramentos. No dia seguinte, e nos demais, ele viria buscar o resto. Uma caixa por dia.

Nessas idas e vindas acontecia um olhar de lado, um suspiro, a Gika chorava – o Fernando não aguentava ver a Gika chorar! – seguia-se um pedido de desculpas e depois a promessa de que não brigariam nunca mais… Podia contar: no dia seguinte lá vinha o Fernando subindo a rua com o liquidificador debaixo do braço. Nos dias subseqüentes traria o resto. Uma caixa por dia.

Acabaram casando, pois a Gika apareceu grávida e naquele tempo era assim: fez mal, casou!  Viveram às turras, por muitos anos, até que a Gika cansou e botou o Fernando pra correr. A vizinhança viu que era definitivo quando ele desceu a rua de mãos vazias.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s