A pé na Ponte

Flávio José Cardozo

A Ponte, a gente… Nos ermos da minha aldeia, falava-se que na capital havia uma ponte de ferro que atravessava o mar. Como não conhecia o mar (constava apenas que era uma água sem fim), eu imaginava a Ponte como um mágico travessão entre o nosso mundo e um enigma chamado ilha. Ouvi depois vozes irônicas dizerem que ela ligava o nada a coisa alguma. De todo modo, por longo tempo vivi a impaciência de vê-la.

Já falei um dia da pena que tenho dos que nasceram à beira-mar: eles não provaram a inexprimível sensação de descobrir o mar. De minha mulher, coitadinha, a pena é dupla: não apenas nasceu à beira-mar como nasceu bem diante da Ponte, cresceu vendo-a todos os dias, nunca soube o que é conhecer um mito desses aos treze, catorze anos, como se deu comigo. Foi, sim, uma tarde única. Boquiaberto sob as inquietantes colunas, tolo diante dos potentosos elos e correntes, temeroso com a água entrevista pelo vão das tábuas – vencer a Ponte naquele primeiro dia foi como ir à África.

Vou andar a pé pela Ponte, é só uma questãozinha de organização do tempo – e é preciso que esse tempo não seja avaro, se solte em longas demoras. O olhar não pode se incomodar com as manchas dos prédios ou com quaisquer outras manchas na paisagem: o supremo prazer será pegar na saída um poente do mais puro outro catarina. A pé, curtindo cada passo, com a ternura de quem não pisa mas afaga, vou cuidar de ver se amiúdo uma amizade que já não vem sem tempo.

Fique a Ponte, pelos séculos que hão de vir, para os pedestres, as bicicletas, as carrocinhas que ainda andam pelo mundo espalhando a repousada beleza das coisas simples.

Do livro Senhora do Meu Desterro. Florianópolis. Lunardelli : Fundação Franklin Cascaes,  1991.

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About Norma Bruno

Vivo na Ilha de Santa Catarina desde que nasci. Sou de aquário, portanto já nasci aluada, mas contraditoriamente, não me dou bem com tecnologia e gosto mesmo é de coisa velha. Fiz muitas coisas, deixei para trás outras tantas, tenho muito por fazer. Coleciono cenas urbanas, rendas de bilro e revistas antigas. Escritora amadora em todos os sentidos, invento coisas, conto histórias. Livros publicados: - Prosa, quase Poesia - ou vice-verso - Tempo Editorial. 2015 - Cenas Urbanas e Outras Nem Tanto. Bernúncia Editora. 2012 - A Minha Aldeia Editora Papa-Livros. 2004. - Leia Crônicas da Desterro no site www.carosouvintes.org.br

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