O Muitos Mares de Florianópolis

Marmanso. Praia de Sambaqui. Foto:Carolina de Assis

Mas, afinal, quantas praias tem Florianópolis? 100 ou 42? Me pergunta o turista. E eu lá sei?

Pois que fique  à vontade do freguês caso possa ou não possa visitá-las todas! Pra nós tanto faz como tanto fez! O que a gente sabe é que  são lindas e que muitos são os mares. Qué vê só? Quem ensina é o mestre Flávio que manja desses assuntos.

“No sábado azul, me sentei com seu Pedrinho diante do mar dos Ingleses. Preseamos. Eu, mau aluno gazeteiro, ele, mestre feliz quando alguém especula suas coisas, seus mares de antigamente. A correria da vida nossa de cada dia nos rouba essas preciosidades.

Recapitulei, numa hora de conversa, minha vasta ciência marítima. Aquela minha meia dúzia de palavras… Perguntei a Seu Pedrinho pelos peixes, instrumentos, ventos. Sem método, só para aproveitar o dia e a hora, só para ouvir outra vez belas velharias.  Os surfistas trouxeram novidades como junk e flat para dizerem que o mar está agitado ou liso, mas esse é um vocabulário de iniciados nas pranchas, um jargão classista, modernoso. Nós, os simples, nos deliciamos é com a sonoridade da terminologia bem manezinha, coisa de séculos. Os estados do mar, por exemplo.

– Seu Pedrinho, quando o mar é manso se diz que é um mar chão, é isso?

Seu Pedrinho confirmou que era aquilo mesmo. Fiquei radiante. Nada como nós, os entendidos… Mar chão, mar manso… Penso numa palavra que nem sei se existe: marmanso. Já não existe maralto? Por que não marmanso? Substantivo e adjetivo: paz de marmanso, o olhar marmanso da amada…

– E quando está bem parado, bem chão, aí é mar deleite, Seu Pedrinho?

– Certo, é mar de leite. Bem paradinho é mar de leite.

Poxa, eu estava bom nesse sábado. Prossegui, afirmativo:

– E mar que ondeia pouco é mar de vaga curta.

– Isso mesmo. De vaga curta. Mar pequeno.

– E o contrário é mar de vaga larga. Mar vivo.

– Mar crescido, mar cavado – acrescentou Seu Pedrinho.

– Mar mexido, encarpelado – juntei.

– Agastado, enrolado – completou Seu Pedrinho.

Falei dos surfistas:

– Quando o mar está pesado, os surfistas dizem que o mar está storm. Não deu pra brincar, eles já estão dizendo que é storm, tempestade.

– É, eles têm o jeito deles de falar. E gostam tanto do mar. Isso é bom.

Me lembrei de Othon d’Eça: ‘ Vinculava-nos um mesmo sentimento, a mesma força nativa: amávamos da mesma maneira aquela águas selvagens e oscilantes’.

-E quando o mar é tempestade mesmo, Seu Pedrinho, como é que a gente diz?

– Ah, é mar de leva, desfeito. Arrasta barco, arrasta gente.

– E quando ele está agitado, mas não demais, tem uma palavra que eu acho tão bonita…

– Mar roleiro?

– É ele, mar roleiro.

De leite, roleiro, desfeito, storm. Mar de mil faces. No calmo sábado de abril, ele descança das festas do longo verão. Eterno. ‘Velho oceano, és o símbolo da identidade, sempre igual a ti mesmo’, disse alguém, acho que rezando”.

* Flávio José Cardozo aprendeu com Seu Pedrinho e a gente aprende com ele.

Do livro Senhora do meu Desterro. Florianópolis. Lunardelli: Fundação Franklin Cascaes, 1991.

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About Norma Bruno

Vivo na Ilha de Santa Catarina desde que nasci. Sou de aquário, portanto já nasci aluada, mas contraditoriamente, não me dou bem com tecnologia e gosto mesmo é de coisa velha. Fiz muitas coisas, deixei para trás outras tantas, tenho muito por fazer. Coleciono cenas urbanas, rendas de bilro e revistas antigas. Escritora amadora em todos os sentidos, invento coisas, conto histórias. Livros publicados: - Prosa, quase Poesia - ou vice-verso - Tempo Editorial. 2015 - Cenas Urbanas e Outras Nem Tanto. Bernúncia Editora. 2012 - A Minha Aldeia Editora Papa-Livros. 2004. - Leia Crônicas da Desterro no site www.carosouvintes.org.br

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