A Mulher na Janela

Quando era pequena, ela gostava de imitar a mãe enquanto esta fazia o serviço de casa. Às vezes a mãe reclamava o estorvo, o adiantado da hora, mas aí lembrava as palavras da sua avó: – Deixa, Lelé, tu não tás vendo? Quando crescer, essa menina vai ser muito trabalhadeira!

Ela cresceu, mas a profecia da bisavó não se concretizou. Não que ela fosse avessa ao trabalho, não é isso, é que ela gostava mesmo é de ficar na janela matutando, pensando na vida, arreparando no acontecido, proseando co’as pessoas que passavam, dando informe do que sabia. Fazia o serviço, mas o trabalho parece que minava. Então, sempre sobrava alguma coisa por fazer, que ela tinha uma filosofia de vida: ou fazia nos conforme ou não fazia.

Para não perder nada do que se passava na rua, ela tinha colocado a almofada da renda bem perto da janela porque se ouvisse um barulho diferente, bastava ajoelhar e espichar o pescoço para ver se valia a interrupção do trabalho.

Num determinado dia, ela já se sentindo aborrecida – ô pasmacera de vida! -, o telefone tocou. Era uma comadre muito querida que tinha se mudado e ela não via faz tempo, dizendo que estava de passagem pela localidade e que se dirigia à sua casa para dar-lhe um abraço. Em dez minutos chegava.

Ela, então, se deu conta da desarrumação da casa, a pia cheia de louça, as panelas de molho, o móveis cobertos de pó, o assoalho sem um resquício de cera, o banheiro… Não contou tempo! Muniu-se de vassoura, balde, panos de chão, espanador e escovão, cera de assoalho, desinfetante para banheiro, sapólho e lustra-móvis e principiou o trabalho.

Distribuiu os produtos pelo ambiente, aspergiu um pouco de Q-Boa pelo chão para espraiar o cheiro de limpeza, encostou a vassoura e o escovão na parede e colocou o balde bem no meio da sala. O espanador foi depositado em cima de uma cadeira, na cozinha. Foi o tempo de amarrar um pano na cabeça e a comadre bater palmas no portão da casa. Ela gritou: – Entra comadre! Cuidado com o balde…

Desculpa eu vim assim sem avisá, eu não quero ti istrová! E ela: – Qui mi istrová qui nada! É até bom, só assim eu descanso um bucadinho. Vamu pra cozinha fazê um café… Só não arrepara na bagunça, qui hoje é dia de faxina. Senta aqui, disse tirando o espanador de cima da cadeira. – E aí, me conta, quais são as novidade?

O nome dela? Adivinha…

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About Norma Bruno

Vivo na Ilha de Santa Catarina desde que nasci. Sou de aquário, portanto já nasci aluada, mas contraditoriamente, não me dou bem com tecnologia e gosto mesmo é de coisa velha. Fiz muitas coisas, deixei para trás outras tantas, tenho muito por fazer. Coleciono cenas urbanas, rendas de bilro e revistas antigas. Escritora amadora em todos os sentidos, invento coisas, conto histórias. Livros publicados: - Prosa, quase Poesia - ou vice-verso - Tempo Editorial. 2015 - Cenas Urbanas e Outras Nem Tanto. Bernúncia Editora. 2012 - A Minha Aldeia Editora Papa-Livros. 2004. - Leia Crônicas da Desterro no site www.carosouvintes.org.br

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