Casamento (Adélia Prado)

(Para  Fátima que ama peixes e homens que pescam)

Há mulheres que dizem:

Meu marido, se quiser pescar, pesque,

mas que limpe os peixes.

Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,

ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.

É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,

de vez em quando os cotovelos se esbarram,

ele fala coisas como “este foi difícil”

“prateou no ar dando rabanadas”

e faz o gesto com a mão.

O silêncio de quando nos vimos a primeira vez

atravessa a cozinha como um rio profundo.

Por fim, os peixes na travessa,

vamos dormir.

Coisas prateadas espocam:

somos noivo e noiva.

Do livroAdélia Prado – Poesia Reunida“, Ed. Siciliano – São Paulo, 1991.

 

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About Norma Bruno

Vivo na Ilha de Santa Catarina desde que nasci. Sou de aquário, portanto já nasci aluada, mas contraditoriamente, não me dou bem com tecnologia e gosto mesmo é de coisa velha. Fiz muitas coisas, deixei para trás outras tantas, tenho muito por fazer. Coleciono cenas urbanas, rendas de bilro e revistas antigas. Escritora amadora em todos os sentidos, invento coisas, conto histórias. Livros publicados: - Prosa, quase Poesia - ou vice-verso - Tempo Editorial. 2015 - Cenas Urbanas e Outras Nem Tanto. Bernúncia Editora. 2012 - A Minha Aldeia Editora Papa-Livros. 2004. - Leia Crônicas da Desterro no site www.carosouvintes.org.br

3 thoughts on “Casamento (Adélia Prado)

  1. Eu te compreendo! Se precisares de ajuda pra segurar a tabuleta, me avisa. Aquela mulher tem o poder de me fazer sentir sua comadre. Não concebo, por exemplo, ir à Divinópolis sem tomar um café da tarde na casa dela. Por isso nem vou! (Aqui entre nós, melhor continuar a terapia)

    • Sim Cotinha, concordo! Acabo de ligar pro terapeuta. Contei deste ameaço de recidiva. Ele tá no plantão e tô indo pra lá . Benta.

  2. Este poema assim… outra vez, mais uma das tantas vezes relido, fica cada vez mais fluído.
    A Adélia foi a criatura que me fez perceber o que é poesia. Eu cismava que iria pegar um ônibus até Divinópolis e andaria pelas ruas com um cartaz assim: “Preciso ver Adélia Prado é urgente” , e daí se eu a encontrasse diria : – Seu nome verdadeiro é Poesia Viva né? Depois parei com esta idéia. Fiz terapia. Mas se um dia for a Minas Gerais irei a Divinópolis para vê-la e, “como eu não sei rezar, só queria mostrar meu olhar, meu olhar”. Fatima – Daqui da Laguna/ SC

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