Os Oitenta Anos do Meu Amigo Antunes Severo

Conheci o Severo quando eu tinha cinco, seis anos, e lá se vão algumas boas décadas. Meu pai era seu colega de trabalho e o responsável por fazer chegar aos lares dos ouvintes as ondas médias e curtas da Rádio Diário da Manhã, cuja potência atingia o território nacional e também a Argentina, o Uruguai, a América do Norte, a Europa e, dependendo do horário, até o Japão.

Em nossa casa, o rádio estava sempre ligado, não apenas porque, naquela época, não havia televisão em Santa Catarina, nem porque meu pai trabalhava na “Rádio”, mas pela indiscutível qualidade dos programas de auditório, do radioteatro, e da inigualável seleção musical. Na Diário, os locutores eram um caso a parte, os melhores entre os melhores. Entre eles, havia um tal de Antunes Severo, locutor e apresentador do programa Ponto de Encontro, de 2ª a 6ª, das 11 às 11:30, a quem meu pai se referia com especial admiração e respeito.

Certo dia fui com meu pai à “cidade” como se dizia, resolver sei lá o quê, depois que ele desse uma passadinha na Rádio; foi então que conheci boa parte daquelas pessoas a quem só conhecia pela voz ou de ouvir falar. Nomes como Gustavo Neves Filho, Aldo Nunes, Dadica, Adolfo Ziguelli, Zininho, Edgar Bonassis, Quintanilha, Dakir Polidoro, Rozendo Lima, Neide Maria Rosa e outros. Era engraçado, ainda mais para uma menina, conhecer aquela cantora famosa, o animador do programa de auditório, o moço que irradiava a partida de futebol. Ainda mais interessante foi descobrir que a moça que fazia a mocinha na radionovela era totalmente diferente do que eu imaginava e que, na vida real, o mocinho não era exatamente um galã.

Nesse dia, conheci também o “seo” Antunes Severo. Como ele era lindo! Tipo assim uma mistura de Paul Newmann com Burt Lancaster, sabe como? O tempo passou, meu pai se aposentou precocemente, a televisão determinou o fim da Era do Rádio e, com ele, os tempos áureos da Rádio Diário da Manhã. Nunca mais ouvi  falar naqueles nomes, a não ser o do seo Antunes Severo, pelos jornais que, volta e meia davam notícia da sua bem sucedida trajetória como publicitário e professor universitário.

Em 2004, acho, chego eu na casa dos meus pais e, adivinha quem está sentado no sofá? O professor Antunes Severo! Que grata surpresa! Tinha ido entrevistar o seo Lourival para a pesquisa que estava empreendendo, um trabalho exaustivo que abraçou juntamente com Ricardo Medeiros, com a intenção de registrar e preservar a memória do rádio em Florianópolis.

Meu pai nos apresentou, conversamos rapidamente, eu fui tratar da minha vida e eles ficaram lá trocando reminiscências. Seo Lourival ficou entusiasmado e feliz em recordar aqueles bons velhos tempos. Creio que todos os entrevistados ficaram. No ano seguinte saiu o livro Caros Ouvintes Os 60 Anos do Rádio em Florianópolis, uma preciosidade.A pesquisa mostrou que o projeto era maior e acabou resultando no Instituto Caros Ouvintes de Estudos de Mídia www.carosouvintes.org.br

Reencontrei o Antunes Severo em 2009, meu pai morrera no ano anterior. Naquela época eu tinha uma revistaria e, numa manhã de sábado eis que me entra porta adentro um animado casal. Era o “professor” Severo acompanhado da Preta, sua simpática esposa. Pedi licença e disse: – Professor, o senhor certamente não lembra de mim, eu sou filha de um amigo seu, o Lourival Bruno. Foi aquela alegria! De lá para cá ficamos amigos, eu, ele e a Preta que aquela mulher é um doce! Por insistência dele e, depois de muito esforço, consegui abolir o tratamento formal e passei a chamá-lo pelo nome – ele é mesmo jovem demais para ser chamado de “senhor”. Certo dia, ao saber que eu gostava de cometer umas letras, ligou perguntando se eu queria fazer parte do grupo de cronistas do Caros Ouvintes. Ele não tem ideia do que aquilo significou para mim.

Conviver com o Severo e a Preta é uma injeção de alegria, pois a jovialidade, a vitalidade e o entusiasmo são a marca desse casal. Tive prova disso recentemente. Havíamos marcado um convescote aqui em casa – o Severo e a Preta, o Vinícius e a Teresa, e a Maria Augusta, minha querida amiga – para darmos as boas vindas ao inverno; o cardápio: bufê de sopas. Acontece que, desde o dia anterior, o céu desaguara sobre a cidade. Chuva de enchente. O Vinícius já querendo roer a corda – Mané tem medo de sair de casa em dia de chuva! -, eu, preocupada com o destino daquele mundaréu de panelas cheias de sopa até a boca, mandei uma mensagem pro Severo confirmando a presença do casal, mas já esperando a desculpa, afinal, eles são “idosos”, ele às vésperas de fazer oitenta anos, tendo que dirigir do Estreito até a Trindade debaixo de chuva, cancelar seria mais do que justificável, ele respondeu: – Ô se vamos! Já estamos em concentração desde as 14h. Liguei pro Vinícius e disse: – Não tens vergonha? No horário combinado chegaram os dois, Preta e Severo, animadíssimos, com um vasinho de violetas nas mãos. – Oi, mana, chegamos! A noite foi uma delícia, ele a Preta contando histórias e a gente só ouvindo.

Esta semana, minha filha Carolina, que também é jornalista, o conheceu durante uma entrevista. No dia seguinte me enviou uma mensagem. – Mãe, o cara é extraordinário. Cheio de projetos, cheio de idéias, falando do rádio (áudio) como base de toda a nova tecnologia. A gente aqui e ele lá na frente!

Determinado, competente, brilhante, arrojado, visionário, simpático, generoso, inspirador. Assim é o meu amigo Severo. Aquele lindo!

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About Norma Bruno

Vivo na Ilha de Santa Catarina desde que nasci. Sou de aquário, portanto já nasci aluada, mas contraditoriamente, não me dou bem com tecnologia e gosto mesmo é de coisa velha. Fiz muitas coisas, deixei para trás outras tantas, tenho muito por fazer. Coleciono cenas urbanas, rendas de bilro e revistas antigas. Escritora amadora em todos os sentidos, invento coisas, conto histórias. Livros publicados: - Prosa, quase Poesia - ou vice-verso - Tempo Editorial. 2015 - Cenas Urbanas e Outras Nem Tanto. Bernúncia Editora. 2012 - A Minha Aldeia Editora Papa-Livros. 2004. - Leia Crônicas da Desterro no site www.carosouvintes.org.br

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