0800… Fala Quirida!

Sexta-feira, 23:30. Eu acabara de chegar em casa depois de uma semana exaustiva de trabalho. Tudo o que queria era banho, comida e cama, pela ordem.  Pedi uma pizza e me arrastei até o chuveiro. Trinta minutos depois o porteiro interfonou: _ D. Norma, o entregador de pizza… Um minuto depois, a campainha tocou. Abri a porta e…

– Boa noite, quirida! Olha só quem chegou! A tua pizza bem quentinha pra matá a tua fome! E depois vai descansar, vai, que tu táj com cara de cansada!

Um autêntico nativo! Com Certificado de Origem, “legito”, como se diz. Aquilo era inusitado, íntimo demais, contrariava o que dizem as regras do bom atendimento, mas não pude deixar de sorrir e de me sentir reconfortada. Esse jeito amistoso que decorre de usar as palavras no diminutivo, essa facilidade para ficar íntimo (tá bom, é invasivo!). Essa simplicidade em se mostrar como é, tão própria do nosso povo… No dia seguinte, contei a história para uma amiga achando que estava abafando. Pois o que ela me relatou humilhou a minha pobre experiência.

Dirigindo-se a uma festa e atendendo à recomendação de “Se beber, não dirija” ela ligou para o serviço de rádio-táxi. Em poucos minutos o táxi parou na frente do prédio. Ela entrou e deu a direção ao motorista. Tal foi a sua surpresa quando ele, em vez de arrancar, se voltou para trás, o braço apoiado no banco do passageiro, a cabeça sobre o ombro, olhou-a e disse:

Eu vou te dizer uma coisa, que tu táj bonita e cheirosa, tu táj! Eu digo isso com todo respeito! Eu tenho a minha senhora, mas que tu táj bonita tu táj! Então vamos fazer o seguinte: o sol tá que é um maçarico! Vamos levantar o vidrinho que é pra ti não suá e quando tu saí o cheirinho bom ficá aqui dentro.

Já outro dia, aconteceu o seguinte: ela é funcionária pública e, como tal, foi correntista do BESC durante muitos anos. Pois o BESC estava sendo incorporado ao Banco do Brasil naqueles dias e muitas dúvidas agitavam os funcionários da sua repartição. Um dizia que seria necessário fazer um novo cadastramento, outro que o número da conta seria alterado, outro que o cartão ia perder a validade, outro que os contratos de empréstimo seriam renegociados. Tinha até quem falasse em demissão em massa de acordo com uma fonte fidedigna. Prática e objetiva, ela resolveu dar um basta à especulação. – Vamos falar com quem realmente sabe. Vou ligar para o 0800. E ligou.

Preparada para interagir com a “máquina” e seguir aquela irritante liturgia de “se deseja tal coisa ligue 2, se deseja falar com tal setor ligue 3, se deseja isso disque 4, se deseja aquilo disque 5, se deseja falar com nossos atendentes ligue 9 e espere sentado que em pé cansa!”, ficou surpresa quando mal disse: – Boa tarde!, do outro lado da linha um homem respondeu: – Faala quirida! Contando ninguém acredita! Ela conteve o riso e passou a relatar as dúvidas e os boatos que corriam. Ele respondeu admirado: –Táj brincando!

Ela disse que não. Que tinha ouvido falar que as coisas iam mudar e tal e coisa. A conversa se desenrolou e, ao final, a situação havia se invertido: ela é que passara a dar informação ao atendente. A certa altura da conversa, ele, demonstrando preocupação, se saiu com essa: – Não me dij! É até bom eu sabê porque se fô assim eu tô ferrado!

E já ia encerrando a ligação quando ela perguntou: – E eu? O que é que eu faço? Ao que ele respondeu: – Posagora!

Por essa luz que me alumia!

Do livro Cenas Urbanas e Outras Nem Tanto. Norma Bruno. Bernúncia Editora, lançado em outubro de 2012.

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About Norma Bruno

Vivo na Ilha de Santa Catarina desde que nasci. Sou de aquário, portanto já nasci aluada, mas contraditoriamente, não me dou bem com tecnologia e gosto mesmo é de coisa velha. Fiz muitas coisas, deixei para trás outras tantas, tenho muito por fazer. Coleciono cenas urbanas, rendas de bilro e revistas antigas. Escritora amadora em todos os sentidos, invento coisas, conto histórias. Livros publicados: - Prosa, quase Poesia - ou vice-verso - Tempo Editorial. 2015 - Cenas Urbanas e Outras Nem Tanto. Bernúncia Editora. 2012 - A Minha Aldeia Editora Papa-Livros. 2004. - Leia Crônicas da Desterro no site www.carosouvintes.org.br

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