Quem Gosta de Revista Levanta a Mão!

Revista O Cruzeiro, Editora Bloc, ed. 1960

Revista O Cruzeiro, 1954. Exemplar da minha modesta coleção

O “dia do pagamento” era um dia especial. Meu pai chegava do trabalho e, após o banho, sentávamos para jantar. Em geral havia uma sopa, mesmo nos dias de calor, depois tomávamos café com pão, meus irmãos e eu, impacientes, só esperando um sinal para corrermos esbaforidos, disputando as janelas do carro. A briga era inevitável, a mãe ralhava, o pai só olhava pelo retrovisor. O destino era a Praça Fernando Machado, no centro, onde havia uma banca de revista.

A euforia era justificada. Em dia de pagamento, cada um podia escolher a revista que quisesse. Meu pai comprava a revista O Cruzeiro, de atualidades, Quatro Rodas e  Brucutu, uma HQ de que ele gostava, eu também gostava, o Almanaque do Fantasma ou do Mandrake. Minha mãe comprava Figurino, que trazia riscos de bordado, modelos e moldes de vestidos. Meus irmãos escolhiam um gibi, geralmente Pato Donald, Zé Carioca, Pateta ou Mickey. Eu preferia aquelas revistinhas de recortar vestidinhos de boneca, de papel, não lembro o nome, e o gibi do Tio Patinhas, principalmente por causa da Maga Patológica.

Adoro a Maga! Acho a Maga Patológica simplesmente um charme, apesar do gênio de cão! Como não se render àquela bruxa lançadora de “tendência”,  montada em seu indefectível pretinho básico, scarpim de saltinho, cabelo de chapinha e longos cílios, o que são aqueles cílios?  Eu me divertia quando ela, fracassando no ardil, se fazia de boazinha para seduzir o velho ranzinza. Na verdade, na verdade, a gente sabe, o que é existe ali é uma grande paixão enrustida. A “Moeda” é mera desculpa para ficarem pertinho um do outro. Dupla do barulho!

Líamos muito, apesar de não termos livros em casa. Tínhamos revistas. Muitas revistas. Na casa da vó Chica também tinha revistas, de um tipo que, logo logo,  passei a gostar mais do que os gibis. Minha vó colecionava fotonovelas – Capricho, Sétimo Céu, Ilusão -, e escondia as revistas no balcão da sala de jantar. Falei sobre isso na crônica Os Paninhos da Vó Chica publicada no livro Cenas Urbanas e Outras Nem Tanto:

Eu queria ler, ela dizia que não podia porque tinha “beijo”. Eu insistia, ela me mandava ir brincar. Com a ponta da faca arranjei um jeito de abrir a porta do armário e lia escondido, depois colocava a revista no lugar, exatamente como estava. Aprendi a gostar de romance lendo as revistas da minha vó.

Adulta, passei a colecionar revistas antigas. Mais tarde me tornei jornaleira, mas fui vencida pelos novos tempos e suas tecnologias revolucionárias. De vez em quando me pergunto: em tempos de ipads, tablets e redes sociais, haverá, espaço para pessoas como eu? Dia desses gritei:

Quem gosta de revista levanta a mão!

Duas pessoas responderam. Eis os depoimentos…

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About Norma Bruno

Vivo na Ilha de Santa Catarina desde que nasci. Sou de aquário, portanto já nasci aluada, mas contraditoriamente, não me dou bem com tecnologia e gosto mesmo é de coisa velha. Fiz muitas coisas, deixei para trás outras tantas, tenho muito por fazer. Coleciono cenas urbanas, rendas de bilro e revistas antigas. Escritora amadora em todos os sentidos, invento coisas, conto histórias. Livros publicados: - Prosa, quase Poesia - ou vice-verso - Tempo Editorial. 2015 - Cenas Urbanas e Outras Nem Tanto. Bernúncia Editora. 2012 - A Minha Aldeia Editora Papa-Livros. 2004. - Leia Crônicas da Desterro no site www.carosouvintes.org.br

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