A Praça

Banca do seo Arthur Beck.  Foto cedida pelo jornalista  Henrique Ungaretti.
Banca do seo Arthur Beck. Foto cedida pelo jornalista Henrique Ungaretti.

Henrique Ungaretti

Sempre gostei muito de banca de revista. Quando criança consumia a Recreio. Trazia passatempos, figuras para colorir, pontos para ligar. Havia uma revista sobre animais selvagens de fotos muito grandes e detalhadas que meu pai comprava para levar a meu avô quando visitava a Laguna. Eu gostava de ver os bichos. Os gibis não faltavam, é claro. Foi só na adolescência que percebi que ninguém era filho de ninguém em Patópolis. A Disney também publicava uns manuais de capa dura que faziam muito sucesso. Tinha o manual do escoteiro, o manual de bruxaria, o manual do detetive e até o manual do jornalista. Li todos.

A banca de revista só me virou banca de jornal mais tarde. Comecei com O Estadinho, encarte semanal do mais antigo. Certa vez, escrevi um conto sobre insetos que pousavam sobre folhas de árvore como se fosse pista de avião. Foi meu pai quem falou em publicar no suplemento infantil, mas não me lembro se isso aconteceu. D’O Estadinho pulei para a coluna do Beto Stodieck. Aquele era um tempo em que o colunista dava o preço do amor na praça XV e a gente se divertia. Com o Beto de O Estado aprendi a segurar uma folha grande de jornal. Dali, passei às outras seções. A conquista do jornal acompanhava a minha descoberta do mundo. Quando me dei conta, já estava adulto e lia o mais antigo da capa à contracapa.

Jornais e revistas nem sempre foram vendidos em bancas. O pioneiro O Catharinense era vendido em farmácias. A primeira banca de periódicos impressos de Florianópolis teria sido a banca do Beck? O ilhéu costumava comparecer, no final de todas as tardes, à portinha de frente para a praça XV onde se punha à espera da chegada dos jornais do Rio de Janeiro. Na década de 1960, o proprietário, seu Arthur Beck, precisou desocupar o imóvel. O negócio era tão importante que o despejo causou comoção. A Câmara dos Vereadores interveio e a prefeitura permitiu que se instalasse na própria praça.

Alguma coisa se perdeu dos florianopolitanos enquanto a cidade crescia destrambelhada. Alguma coisa também se perdeu de nós na imprensa local. Mas essa é outra conversa. O fato é que não se vende mais amor na praça XV. Nas ruas do Centro, uma sessão de sexo pode custar desde R$ 20 até a própria vida.

Anúncios

11 comentários sobre “A Praça

  1. jean

    Professor Nereu, meu e-mail é Jean Hermógenes Saibro, sou bisneto de José Garrido Portella, o Espanha. Estou fazendo a pesquisa da família. Por gentileza anote meu e-mail. Será um prazer conversar com o senhor: Jeansaibro@gmail.com

  2. Jean

    Norma, segundo parentes, a charutaria ficava na Rua da República, nº 7. Era muito conhecida pela variedade de produtos, todos importados, e o mais engraçado é que o proprietário não era fumante. O José Garrido Portela também era envolvido com música. Segundo um artigo do Jornalista Virgílio Várzea, meu bisavô tocava violoncelo na orquestra do maestro Brasilício. Ele, junto com outros comerciantes, foram fundadores da Filarmônica Comercial, que tem sua sede à Rua Conselheiro Mafra. Assim que tiver tempo mando as fotos. Um abraço.

    1. Vou aguardar com ansiedade. Tens a referência desse artigo do Virgílio Várzea? Se tiveres me manda, gostaria de publicá-lo no blog. O que souberes sobre este tema me envia, por gentileza. A proposta do blog é registrar e valorizar a memória da Cidade e da sua gente. Um forte abraço

  3. Jean Hermógenes Saibro

    Bom dia, Norma. Sobre a revistaria, ficava na rua Trajano, estou certo? Eu acredito que ao lado, com as portas fechadas, existia a famosa Charutaria do Espanha, de José Garrido Portela, da Chácara do Espanha. O Domingos Fossari fez um desenho parecido. Por acaso você tem alguma informação? Um abraço.

    1. Olá Jean! Segundo o Henrique Ungaretti, autor da crônica, ao sair desse prédio, a banca do seo Arthur Beck foi para a Praça XV. Foi ele que me consegui essa foto, guardada pelo seu pai o Desembargador e acadêmico Norberto Ungaretti. Fui até a Praça tentar descobrir o local exato, tenho a impressão de que ficava onde hoje está instalada as Casas Marisa. Vou pedir ao Ungaretti filho que esclareça com o Ungaretti pai. Quem sabe ele não brinda com outra crônica? Um abraço.

  4. Te referes à banca do Arthur Beck? Essa foto deve ser da década de 1940. A fachada do prédio foi alterada (e eu ainda me surpreendo!), mas observando os prédios vizinhos, creio que seja o prédio ocupado hoje pelas Casas Marisa. Qualquer dia vou fotografar e voltamos ao debate, ok? bj

    1. Jean

      Norma, a Charutaria do Espanha era de propriedade do meu bisavô, José Garrido Portella, que era conhecido em Desterro pelo apelido de “Espanha” – da Chácara do Espanha, que ficava à Rua Marechal Guilherme. Um parente distante do RJ me enviou a foto acima como referência de onde ficava a charutaria.

      1. Oi, Jean! De retalho em retalho a gente vai costurando as lembranças. Vou retornar ao local e ver se consigo identificar o que tem no lugar da Charutaria. Se tiveres mais alguma foto ou informação, manda. Vamos trocando e chamando gente para ajudar a rememorar. Forte abraço

      2. Nereu do Vale Pereira

        Bom dia Jean,

        Sou historiador e estou a procura de mais informações sobre Garrido Portella, como ele chegou a Ilha de Santa Catarina e mais detalhes sobre a vida dele. Uma vez li que ele era sacerdote, essa informação procede?

        Como poderia entrar em contato consigo?

        Atenciosamente
        Nereu do Vale Pereira

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s