Ciclovias em Florianópolis: pensando como na propaganda de biscoito

Creio que nesse debate sobre as ciclofaixas, incorremos no mesmo tipo de erro que nos distraiu na discussão dos “com lancha versus sem lancha”. Em vez de debatermos o essencial – a retomada da nossa vocação náutica, a revalorização da Memória, a nossa origem navegante, o domínio do “saber fazer” artesanal das lindas canoas baleeiras, um conhecimento que vai se perdendo com a morte dos antigos mestres armadores, as possibilidades econômicas e turísticas do transporte marítimo e sua contribuição para a mobilidade urbana regional -, em vez disso, nos perdemos num bate-boca infrutífero entre possuídos e despossuídos, esquecendo que o mar é para todos.

O mesmo acontece agora com as ciclofaixas. Elas não são eficazes, é verdade, não são seguras, nem em número suficiente. A impressão que se tem é que estão ali para efeito de maquiagem, um “faz de conta” destinado a preencher espaço em relatórios de final de mandato. Muito provável. Mas, uma coisa é inegável: essas “listras” pintadas nos impuseram a discussão.

A reação foi imediata: alguns a favor; a maioria contra. Nas redes sociais, algumas pessoas chegam a ponto de ridicularizar os ciclistas, reclamando o desperdício de espaço numa cidade que se ressente da falta de vagas de estacionamento, uma lógica que prioriza o automóvel.

Mas, esta é a cidade que temos, não temos outra. Boa parte dela fica numa ilha, possui ruas estreitas, calçadas estreitas e, para mais ajudar, um maciço de pedra encravado bem no meio do espaço urbano. Mas quem disse que ciclovias são viáveis apenas em cidades de geografia favorável? Se pensarmos assim, precisamos banir os carros, não as bicicletas.

Nessa marcha, permaneceremos num eterno círculo vicioso: as pessoas não usam bicicletas porque a cidade não tem ciclovias/ciclofaixas eficazes, suficientes e seguras. A cidade não tem ciclovias/ciclofaixas eficazes, suficientes e seguras porque não tem usuários que as justifiquem. Como naquela conhecida propaganda de biscoito.

O que nos falta não é só espaço, é visão estratégica, civilidade e foco no que realmente é essencial.  A cidade mudou, mas precisa mudar muito mais. E mudar para melhor. Florianópolis merece o esforço.

*Em tempo: não sou ciclista. Aliás, nem sei andar de bicicleta. Falo como cidadã.

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2 comentários sobre “Ciclovias em Florianópolis: pensando como na propaganda de biscoito

  1. Norma, virei ciclista a uns 4 meses. Tenho o previlégio de ter quase 90% , casa(prainha) a empresa(Itacorubi) , com ciclovias. Registro total apoio ao seu posicionamento, destacando ainda a necesidade de educação por parte de todos: motoristas, pedestres e ciclistas.

    1. Concordo plenamente. TODOS precisamos de um novo olhar sobre o tema. Esquecem-se, os não-ciclistas, que só temos a ganhar com uma cidade inclusiva e humanizada. Trasporte de massa de qualidade com utilização das vias marítimas e terrestres, ciclovias, serviços de táxi com qualidade e carros particulares para as longas distâncias e rotas alternativas.

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