No Calor da Folia: Ziriguidum!

Carnaval de 1960. Aos seis anos.

Carnaval de 1960. Aos seis anos.

Aquele Carnaval seria especial não apenas porque eu já era uma mocinha, eu  tinha doze anos, mas porque minha prima Iranice viera passar os dias de Momo conosco. Não tás entendendo! Iranice é carioca!

Iranice sabia sambar “de verdade”, como as mulatas das escolas de samba! Hoje isso é comum, mas não naqueles idos 1966. Essa habilidade, por si só, a colocava um patamar acima dos mortais. Por tabela, me elevava também, dada a nossa afinidade genética. Uma questão de potencial, entende?

Tirando uma amiga que nasceu no Rio de Janeiro – embora tenha sido feita aqui e voltado ainda nenenzinha para Florianópolis -, mas, até onde sei, também não é de nada, eu era a única da turma a ter uma carioca legítima na família!

A Iranice, coitada, era instada a sambar o dia todo e bem que tentou me ensinar os passos básicos do samba. O máximo que consegui foi mexer um dos pés. Tá. E daí? Não tem O Samba de uma Nota Só? Pois então: inventei o samba de um pé só. Uma amiga até conseguiu sincronizar ambos os pés, mas… Cadêle o molejo? A Iranice sambava, nosso queixo caía, ela esnobava: – Assim ó! É fácil! Mas, “que me importa que a mula manque? Eu quero é rosetar!”, não tem samba nos “dois pé”, vai com um pé só mesmo! !

Nossa casa era de alvenaria, uma típica duas águas, sala, três quartos, cozinha, banheiro e garagem. No fundo do terreno triangular ficava o rancho, uma construção de alvenaria contígua à casa conforme se usava à época. Hoje se chamaria edícula, anexo. Naquela época era rancho.

O rancho tinha uma segunda cozinha destinada às frituras e etc – a cozinha de verdade ficava na casa, sendo usada apenas aos domingos, mantida sempre impecável para o caso de chegar visita, o trilho de crochê engomado sobre a mesa de fórmica, a geladeira nova, o fogão brilhando, o balcão com os copos de cristal enfileirados. No rancho ficava o fogão velho, a geladeira velha, uma mesa com quatro cadeiras, além da lavanderia, o cocho de roupas, o bujão de gás de reserva, a despensa, a tábua de passar roupas, o armário das bugigangas e a oficina do meu pai, que sempre estava consertando ou inventando coisas.

Enquanto eu cantarolava pela casa, meus pais e tios se preparavam para dar uma volta pela cidade, “pra ver como isso aqui cresceu!”. Antes de sair, a costumeira lista de advertências e o indefectível “- Juízo!”. Ao que respondíamos em coro: – Pode deixar, Pai!!

Mal liguei o ferro de passar para desamarrotar a fantasia que minha mãe fizera, a “luz foi embora!”. – Droga! As amigas chamando, a “mãe” que nos acompanharia já ameaçando desistir, impaciente, levei um bom tempo até aceitar que “vai demorar!”. Amarfanhada, mas animadíssima, lá fui eu levando a prima carioca para a matinê do Clube 6 de Janeiro.

Demais! Enquanto a Iranice reinava absoluta no meio da roda, eu me acabava no meu sambinha capenga. Com os pés doendo e um sorriso feliz, voltamos para casa às 20h, já que às 21h começava o baile dos adultos. Ao chegar, dei de cara com a cara feia do meu pai, as duas mãos na cintura. – Que foi, Pai? O que eu fiz de errado? – O que tu fizesse de errado? Vem ver!

O cheiro de queimado não me permitia respirar. Eu ainda me perguntei -?????, antes do estalo: O FERRO! No afã da folia eu esquecera o ferro ligado. A “luz” voltou. De prancha, em cima da tábua, o ferro foi queimando tudo devagarinho: primeiro o tecido que recobria a tábua, depois o algodão do enchimento, depois foi afundando na própria tábua e ficou por um triz de varar no chão.  Ao lado da tábua, uma pilha de roupa para passar e o bujão de gás, de reserva. A sorte é que, segundo os vizinhos, a luz demorou a voltar e meus pais voltaram cedo.

Moral da história: no calor da folia, eu quase boto fogo na casa!  Ziriguidum!

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About Norma Bruno

Vivo na Ilha de Santa Catarina desde que nasci. Sou de aquário, portanto já nasci aluada, mas contraditoriamente, não me dou bem com tecnologia e gosto mesmo é de coisa velha. Fiz muitas coisas, deixei para trás outras tantas, tenho muito por fazer. Coleciono cenas urbanas, rendas de bilro e revistas antigas. Escritora amadora em todos os sentidos, invento coisas, conto histórias. Livros publicados: - Prosa, quase Poesia - ou vice-verso - Tempo Editorial. 2015 - Cenas Urbanas e Outras Nem Tanto. Bernúncia Editora. 2012 - A Minha Aldeia Editora Papa-Livros. 2004. - Leia Crônicas da Desterro no site www.carosouvintes.org.br

6 thoughts on “No Calor da Folia: Ziriguidum!

  1. Prima!!! Que foto linda!!! Das primas, que as outras não me ouçam, você sempre foi a mais bela. Depois de mim, é claro. rsrsrs

  2. Pôxa quanta emoção! Mas o que sinto nesta narradora é muito senso de humor e muita brasa embaixo desse samba de um pé só. A crônica está um lindeza e a menina de turbante um encanto.
    Embora seja carnaval isto não é confete, é que ficou tudo muito lindo isso por aqui viu?
    Fatima/Laguna

    • Querida Fátima! Já aprendi a mexer os dois “pé”… O difícil é sair do lugar. Mas, esse ano, se
      Deus quiser, eu aprendo! Saudações momescas!
      Ziriguidum!

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