Os Paninhos da Vó Chica

Cenário ilustrativo montado na localidade do Morro das Pedras. Foto: Carolina de Assis, a bisneta.

Cenário ilustrativo montado na localidade do Morro das Pedras. Foto: Carolina de Assis, a bisneta.

(Para a Vó Chica, que hoje faria 100 anos)

Sempre quis saber para que serviam aqueles paninhos brancos quarando, enfileirados, ao Sol. Um dia perguntei e minha vó respondeu: – São os meus paninhos… O tom da voz dizia pra eu não levar a coisa adiante. Morei na casa dela dos sete aos nove anos por causa da proximidade do colégio das freiras, meus pais moravam no outro lado da Ponte, na Ilha. Era longe.

A casa da vó Chica era pobre. A privada ficava numa casinha, no quintal. Eu tinha medo de cair no buraco. Dentro de casa tinha um quartinho de banho onde havia uma pia, um pequeno armário e uma bacia. Não havia chuveiro.  A bacia era grande, dava pra “entrar dentro”, a água quentinha de chaleira. Os guris tomavam banho primeiro porque menino não pode se lavar depois de menina, se não vira florzinha. Era chato esperar.

Minha vó era triste e fazia tudo por último. Tomava banho por último, dormia por último, comia por último. Primeiro ela atendia todo mundo. Um pouco, eu acho, para cuidar da gente, outro pouco para poder ficar em paz, sozinha. Fazia o prato e entregava de mão em mão. Prato feito: arroz, pirão de feijão, bife, salada. Carne não podia repetir, era muita gente naquela casa, e ainda tinha eu e mais um tio, casado, que trabalhava no comércio e diariamente vinha almoçar na casa da minha vó. Se os rapazes pediam mais, ela dizia que tinha que pensar nos outros. Eu mentia pra ela escondendo o bife embaixo do pirão pra fazer de conta que ela tinha esquecido. Ela mentia pra mim fazendo de conta que acreditava.

Minha vó vivia remendando roupa. À noite ela sentava na cozinha com o colo cheio de meia furada. Ela enfiava um ovo de galinha dentro da meia para esticar o furo e ia cosendo ao redor. Eu achava engraçado. Ela não. Às vezes ela reclamava: – Quem remenda vive remendado… Acho que Deus não ouvia.

Minha vó era triste, não lembro de tê-la visto sorrir, mas gostava muito de mim e eu dela. Sem mais nem menos me chamava e me fazia sentar na cozinha. Ficava em pé atrás de mim e me fazia cafuné de um jeito estranho, mexendo o dedo em círculos. Eu não queria ir não, mas depois que estava lá, era tão bom… As gurias me chamavam de volta, mas cadê vontade de sair dali? Quando ela dava a sessão por encerrada, lá ia eu, bocejando, brincar de volta.

De vez em quando ela ficava na porta da cozinha me observando enquanto eu caminhava para o fundo do terreno. Eu me virava e lá estava ela. Eu sorria, ela não. Uma vez ela disse que eu tinha as pernas parecidas com as da minha tia que fugiu de casa (meu avô era brabo, quando bebia dava discurso, falava mal dos políticos, dizia berrando: – Se eu fosse governadorSe eu fosse presidente da República… Minha vó dizia: – Mas tu não és, homem! Pega o rosário e vai rezar pra pedir perdão dos teus pecados… Minha vó detestava escândalo, tinha vergonha dos vizinhos. Ele não deixava a minha tia sair para dançar, então ela foi embora pro Rio de Janeiro). Acho que era por isso que minha vó me chamava pra perto dela.

Um dia eu acordei mais cedo e fui ao quartinho lavar o rosto, então desvendei o mistério. Pela manhã, minha vó se lavava na pia. Baixava as alças da combinação até a cintura e esfregava o dorso – costas, braços, pescoço, seios, axilas – com os tais paninhos ensaboados. Minha vó era baixinha, mas tinha seios grandes, necessários para nutrir tanta gente em volta dela. Quando me viu, ralhou comigo porque entrei sem bater. Acho que foi mais por obrigação, pois ela não fez cara feia e nem falou mais nada.

Minha vó era triste, mas devia ter sonhos só dela. Adorava romance e fotonovela – Capricho, Sétimo Céu, Ilusão – guardava as revistas chaveadas no balcão da sala de jantar. Eu queria ler, ela dizia que não podia porque tinha “beijo”. Eu insistia, ela me mandava ir brincar. Com a ponta da faca arranjei um jeito de abrir a porta do armário e lia escondido, depois colocava a revista no lugar, exatamente como estava. Aprendi a gostar de romance lendo as revistas da minha vó.

Eu também me lavo na pia. E, sempre que faço isso, lembro da minha vó. Também tenho os olhos caídos, como os dela. Hoje, no espelho, me dei conta de que ela morreu com a minha idade. Na época, eu tinha quinze anos. Fiquei triste, chorei, mas achava que ela era velha suficiente para morrer. Hoje sei que morreu muito cedo. Às vezes eu fico triste como a vó Chica. Então me acho velha suficiente pra morrer também. Às vezes não. Ultimamente até que eu ando bem felizinha.

 

P.S: meu amigo Henrique também tinha uma vó Chica só pra ele. Ele me disse que a avó e o avô passeavam de mãos dadas pelo cafezal que tinham no terreno de casa. Amor bom é simples. Um dia o vô morreu, então ela deu pra passear sozinha. Tempos depois foi a vez dela ficar doente; nesse tempo eu já conhecia o Henrique. Um dia o convidei para um café, ele disse que não podia; tinha que ir ao hospital levar água do mar pra avó descansar as pernas. Amor é isso! Semanas depois recebi uma mensagem: – A Vó foi morar no Cafezal… Achei lindo! Sempre que se encontra, a gente fala da “Vó Chica”.

Crônica do livro Cenas Urbanas  e Outras Nem Tanto. Bernúncia Editora,  2012.

Anúncios
This entry was posted in Uncategorized and tagged , , by Norma Bruno. Bookmark the permalink.

About Norma Bruno

Vivo na Ilha de Santa Catarina desde que nasci. Sou de aquário, portanto já nasci aluada, mas contraditoriamente, não me dou bem com tecnologia e gosto mesmo é de coisa velha. Fiz muitas coisas, deixei para trás outras tantas, tenho muito por fazer. Coleciono cenas urbanas, rendas de bilro e revistas antigas. Escritora amadora em todos os sentidos, invento coisas, conto histórias. Livros publicados: - Prosa, quase Poesia - ou vice-verso - Tempo Editorial. 2015 - Cenas Urbanas e Outras Nem Tanto. Bernúncia Editora. 2012 - A Minha Aldeia Editora Papa-Livros. 2004. - Leia Crônicas da Desterro no site www.carosouvintes.org.br

12 thoughts on “Os Paninhos da Vó Chica

  1. Ah, essas avós maravilhosas… Eu tive duas fabulosas, um dia te mando as crônicas sobre elas. Uma era baixinha, analfabeta, mas era uma criatura sábia, imensa em sua sabedoria e generosidade, a Vó Pequeninha. A outra, a Vó Grande, aparentava ser triste, também, mas era forte e guerreira, acompanhava o tempo e estava sempre do nosso lado. Saudades, também.

  2. Adorei ler o seu texto. Parabéns!! No decorrer da leitura lembrei-me da minha querida vó Elza

  3. ao ler percebo que minha mãe tinha muitas coisas em comum com nossa vó por ex.se preocupar com os outros,ela sempre era a última se preocupava com as pessoas menos com ela,também tinha uma tristeza em seu coração.nunca a achei uma mulher feliz.E também de pouco carinho,sempre achei que ela escondia algo de nós.Graças a Deus sou o oposto dela ,sou muito feliz,amo carinho e nunca me preocupei com os outros.Dos seus tres filhos o Marco é o mais parecido com a minha mãe.bjs parabéns pela linda mensagem

    • Tive o privilégio de conviver com a tia Itacy quando morei na casa da Vó Chica. Ela já era uma moça e eu dormia no quarto com ela e a tia Ana Maria. Quando ela se arrumava para sair, quando se “pintava” – naquele tempo não se usava dizer “maquiagem”, dizia-se “passar pintura”-, eu grudava nela, só olhando, aprendendo a ser mulher. Aprendi a ser vaidosa com a minha mãe, que passava batom para ficar em casa, mas, com a tia Itacy também.

      Eu sempre a achei bonita, charmosa, educada, nunca vi a tia falar mal de ninguém, dizer um palavrão, nunca a vi de cara feia. Mas concordo contigo que ela me parecia triste, se bem que, de vez em quando, era bem engraçada. Quando era criança, eu sentia que ela gostava muito de mim. Depois, quando eu era jovem, alguma coisa aconteceu. Passei a senti-la distante. Eu sempre gostei muito dela. Bom lembrar dessas coisas, né? bj

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s