Uma Esmola pelo amor de Deus!

Cansei de vê-lo caminhando pelas ruas do Centro, a bengala adivinhando obstáculos. Não sei o seu nome. Era um moreno alto, quarenta e tantos anos, nem gordo, nem magro, cabelos pretos, crespos, fartos. A cor dos olhos também não sei dizer, já que usava óculos escuros, como a maioria dos cegos.  Não parecia pobre de marré, marré, marré, sempre de paletó, mas pedia esmolas.

Um belo dia o vi na Beira Mar, próximo ao Koxixo’s, surpresa que tivesse chegado tão longe. Estava apoiado no encosto de um dos bancos de cimento que margeiam a avenida, perto de onde eu estacionara. Pensei em oferecer-lhe carona até o ponto de ônibus ou a outro lugar que fosse perto, pois uma chuva fina começara a cair.

Nesse momento meu celular tocou. Entretida na conversa, esqueci do pobre do cego. Minutos depois, ao olhar para o lado, percebi que vinha em direção ao meu carro. Imediatamente comecei a vasculhar a bolsa em busca de um trocado para a esmola.

Ele se aproximava devagar, titubeante, naquela expressão corporal própria dos deficientes visuais, a bengala abrindo espaço e proteção, enquanto eu apressava a busca, o pescoço torto segurando o telefone contra o ombro, para liberar as mãos. Na urgência, despejei o conteúdo da bolsa sobre o banco do passageiro na esperança de encontrar uma moedinha que fosse.

Chegou ao carro no momento exato em que eu descobri que havia esquecido o portamoedas em casa. Bateu no vidro com a bengala, o rosto agora voltado em minha direção. Instintivamente, fiz que não com a cabeça. Ele fez o sinal de ok, como quem diz – Tudo bem!

Enquanto eu processava a experiência, ele percebeu o fora que deu. Virou-me a costas, dobrou a bengala e saiu troteando.

_ FDP! Vagabuuundo! Cachorro! Sem vergooonha! Vai trabalhar, vagabuuundo! Gritei, pela janela aberta, morta de raiva. Ele fez que não era com ele. E o povo achando que eu era louca.

Crônica do livro Cenas Urbanas e Outras Nem Tanto. Bernúncia Editora. Florianópolis, 2012.

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About Norma Bruno

Vivo na Ilha de Santa Catarina desde que nasci. Sou de aquário, portanto já nasci aluada, mas contraditoriamente, não me dou bem com tecnologia e gosto mesmo é de coisa velha. Fiz muitas coisas, deixei para trás outras tantas, tenho muito por fazer. Coleciono cenas urbanas, rendas de bilro e revistas antigas. Escritora amadora em todos os sentidos, invento coisas, conto histórias. Livros publicados: - Prosa, quase Poesia - ou vice-verso - Tempo Editorial. 2015 - Cenas Urbanas e Outras Nem Tanto. Bernúncia Editora. 2012 - A Minha Aldeia Editora Papa-Livros. 2004. - Leia Crônicas da Desterro no site www.carosouvintes.org.br

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