Canoa Bordada

 (No Dia dos Enamorados)

Foto: Maria de Fátima Barreto Michels
Foto: Maria de Fátima Barreto Michels

Ela já estava na praia quando as primeiras janelas se abriram na pequena vila. Passou o dia zanzando, indiferente às pessoas que a observavam curiosas. À aproximação da noite, alguém alertou que a mulher continuava por lá. Isso era incomum naquele tempo. Intrigados, decidiram que alguém deveria falar com ela.

Mestre Pedro foi o indicado não por ser um dos mais velhos entre os pescadores, nem mesmo pela autoridade que detinha como mestre do barco, mas por ser o único sem família, daí que não corria o risco de deixar viúva, caso a mulher fosse encantada.

Mestre caminhou apressado observando que a mulher já ia longe. Sabia que na entrada da noite a perderia de vista, por isso caminhava com a cabeça desprovida de pensamentos, como convém nessas horas, a respiração ofegante abafada pelo barulho dos seus pés na areia. Mantinha o olhar na silhueta recortada contra o céu adornado de cores, ocupado em não perdê-la entre os azuis, vermelhos, laranjas, verdes e violetas de todos os matizes. Finalmente conseguiu alcançá-la e chamou.– Hei! Ela voltou a cabeça e ele se sentiu aliviado, pois, no fundo temia que a mulher cometesse um desatino.

Do que se desenrolou, nunca se soube o exato da prosa. O fato é que Mestre Pedro voltou trazendo consigo a mulher estranha. Sem disfarçar a curiosidade, as pessoas ouviram atentas quando ele a apresentou: – Galega –, viúva de Mestre Bento, um camarada seu da Armação do Pântano do Sul e disse que ela estava errando, sem rumo, pois não tinha para onde ir. Todos sabiam o que isso significava.

Pelo código de honra dos camaradas, a viúva de um pescador deve ser acolhida por todos, garantido o seu direito na partilha do pescado como se o pescador vivo fosse e tivesse ajudado na caça. Aliviados dos seus temores, todos passaram a ajudar. Por hora ela ficaria no velho rancho onde Mestre Pedro guardava os apetrechos da pesca. Havia ali um catre onde ela poderia se acomodar até que tivessem tempo de construir uma casinhola. Ele se arranjaria no rancho da armação. Ela agradeceu, ameaçando um sorriso, o que lhe trouxeram as mulheres: um boião de café coado, broa de milho, beiju e u’a moringa d’água. Mais não havia.

Ela era de pouca prosa, mas aos poucos foi se integrando à rotina da vila e ao trabalho das mulheres; carpia, lavrava e, cumprindo o que é de lei, todo dia recebia o seu quinhão. Quem o entregava era Mestre Pedro.  Afora isso, pouco se encontravam. Quando muito se avistavam de longe, ele na lida da rede, ela na frente do rancho bastidor de crivo sobre o colo, a urdir. Ele acenava, ela respondia com a mão. Ainda assim, nem chegaram a construir a casinhola. Não que houvesse má intenção da parte dele, isso não, e, de mais a mais, não carecia. Era um homem mundiado, não tinha família, mas nem por isso ficava sem mulher.

Certo dia, chegado tarde do mar, Mestre Pedro foi entregar o pescado fora do horário habitual e a encontrou adormecida na canoa, os cabelos soltos pelos ombros, as mãos em concha sobre o ventre, o velho vestido. Foi ali, naquele exato momento, que ele, pescador experiente, forjado na fúria do vento e do mar, enxergou a beleza daquela mulher estranha. Saiu do rancho apressado, aliviado por não tê-la despertado com sua presença.

O fato é que a partir daquele dia nunca mais a olhou do mesmo jeito. Saber que ela dormia na canoa, algo tão intimamente ligado à sua vida, o deixava excitado, e emocionado. E, já que a aflição não passava, Mestre tomou a decisão. Voltaria ao rancho no dia seguinte, àquela hora aproximada.

Como esperado, a encontrou adormecida. Deitou-se também, colocando nas mãos de Deus o encaminhamento das coisas como fazia diariamente com sua vida. Ela sorriu de olhos fechados, virou de lado abrindo espaço para que ele se acomodasse e disse: – Demoraste tanto…

Naquela noite, canoa bordada transformada em leito de núpcias, ela, de viúva de Mestre Bento passou a mulher de Mestre Pedro, sem que nunca se soubesse qual o seu verdadeiro nome. A não ser ele, desde o primeiro dia.

Do livro Cenas Urbanas e Outras Nem Tanto. Bernúncia Editora. Florianópolis, 2012.

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2 comentários sobre “Canoa Bordada

    1. Caro escritor!

      Tuas palavras me chegam como um precioso incentivo para continuar a contar “estórias” desta terra e destas gentes tão queridas para todos nós!
      Forte abraço, amigo Luiz Carlos Amorim!

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