Entrelinhas

Tudo bem que tenho cá minhas prendas, mas custava já nascer sabendo desenhar? Imaginar uma coisa e dar materialidade ao que até então fora apenas sonhado, olhar para uma coisa e ver outra coisa, inventar uma coisa que nunca existiu… Sou fascinada por quem o faz com facilidade e algum talento; daí que vivi a vida carregando este pote de inveja em meu já tão pesado balaio. Há um mês tomei uma decisão, afinal, não dá pra deixar tudo para a próxima encarnação: iniciei um curso de desenho.

Tudo começou no início do ano, com a perplexidade diante dos bordados artísticos que eu descobria na internet, coisas maravilhosas criadas pelas habilidosas mãos de inúmeros artistas estrangeiros, onde o bordado é uma cultuada tradição, e de gente como a Família Dumont, três gerações de talentosos bordadeiros brasileiros. De repente, uma urgência em meu peito: eu também quero fazer isto!

Saber bordar que é bom, eu não sabia, mas tenho habilidade para costurar a mão, o que já é um começo. Além disso, tinha uma noção rudimentar do bordado adquirida nas aulas de Artes Manuais do colégio das freiras e, principalmente, de observar minha mãe bordando casaquinhos de cambraia para uma loja de roupinhas de neném, quando eu era criança.

O bode é que eu queria fazer trabalhos originais, não reproduzir riscos dos outros e, para isso, seria preciso criar, isto é, desenhar. Mas, o que fazer se a única coisa que sei desenhar, desde os sete anos, é uma singela paisagem, uma casinha branca de uma porta e três janelinhas, com uma chaminé de onde sai um fiozinho de fumaça, tendo ao fundo enormes montanhas repletas de verde iluminadas por um Sol nascente ou morrente (tanto faz, quem se preocupa com estas particularidades é gente grande)? Ao redor da casa um velho caquizeiro carregadinho de fruta e um grande quintal com muitos pássaros e também borboletas. Da rua até a casa, um caminhozinho sinuoso ladeado por florezinhas coloridas. Enquanto relembrava, fui, sem perceber, reproduzindo meu desenho de criança e me descobri sorrindo.  O que vem do coração faz a gente sorrir. Naquele exato momento decidi construir minha Casa Sonhada. Em vez de tijolo e cimento, agulha, pano e linha.

Comecei de forma intuitiva, como quase tudo que faço na vida. E, se no quesito “Técnica” eu merecia nota zero vírgula cinco, no quesito “Alegria” eu certamente levaria “Dez!, nota Dez!”. E assim, mais desmanchando que bordando, linha e pano me levaram à reflexão sobre o significado desta experiência, sobre a minha vida e, aos poucos, uma coisa leva a outra, me vi “sonhando” o Mundo. Apresento-lhes o resultado:

Sonhar a Casa é Sonhar o Mundo.
Sonhar a Casa é Sonhar o Mundo.

Ao final do bordado, uma pergunta se impôs : o que tem dentro da Casa? Dentro da Casa só o que tem verdadeira importância:

Família, Amigos, Cheiro de Pão, Café Coado, Copo de Vinho, Sopa Quente, Café com Leite, Livros, Música, Flor no Vaso e um Cachorro chamado Negrito.

Norma Bruno

Ano da graça de 2013

* o bordado já estava praticamente finalizado quando surgiu a oportunidade de participar da Oficina Matizes Dumont. O Universo conspira! Posso dizer que o  bordado foi feito de forma intuitiva, sem técnica, baseado apenas na memória dos bordados da infância. As hortênsias e as florezinhas ao redor  do Mundo foram acrescentadas após o treinamento. Eu achei bonitinho.

Agora ando sonhando um sonho novo: “Entrelinhas”:  Minha Vida entre o Traço, o Bordado e a Escrita.

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7 comentários sobre “Entrelinhas

  1. Norma Bruno, fico feliz de ter participado pelo menos um pouquinho juntos dessas suas novas descobertas de bordar-escrever-desenhar!! Ficou uma graça o seu trabalho e é emocionante ler as palavras escritas por você, onde parece colocar tanto carinho e afetividade! (publicado com autorização de Maria Helena Diniz, neta de Antônia Diniz Dumont , bordadeira e fundadora, junto com seus cinco filhos, dos Bordados Matizes Dumont).

  2. Norma Bruno, o teu microcosmo é perfeito e lindamente bordado.Quem precisa mais do que uma casinha, arvore,passarinho, e um sol que se esconde atras da montanha todo dia? Quanto a minha próxima encarnação, “preciso” tocar algum instrumento, nem que seja caixinha de fósforo. Já tentei teclado, mas o meu cérebro se recusa a comandar 2 mãos e 10 dedos ao mesmo tempo.Beijos. (publicado com autorização de Ivete Silveira)

  3. Ana Celina Dellavechia Duarte

    Querida Norma. Não sou “das letras” como vc. Mas tenho entendimento das coisa lindas!!! Que trabalho maravilhoso!! Não te preocupes com as técnicas. Muitos são perfeitos na técnica e não alcançam o coração de ninguém. De que vale? Amo desafios!! Este que te impuseste é maravilhoso! Já atingiste teu objetivo! Tudo está lindo!! Sempre que imagino bordar algo, parto de uma casa. Acho que é nosso mundo. Fostes perfeita. Ah! me sinto muito honrada de compartilhar com tudo isso. Parabéns querida e que tu sempre chegue onde te faz mais feliz!! Muitos beijos

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