Fado

Foto.: Maria de Fátima Barreto Michels
Foto: Maria de Fátima Barreto Michels

Após uma semanada de angústia, o mar estranhamente escasseado de peixe, Mestre Pedro postou-se acocorado, como o fazia desde menino, observando o mar na tentativa de decifrar os seus enigmas. Sabendo que o mar, como o amor, só consegue entender quem se entrega ao embate, decidiu ir ao encontro das águas profundas.

Não tinha dúvida de que, ao negar aos homens o sagrado alimento, o mar estava dizendo alguma coisa, mas não conseguia entender, apesar de toda a experiência. Pegou o capote, o dia cinzento prenunciando frio intenso, levantou a poita que fundeava a canoa e saiu em busca dos sinais que o ajudariam a decifrar o mistério. Adentrando as águas, a canoa ia descortinando a barra do dia.

Do mesmo modo que começou, acabou o sumiço do peixe, mas o mistério passou batido, pois o que monopolizou a vila durante semanas foi o desaparecimento do Mestre. Infatigáveis, os companheiros se revezaram na busca mar adentro, mato adentro. Tudo em vão. Restou rezar e cumprir a tradição das Sete Águas e da Coberta D’ Alma. Antônio fora escolhido, em vida, pelo Mestre para usar a sua e o fez com emocionado orgulho.

As noites e os dias sucedidos trouxeram a ocupação e a distração necessárias ao abrandamento da dor e, por fim, ao leve esquecimento. Menos para ela que nunca mais sorriu.

Confinada ao rancho, silêncio absoluto – para onde fogem as palavras diante da morte do amado? -, a porta cerrada negava entrada às mulheres que vieram trazer-lhe o traje negro que a transformaria em devotada esposa de marido morto.

Igual tratamento foi dado àquelas que diariamente vinham lhe trazer o pescado no cumprimento da tradição. Era como se ela se negasse a realizar a ausência do Mestre.

De início as mulheres deixavam o peixe na porta do rancho, mas com o passar dos dias a podridão as demoveu da ideia. O cuidado inicial foi dando lugar à indiferença. Alguém lembrou que era a segunda vez que ela cometia o sacrilégio de não aceitar o seu fado.

A vida corria como antes. A companheirada chegara com o resultado da pesca – o mar voltara a ser generoso -; um jovem aprendiz relatava as aventuras do dia quando uma visão cortou sua fala pelo meio. Em frente ao rancho, o bastidor do crivo sobre o colo, lá estava ela a urdir como o fazia enquanto esperava o Mestre retornar da pescaria. Alguém cogitou se aproximar, mas desistiu ao perceber que ela parecia não tomar conhecimento do que passava ao derredor.

Não que antes fosse bonita, isso não. Mas agora, agora ela parecia irreal, quase uma assombração. O cabelo branqueara de uma hora para outra e sua magreza mal era encoberta pelo velho vestido amarfanhado.

A cena se repetiria todo fim de tarde, mesmo nos dias chuvosos. Ficava horas em frente ao rancho, ocupada com o bordado. De quando em quando olhava para o mar, ora perdidamente, ora à espreita. Uma criveira experiente atentou que ela fazia e desfazia o bordado. Bordava e desbordava, repetindo um velho costume entre as criveiras ilhoas.

Certa feita, o dia já anunciando a despedida, alguém alertou para um estranho movimento das águas. Não era cardume, assegurava o olheiro pela experiência. Olhando atentamente dava para ver uma grande onda que vinha de longe, pra lá de onde a vista alcança. Ao contrário das outras, essa vinha “de comprido”, segundo o relato. Aproximava-se com força fazendo um barulho ensurdecedor.

Temendo o pior, as mulheres correram a reunir os filhos. Portas às trancas, espelhos cobertos, facas e tesouras embrulhadas em panos, escondidas nos baús dos guardados, mãos postadas em oração, velas acesas, Santa Bárbara, São Jerônimo! Já os homens reuniram-se na porta do rancho de armação que, além de servir ao conserto dos barcos, abrigava uma imagem de Nossa Senhora da Conceição fazendo também as vezes de capela, nas horas de precisão. Era o caso.

– O destino da onda, o mar é que rege!, advertiu um velho. E o que se viu em seguida confirmou a sentença. Aquilo não podia mesmo ser dominado porque nunca fora visto antes, e nem depois, por nenhum ser vivente, nem aqui nem em qualquer outro lugar, segundo se tem notícia.

Um Vento Sul furioso, daqueles que parece reunir todos os ventos do mundo se abateu sobre a vila, revolvendo águas e areias, remodelando a silhueta das dunas, escancarando portas e janelas. Não uivava como os ventos comuns, antes bramia, chicoteava, rugia. Parecia chamar, intermitentemente: _ Hei!.. Hei!… Hei!…

Ao contrário do que era de esperar, amenizou conforme foi se aproximando da costa. Ainda assim as águas invadiram tudo: praia, dunas de areia, o rancho da armação, o armazém, as casas. Surpreendente, restou tudo intacto, com exceção do rancho de Mestre Pedro.

No repuxo, as águas levaram consigo a canoa bordada, ela dentro adormecida, pálida em seu camisolão de crivo inacabado, os longos cabelos mais parecendo um véu de noiva esvoaçando ao vento, por fim tornado em brisa leve.

Mesmo hoje, passados tantos anos, ainda é possível ver a canoa vagando ao largo, enquanto o vento forte ricocheteia em noites de tempestade. Na localidade uns afirmam, outros duvidam, os mais novos dão de ombros. O que se tem como certo é que a visão não se dá para qualquer um.

* Quando não havia estradas tal como as temos hoje, na Ilha, as vilas eram praticamente isoladas. As incursões até a cidade eram feitas de barco, a pé ou em cima de carros-de-boi pelos caminhos abertos no mato, o que demandava muitas horas, às vezes dias, de viagem. Contam os muito antigos que, por conta disso, e também pelo preço dos carretéis de linha, as mulheres ilhoas faziam e desfaziam os bordados de crivo dando novo aproveitamento à linha e ocupando seus dias enquanto esperavam o retorno de seus homens. Repetiam, sem saber, o fado da Mulher que Espera, imortalizado na figura mítica de Penélope, uma mulher, rainha, habitante de uma certa ilha distante no Espaço e no Tempo.

 

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2 comentários sobre “Fado

  1. Ivete Silveira

    Trovoada se aproximando, minha mãe colocava um lençol sobre o espelho e rezávamos para Sta. Bárbara e São Jerônimo , todos em cima da cama. Tu me trazes muitas lembranças, Norma.

    1. Minha mãe também fazia isso, mas éramos obrigados a ficar em volta dela sobre a cama. Minha Vó embrulhava as tesouras e as facas e as guardava num baú, também cobria o espelho, mas antes o virava para a parede, para garantir.
      A Bisavó, fazia tudo isso e ainda acendia velas para Santa Bárbara e São Jerônimo.
      Na hora do aperto eu digo baixinho: – Valei-me Santa Bárbara e São Jerônimo!

      Provocar lembranças é a suprema felicidade para o cronista. Obrigada!

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