Piano Bar

(inspirado em algumas cenas clássicas do cinema e em outras da vida real)HOTELROYAL livro

Essa história poderia ter acontecido em qualquer cidade do mundo, mas digamos que tenha ocorrido na Ilha de Santa Catarina. Seus protagonistas poderiam ter quaisquer nomes – inclusive o meu e o teu -, mas digamos que ela se chamasse Carmélia e ele João Alfredo. Poderia ter acontecido num tempo qualquer, mas digamos que tenha sido por volta de 1965. No fundo, todas as histórias de amor se parecem.

Alfredo amanhecera com uma emoção sombria, talvez pelo acúmulo das três noites mal-dormidas. Por mais que tentasse, não conseguira explicação para a angústia que o acompanhava nos últimos dias, até que abriu o jornal O Estado, naquela manhã.

Abandonando o café pela metade, dirigiu-se ao seu quarto de viúvo. Passou o dia deitado olhando o teto. No fim da tarde tomou um banho demorado e vestiu-se a caráter, pois a situação o exigia. Na saída, rasgou a página do jornal e guardou-a, cuidadosamente dobrada, no bolso do paletó.

Ganhou a rua. Mal deu os primeiros passos, a avistou de pleno. Ela caminhou em sua direção, mas não o viu, passando ao largo. Tinha no rosto um meio sorriso, como se pensasse uma saliência. Ele se voltou, admirando-lhe o contorno das coxas destacadas pela ação do vento sobre o vestido estampado, de alcinhas.  Ficou a observá-la até que ela sumiu, dobrando a rua. Teria vinte anos, um pouco mais, talvez. Nunca mais a encontrou até que, para sua surpresa, ela veio morar na vizinhança.

O encontro diário era inevitável, a casa colada à sua. Bastava ir ao quintal ou fazer alguma volta na rua para vê-la entrando e saindo de casa ou avistá-la em movimento pela sala, a visão favorecida pela janela sem cortina e o muro baixo. A possibilidade do encontro no portão o transformou em pontualíssimo, uma qualidade insuspeitada por quem o conhecia.

Com o tempo soube que trabalhava no Hotel Royal e que era noiva de um piloto da Cruzeiro do Sul que a visitava quando permitia a escala de vôo, já que residia no Rio de Janeiro. Desse dia em diante passou a freqüentar o Piano Bar do Hotel apenas para vê-la.

Na entrada, a menos que ela estivesse ocupada, comentava alguma amenidade ou cumprimentava-a de longe, seguindo para o salão. Ocupava sempre a mesma mesa, próxima à janela, de modo a observá-la discretamente enquanto ela atendia os hóspedes no balcão. No início do mês dava-se ao luxo de pedir um “filé com fritas”; da outra metade em diante apenas um drinque – Hi-fi -; atento ao som do piano magistralmente tocado por Mirandinha, o pianista-mor da cidade que abrilhantava o fim de tarde dos hóspedes do Hotel Royal.

 Iniciava com uma seleção consagrada do blues e do jazz, depois abria espaço para os pedidos que incluíam as últimas do hit- parade americano – New York, New York, Smoked get in your yes, Only you -, e também muita Bossa Nova, o ritmo que vinha revolucionando a música brasileira. De quando em quando Alfredo arriscava um pedido, sempre a mesma música, um recado sutil para Carmélia, mas ia embora antes dela para não denunciar o interesse. Cumprimentava-a de longe e ia para casa rememorando sua imagem, o cigarro apagado entre os dedos e o som seco do Zippo abrindo e fechando, marcando seus passos. Sonhava freqüentemente com ela e sua lembrança o assaltava, diversas vezes, durante o dia.

Certa noite, ao sair, percebeu a ausência de Carmélia, por isso ficou surpreso quando a encontrou parada, a silhueta iluminada pelo imenso lustre de cristal, no saguão do Hotel. Mais surpreso ficou ainda quando ela disse que estava à sua espera e, com uma graça toda feminina, confessou que mentira ao gerente pedindo para sair mais cedo alegando dor de cabeça.

Cavalheiro, ele insistiu que tomassem um carro de praça até em casa, mas ela disse que preferia ir caminhando, se ele não se importasse. Lado a lado, passos contidos para esticar o tempo, subiram a Praça XV passando em frente ao prédio do Banco INCO, de cujo andar superior ainda sobrevinha, como uma alucinação, uma voz tentando imitar o inigualável Cauby Peixoto no extinto e popularíssimo programa de auditório da Rádio Diário da Manhã.

Subindo a Rua dos Ilhéus, passaram pelo Teatro Álvaro de Carvalho, cortando a Praça Pereira Oliveira em direção à Chácara de Espanha. Antes, demoraram-se diante do cartaz que anunciava para breve um espetáculo teatral com a Companhia de Teatro Procópio Ferreira. Caminhavam vagarosamente, conversando sobre um tema qualquer, o assunto mero pretexto para os entreolhares sorridentes, um tocando de leve o braço do outro com a desculpa de enfatizar o que ia ser dito. (Ela não mencionou o nome do noivo, nem ele o da noiva, apesar das alianças). Por fim chegaram ao seu destino. Ainda tinham assunto, por isso quedaram-se um pouco mais no portão, sob a luz de um poste da ELFFA, a Empresa de Luz e Força da Cidade. Mas a conversa ficou para outro dia, pois a mãe, zelosa da reputação da filha, gritara lá de dentro para que ela entrasse. Três vezes.

Os encontros tornaram-se freqüentes, só que agora era ele quem esperava. Caminhavam conversando e rindo à toa pelas ruas. Às vezes ela se apoiava em seu braço, às vezes ele no dela, entretidos, absortos, apartados do mundo. Quando chovia, tomavam um carro-de cavalo. Falavam sobre os filmes em cartaz no Cine São José, no Cine Roxy, no Cine Ritz, recomendavam-se músicas, compartilhavam passagens da infância, falavam do trabalho e dos sonhos, descobrindo e construindo afinidades. Alfredo fantasiava uma liberdade inexistente, tanto que chegou a convidá-la para a tradicional Soirée de Inverno do Lira Tênis Clube, ele que nem sabia dançar. A mãe não deixou, não ficaria bem.

Numa manhã de sábado alguém bateu palmas no portão da casa, ele ouviu. Era Carmélia, com um envelope na mão. – É dele! Ela disse. Está vindo me buscar… Alfredo nada disse, apenas baixou o olhar, o silêncio erguendo um mundo entre os dois. Dias depois ele percebeu o pequeno envelope introduzido por baixo da porta da sala de visitas. Reconheceu a letra feminina que dizia: – Parto amanhã. O avião sai às 16hs. Uma palavra tua…

Dava para ouvir o alvoroço da mãe e da irmã mais velha na despedida de Carmélia. Contrariando os antigos planos, casaria por lá. Alfredo ficou atrás da porta, à escuta, a mão sobre a maçaneta, mas o gesto não se cumpriu.

Muitos anos se passaram, desde aquele dia. Ela nunca retornou à cidade.  A operação de vesícula, seus problemas, suas pequenas conquistas, as notícias chegavam através da irmã mais velha que agora cuidava da mãe cuja saúde ficava cada dia mais frágil. Alfredo vibrou ao saber que Carmélia, afinal, abriu o tão sonhado ateliê de costura e que, ao contrário dele, tivera muitos filhos, naturais e adotivos; sabia seus nomes e datas de nascimento. Que enviuvou ainda jovem. Anos depois ele também enviuvou; então decidiu procurá-la. Já não eram jovens, mas, por ele, aquela história recomeçaria do ponto exato em que parou. Decidido, obteve da irmã mais velha o endereço e enviou-lhe uma carta propondo um encontro para breve. A carta dizia: se ela não o tivesse esquecido, que o encontrasse dia tal, a tal hora, em tal lugar.

Alfredo chegou cedo e saiu muito depois da hora marcada, mas ela não apareceu. Antes de retornar à Florianópolis, deu o endereço ao taxista pedindo que parasse um instante na porta do prédio em que ela morava. Por algum tempo ficou a observar as cortinas brancas voejando pela grande janela entreaberta. Relembrou o pedido de um gesto que ela fizera ao partir – saber que aquela seria a última vez que a via teria mudado alguma coisa?  Nesse instante, uma mão delicada e cerrou as janelas devolvendo-o à realidade. Voltou à Ilha e à sua previsível vida de viúvo e aposentado. Tempos depois foi a vez da irmã mais velha se mudar do bairro.

Da viagem ao Rio até a manhã daquele dia, decorreram exatos sete anos sem uma única notícia de Carmélia. Já não havia tempo para recomeços, advertia a nota do jornal. Daí o olhar perdido, o café abandonado pela metade, o banho demorado, a melhor roupa e o andar lento pelas ruas assaltado pela lembrança do momento em que a viu pela primeira vez, há mais de quarenta anos, ela com um vestido estampado e um sorriso maroto, passando ao largo. Quando se deu conta, estava diante do Hotel Royal. Decidiu entrar, dirigindo-se ao Piano Bar. (Isso ainda existe?).

No salão totalmente remodelado, um grupo de executivos comemorava alguma coisa num happy-hour barulhento. Alfredo aguardou que vagasse a mesa próxima à janela e então sentou, como o fazia, de modo a observá-la atendendo os hóspedes. Chamou o garçom e pediu um “Hi-fi”, distraído de seu anacronismo. O rapaz, bem treinado, esclareceu que a bebida não constava no cardápio, mas que o Bar tinha uma excelente carta de vinhos nacionais e importados, além de cervejas artesanais, uísque, espumantes, vodkas, tequilas… Ele fez que não, algo irritado, voltando-se para a janela onde as luzes começavam a destacar a Ponte Hercílio Luz contra o céu escuro.

Observando que já não se via o facho de luz azul do Aeroporto percorrendo o céu da cidade, foi despertado pela música. O som não vinha de um piano, como outrora, mas de um desses modernos equipamentos eletrônicos que desempregam uma orquestra inteira. O cantor era competente ainda que o repertório não fosse do seu agrado. Com certa dificuldade, Alfredo levantou e, dirigindo-se ao músico, pediu: – Play it again, Sam?

Hamilton já estava acostumado. Depois do terceiro copo todo pianista vira Sam aos olhos de um freguês apaixonado. Esquecendo o velho e remetendo às suas próprias lembranças, no fundo ele ansiava por esse momento, Sam dedilhou com maestria:

Eu sei que vou te amar…”.

Da rua, o que se ouvia, era uma linda canção de amor entrecortada pelo tilintar dos pratos e talheres sendo recolhidos das mesas do Piano Bar.

 (para o Mirandinha, in Memorian)

                                                            

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About Norma Bruno

Vivo na Ilha de Santa Catarina desde que nasci. Sou de aquário, portanto já nasci aluada, mas contraditoriamente, não me dou bem com tecnologia e gosto mesmo é de coisa velha. Fiz muitas coisas, deixei para trás outras tantas, tenho muito por fazer. Coleciono cenas urbanas, rendas de bilro e revistas antigas. Escritora amadora em todos os sentidos, invento coisas, conto histórias. Livros publicados: - Prosa, quase Poesia - ou vice-verso - Tempo Editorial. 2015 - Cenas Urbanas e Outras Nem Tanto. Bernúncia Editora. 2012 - A Minha Aldeia Editora Papa-Livros. 2004. - Leia Crônicas da Desterro no site www.carosouvintes.org.br

4 thoughts on “Piano Bar

  1. Norma Bruno, tu me surpreendes. Parecia que estava lendo uma crónica de Nelson Rodrigues, com uma ressalva: Muito melhor ,ou seja, sem pornografia.
    Obrigada pela boa leitura que me proporcionas.
    Ivete Silveira

    • Sem pornografia tudo bem, mas melhor que o Nelson é bondade tua, né amiga? A gente podia se encontrar qualquer dia desses para um café, né Ivete? Obrigada pelo incentivo e um abraço!

    • O Mirandinha foi colega do meu pai, na Rádio Diário da Manhã, Denise. Quando criança devo tê-lo ouvido tocar, mas, infelizmente, não lembro. Neste conto quis lhe prestar uma homenagem, pois sei da sua importância na Cidade. Parabéns pela tua arte, ainda não consegui ir te ouvir, mas continua me convidando, uma hora nossas agendas se acertam. Um abraço

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