Café Mané


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É conhecida a má fama do café ingerido pelo nativo até bem pouco tempo. Ralo, por uma questão de paladar, requentavam-se as sobras para evitar o desperdício. Caso passasse do ponto e levantasse fervura durante a reciclagem, submetia-se o líquido ao famoso “susto”.

Para quem não sabe, o “susto” consiste em colocar o bule dentro da pia da cozinha e abrir/fechar a torneira tão rapidamente quanto possível, despejando sobre o café fervente uma mínima quantidade de água fria para deixá-lo na temperatura ideal. A operação requer treino e maestria. Minha mãe era expert! Tanto que, quando chegava alguém da família, ela dizia: – Vai um “fervidinho”?

Antigamente as casas de moradia tinham quintais com criação de galinhas e porcos, uma vaca de leite e pomares com pés disso e daquilo. Muitas tinham também um pé de café, exclusivo para o consumo familiar. As torrefações eram poucas, duas ou três, em toda a cidade.

Dizia-se, à boca pequena, que para fazer render o produto as empresas torravam e moíam grãos de milho-verde e de pipoca adicionando-os ao pó de café. Sempre se ouviu falar disso, mas, que eu saiba, nunca se fez nada para apurar ou coibir a prática. Outros tempos.

A cidade modernizou-se, as casas que restam não têm mais quintais, nem pomares. Hoje, leite, galinha, porco e café a gente compra no hipermercado e minha mãe não oferece seu “fervidinho” faz tempo, coitada! Quanto à má fama do café mané, dia desses encontrei uma nota num jornal velho que parece confirmar os velhos boatos:

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O texto acima foi publicado no jornal Estado, edição de 27 de novembro de 1929. No dia seguinte, uma nota de esclarecimento:

“Moinho prodigioso”

Tórra café e rescende pipóca

A reclamação publicada em nosso número de hontem relativa a uma fabrica de café sita á  rua Almirante Alvim, não se entende, é claro, com a torrefação de C. Costa & Cia. e sim com algum moinho clandestino que a Hygiene mais cedo ou mais tarde descobrirá.

A torrefação de C. Costa & Cia., conforme pessoalmente verificamos, não trabalha absolutamente á noite, encerrando seu affazeres ás 16 horas.

-:XX:-

O jornal não contesta o uso de milho no café, diz apenas que a fábrica não tem expediente à noite. Pelo sim, pelo não…

* respeitada a grafia original

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About Norma Bruno

Vivo na Ilha de Santa Catarina desde que nasci. Sou de aquário, portanto já nasci aluada, mas contraditoriamente, não me dou bem com tecnologia e gosto mesmo é de coisa velha. Fiz muitas coisas, deixei para trás outras tantas, tenho muito por fazer. Coleciono cenas urbanas, rendas de bilro e revistas antigas. Escritora amadora em todos os sentidos, invento coisas, conto histórias. Livros publicados: - Prosa, quase Poesia - ou vice-verso - Tempo Editorial. 2015 - Cenas Urbanas e Outras Nem Tanto. Bernúncia Editora. 2012 - A Minha Aldeia Editora Papa-Livros. 2004. - Leia Crônicas da Desterro no site www.carosouvintes.org.br

2 thoughts on “Café Mané

  1. São os mistérios que povoam as ondas do mar e, à noite, por certo confundem os odores com os sabores dos tão bem torrados cafés servidos nesta sempre encantadora Ilha.

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