“Brasil, meu Brasil brasileiro…”

Pântano do Sul, Florianópolis, Sc Foto: Carolina de Assis
Pântano do Sul, Florianópolis, Sc Foto: Carolina de Assis

Decididamente, a gente gosta de feriado. O ano ainda não terminou e o brasileiro já está, calendário na mão, à procura dos dias inativos do ano seguinte. De uns dias para cá as redes sociais viraram o Muro das Lamentações; não apenas porque estamos a vivenciar o último feriado de 2013, “Natal não conta!”, mas principalmente pelo desperdício de quatro valiosíssimos dias de vadiagem, em 2014: 07 de setembro, 12 de outubro e 02 de Novembro caem no domingo e 15 de Novembro, que cai num sábado. Desperdício!

Uma pesquisa na internet, rápida e nada científica, mostra, no entanto, que apesar da má fama e ao contrário do que muitos pensam, eu pensava, não somos os campeões em ócio remunerado entre os demais países. A verdade é que somos um povo trabalhador, mas também alegre, solar e pouco exigente. Como diz o ditado, “de qualquer pé-de-galinha, a gente faz uma canja!”. Para o brasileiro, qualquer feriado é bom, mas pra ficar bom mesmo tem que cair numa sexta ou numa segunda-feira porque aí acontece o milagre: a data se transubstancia e vira: o FERIADÃO. Se cair na quinta, então… É o Paraíso!

Enquanto os trabalhadores se refestelam e os empregadores esperneiam, os bares e restaurantes festejam o movimento, as agências de viagens e os hotéis conferem os lucros. De tempos em tempos alguém sugere a redução do número de feriados sob o argumento de que o País precisa produzir, mas não tem jeito, a coisa não vai adiante. Descobri que a ideia não é nova. Em 1931, por exemplo, houve uma tentativa de acabar com a festa dos “dias endomingados” através de um projeto de lei que estabelecia o seguinte:

Art. 1º – Todos os feriados nacionaes, com execepção dos dias 1º de Janeiro, 21 de Abril, 7 de Setembro, 2 e 15 de Novembro e os dias de eleições, serão, em virtude desta lei, commemorados ou considerados dias de descanço somente de dez em dez annos.  No fim de cada decennio a contar respectivamente das datas de origem.

Art. 2º – Os feriados decretados pelo poder executivo determinarão as solennidades de caracter official, taes como o fechamento das repartições publicas, não tornando porem obrigatória a cessação do trabalho em geral.

Como assim? Feriado de dez em dez anos? Trabalhar de portas fechadas? Imagina se ia dar certo! A reação foi contundente:

“Um grupo numeroso de cidadãos, diz o ‘Correio da Manhã’ do Rio, fez patriotico appello ao governo provisório, fundamentando as razões da iniciativa, afim de pedir que seja reconsiderado o decreto que extinguiu vários feriados nacionaes, nomeadamente alguns que representam marcos notaveis na formação da consolidação e integração da nacionalidade.  Imediatamente á publicação daquelle acto governamental, mostrou-se que não se poderia justificar perante a historia política a eliminação de datas que assignalam feitos culminantes da nossa evolução liberal. E, para não citar todas, salientou-se a de 13 de maio, uma das maiores e das que não poderão ser esquecidas no calendario  civico da nação, sob pena de ficar truncada qualquer narrativa concernente ao nosso progredir democratico. 

O que é preciso evitar, isso sim, são os feriados por decreto tão frequentes até ha pouco, a proposito de qualquer acontecimento, não raro de repercussão mundial, mas sem nenhum reflexo apreciavel em nossa existência social e política”. (publicado no jornal Estado, segunda-feira, 27 de Abril de 1931). 

Apesar dos protestos, parte da população encarava a supressão dos feriados com simpatia e como uma demonstração de “amor ao trabalho” oferecida pelo governo da Revolução. As professorinhas ficaram alegres, segundo o referido jornal, uma vez que se viam desobrigadas dos discursos cívicos nas cansativas festas escolares. Já o funcionalismo reagiu com contrariedade, pois o decreto obrigava o comparecimento à repartição para “assignar pelo menos o ponto”.

A reforma de ensino patrocinada pelo ministro Francisco Campos (1930) não restaurou os feriados escolares, mas instituiu-se uma estapafúrdia compensação: “considerou de férias a primeira e a terceira quinta-feira do mez”, uma forma de recompensar “os que estudam”. Em outras palavras, “o soneto saiu pior do que a emenda!”. Algumas iniciativas eram bizarras e justificavam o esforço de regulamentar o assunto:

“Logo depois de proclamada a República, um dos governadores de Estado, no Norte, declarou feriado a data em que a sua filha baptisava uma boneca. Choveram críticas. Raça sentimental, porém, em pouco tempo víamos muita gente commovida, deante do acto, pois se tratava de filha única que era o ai Jesus! do governador.

Mutatis Mutandis – o noticiario da ‘A Noite’, nos collocou em face de episodio que provoca os mesmos sentimentos de protesto e de ternura. O prefeito de Nictheroy decretou sagrado o dia do transcurso da data natalícia do governador fluminense. E decretou porque o mesmo representa o ‘epilogo da campanha política emprehendida em nosso paiz, por processos brandos e moralizadores!’. E também porque elle mandou cancellar a divida da Prefeitura para com o Estado, divida, alias, contraída ao tempo em que o dito e referido governador foi prefeito. De começo sente-se que é excessiva a homenagem do dia santo… As criticas, porém, emmudecerão enternecidas, quando souberem que o prefeito é cunhado do governador”. (Jornal Estado, quinta-feira, 08 de Janeiro de 1925).

A realidade mostra que os esforços em controlar o elevado número de dias ociosos não vingaram, haja vista os muitos feriados que enfeitam nosso calendário até hoje. Brasileiro é um povo patriota, religioso e extremamente devotado à família, por isso as homenagens. No Brasil, ateus guardam os dias santificados e militantes de ideologias contrárias fazem feriado nas datas cívicas. Agora… Se ele vai exercer seu patriotismo e devoção fazendo churrasco ou bebendo uma gelada na praia, aí meu amigo, são outros quinhentos!

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s