A Cidade Nasceu na Praça XV

 Centenária Figueira da Praça XV

Centenária Figueira da Praça XV

A Cidade nasceu na Praça, num tempo em que a área não passava de um descampado entre uma pequena colina e o mar. Ali o bandeirante marcou e fixou o “Lugar do Início” e fez construir, à força de “pedra e cal” (Pauli, 1987:15), uma ermida em honra e glória de Nossa Senhora do Desterro e, como de praxe, o Pelourinho.  De um lado o marco da autoridade da fé cristã; do outro, o marco da autoridade política. O povoado cresceu seguindo “um modelo urbanístico das cidades renascentistas: praça retangular, ruas retas e uma igreja ocupando um lugar central” (Coradini, 1995:16), ali instalada as construções costumeiras.

A Praça recebeu outros nomes antes do atual.  Entre 1885 e 1887 foi ajardinada com árvores nativas e plantas exóticas. Com o tempo, já implantado o Jardim Oliveira Belo, passou a abrigar as hermas de diversos homens ilustres como Jerônimo Coelho, Victor Meirelles, José Boiteux e Cruz e Sousa, recentemente roubadas por moradores de rua, segundo consta. Muitas delas foram erguidas com recursos provenientes de doações dos cidadãos, conforme os jornais da época.

Mudou a Praça e também a denominação da cidade. Pela lei nº 111 de 1º de outubro de 1894, a Cidade passou a homenagear Floriano Peixoto, o Marechal de Ferro, presidente da nascente República do Brasil, uma iniciativa até hoje polêmica entre as famílias ilhoas. A razão da controvérsia é o fuzilamento de 185 prisioneiros resistentes a Floriano ocorrido naquele mesmo ano na Fortaleza de Anhatomirim sob o patrocínio do general Moreira César, segundo Oswaldo Rodrigues Cabral (1970:274-277).

Do antigo descampado que inspirou Dias Velho à atual configuração, a Praça foi cenário de passeios dominicais das famílias abonadas da província, de ingênuos romances e de outros nem tanto. Em suas adjacências, funcionou um mercado de víveres. Por ali transitavam “pombeiros, quitandeiros, quituteiras” (Coradini, 1995:49), vindos do interior da Ilha, do Continente ou das áreas vizinhas. Entre as décadas de 1970 e 1980, virou local da “Feira Hippie”, onde jovens oriundos de outras cidades e países vendiam artesanato e propagavam seu estilo de vida alternativo. Palco de comícios e conchavos políticos no passado, transformou-se em “praça de guerra” em 1979, durante um protesto de estudantes contra a ditadura militar, num episódio que se inscreveu na história do Brasil como Novembrada.

Hoje, sobre o piso de petit pavê onde em 1965 o artista Hassis retratou cenas cotidianas e tradições da cultura local transitam estudantes e executivos apressados, volteiam turistas ao redor da Figueira revivendo uma tradição inventada por algum gozador ou um guia turístico mais criativo, vagam prostitutas e garotos de programa, bradam missionários para salvar os pecadores e descansam aposentados, refestelados sobre bancos de concreto ou ao redor de prosaicas mesinhas de dominó.

Ao longe, pode-se ouvir os acordes nervosos do blues tirados de uma guitarra pelo homem magro e loiro que, instalado próximo ao velho Coreto, digladia com aquele que prega o fim dos tempos e, em vez de agradecer o trocados que atiro na caixa do instrumento, brada – Eu não quero o seu dinheiro, Man! O dinheiro corrompe o Mundo. Eu não me corrompo, a Música me salva!,  enquanto guarda o dinheiro. A perfomance valeu, foi bem paga.  

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